
Thomas Mann
Com certeza não foi por acaso, como veremos adiante, que Thomas Mann batizou de Cipolla (“cebola”, em italiano) um dos protagonistas de sua hoje famosa novela “Mário e o mágico”, lançada em 1930. O breve enredo se passa na Itália em uma localidade a quinze quilômetros de Porto Clemente: Torre di Venere, “uma das mais frequentadas praias do mar Tirreno”. Fica no sul e tem “o clima que viu florescer a civilização humana, o sol de Homero”. Eis o natural esplendor da Itália que tanto fascinou os viajantes, em especial escritores e artistas.
Cipolla é o “mágico” que aparece no título da novela. Por trás da palavra “mágico” e da própria figura do personagem, Mann condensa toda a charlatanice de que o fascismo e o nazismo se contaminaram. Não só uma simples charlatanice, mas a falsa sapiência de ocultistas, de astrólogos e de cientistas fronteiriços numa sociedade predisposta ao esoterismo e às manipulações psicológicas.
O historiador Eric Kurlander, em seu notável livro “Os monstros de Hitler: uma história sobrenatural do Terceiro Reich”, mostra-nos que os primeiros nazistas foram astrólogos de carteirinha. C. G. Jung teria comentado que o próprio poder de Hitler “não era político, era mágico”. A irracionalidade era então um dominante nevoeiro, e as elites políticas e militares davam crédito a vigaristas e lendas medievais, a exemplo do célebre General Ludendorf e do círculo que girava em seu entorno. Já junto a Hitler, ele próprio sempre pragmaticamente interessado em tais assuntos, um dos seus próximos ostentava um cartão de visitas em que se lia: “Mágico”. Coisas assim (à semelhança de certas opiniões dos ideólogos de agora) estavam no ar da Alemanha, tanto em meio ao povo quanto entre as elites. Havia jornais, livros e revistas que alimentavam os espíritos ávidos de salvação, de teorias conspiratórias, e de uma mística semierudita.
Segundo o ensaísta e romancista francês Jacques Brenner, em prefácio de uma já antiga edição brasileira de “Mário e o mágico” (Círculo do Livro, 1981), “Thomas Mann acabou admitindo que sua novela apresenta significações bastante precisas num domínio que originalmente não era o seu […] Em suas férias na Itália, ele havia observado na vida cotidiana os comportamentos privados que correspondiam ao estabelecimento de um regime totalitário”. Por isso, logo lemos, na sua famosa novela, que “a praia formigava de crianças patriotas, fenômeno anormal e aflitivo”. A onipresença de uma atmosfera abafada, opressiva, traduzia-se em “discursos sem serenidade que estragavam as brincadeiras”. Brincadeiras que terminavam por envolver no balneário os dois filhos do casal protagonista. Esposa e marido, turistas, em breve se viram às voltas com um involuntário e inocente “atentado ao pudor” por conta da filha pequena ter ficado nua por alguns instantes enquanto foi até o mar. O ar é úmido e tenso de um ardente moralismo. Se as crianças são pitorescamente “patriotas”, o que dizer de seus pais?
A “moral deturpada”, flagrada pelo narrador participante, está em toda parte. Mas seu ponto de condensação é exatamente a figura de Cipolla, “um mágico”, um ilusionista, um prestidigitador, um encantador de inocentes, que se apresenta numa velha sala de projeção cinematográfica! Ali, provocando a plateia do balneário, formada sobretudo por jovens, Cipolla gaba-se de patriotadas e até de ter conhecido um irmão de Mussolini; “em suas indiretas, deixava transparecer um rancor que não era fingido”. Todo ele eram palavras retóricas, busca de efeito.
A interlocução de Cipolla com a plateia, que tanto demonstra a maestria narrativa de Mann, termina pôr deixar a nu, pelo menos para o narrador que a sabe ler, uma sinistra psicologia. Gera-se um subtexto que nem todos percebem, mas que o narrador aqui e ali aponta, como nesta passagem: “Entretanto, nesse momento, introduziu-se em sua atitude e também no tom de suas palavras alguma coisa de repugnante, alguma coisa de um paxá que saciou sua fome. Uma mistura de sem- cerimônia grosseira e de presunção”. (Aqui, dispensável dizer, não anunciaremos o impactante final da novela, contíguo à cena acima narrada, um fim que curiosamente foi uma contribuição de uma das filhas do escritor.)
Nesse ponto, conjeturamos que pela cabeça de Mann também passaram os termos alemães “Zwiebel” (cebola) e “zwiebein” (algo como “acebolar”, um verbo que se traduz por “atormentar” e “passar um trote”). Afinal, é isso o que faz com sua plateia, e de uma maneira enviesada, isto é, um tanto subliminar, o impagável Cipolla. Dessa forma, vemos como tanto a língua italiana quanto a alemã vieram, por assim dizer, ao encontro do escritor, ou ele foi ao encontro delas, como que grifando metalinguisticamente a sua sombria fábula.
Retenhamos, finalmente, a frase final do narrador no trecho há pouco citado: “Uma mistura de sem-cerimônia grosseira e de presunção”. Não nos lembram, essas palavras, o discurso de alguns de nossos políticos? O tom desses discursos? Não qualifica bem o seu comportamento? O meio também aqui é a mensagem, como diria McLuhan. Já Mann, por seu narrador, parece nos dizer: “Fiquem atentos às palavras e de que forma elas são expressas!”. Cebola, o mágico, diante da plateia, desfolha suas camadas verbais, terminando por mostrar o seu nada e a sua tendência (inocultável) para humilhar os outros. Também assim são vários candidatos de extrema direita a presidente do Brasil neste ano de 2026. Eles não passam de cebolas, de novos Cipollas. Cebolas cruas e indigestas. E que podem fazer muita gente chorar.
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