O Cerco

O Cerco

 

Chegamos às vésperas das eleições do vizinho outubro. E chegamos mal. À exceção de Lula, por óbvias razões, é indigente o quadro de candidatos à Presidência. Flávio Bolsonaro, Caiado, Augusto Cury, Romeu Zema, Renan Santos e talvez o tremendo Marçal estão muito aquém do que o Brasil precisa e merece. São figuras de um circo sombrio e pitoresco. Equilibristas e malabaristas, vêm distraindo as massas, alimentando-as do abundante nada que paira no ar. O mais estarrecedor, embora compreensível, é o favoritismo de Flávio Bolsonaro, “procurador” de um presidiário golpista. Compreensível porque herdeiro  do pai, cuja subida à Presidência fez o Brasil descer em todos os sentidos, inclusive atuando por uma feroz falta de assistência ao povo durante a pandemia da Covid-19. E pensar que, na Segunda Guerra Mundial, assim como em anos mais recentes, os brasileiros tanto lutaram para chegar à democracia…

Dos citados candidatos, pelo menos três são de extrema direita. É significativo. É bukeliano. Fecha-se em torno do Brasil, com ou sem intervenção de Trump, a ferradura sombria do obscurantismo que varre o mundo. Num oceano de desinformação e engodo, as pessoas em geral não fazem ideia do que as espera caso a extrema direita volte ao poder. Sua justa indignação, mal sabem eles, será castigada: perda de direitos sociais e humanos, censura, fome, violência, negacionismos, fobias de gênero, empobrecimento. O desgoverno Bolsonaro não terá sido mais que uma simples preparação de terreno.

O cerco se fecha, e o circo vai distraindo a população. Faz-se de conta que essas eleições são normais. Não são! É democracia contra fascismo, barbárie e violência. Já esqueceram que notáveis membros do governo Bolsonaro planejaram matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes? Os próprios políticos não estão sendo suficientemente incisivos para denunciarem o que a grande mídia esconde: o extremismo. Bem que Giuliano da Empoli, em “A hora dos predadores”, avisou sobre o despreparo dos defensores da democracia. Na ausência de propostas consistentes e projetos para o País, vai-se de dancinha em dancinha… É triste dizê-lo: num país conservador, autoritário, desigual, a reboque de trezentos anos de escravidão, é justamente neste país que a extrema direita encontra um campo propício e até mesmo acolhedor. Seja como for e quem for o próximo presidente, ainda perdurará por muito tempo o mal profundo que o governo Bolsonaro causou aos brasileiros.

“Ah, mas a corrução atual…” No Brasil, a corrupção  é sempre atual. Ela  é geral e endêmica e como tal deve ser combatida. Os fascistas, lembra o filósofo Jason Stanley em seu livro “Como funciona o fascismo”, em todos os lugares, levantam a bandeira da anticorrupção, mas eles próprios “são invariavelmente muito mais corruptos do que aqueles que eles procuraram suplantar ou derrotar”. E nos recorda ainda, citando o historiador Richard Grunberger,  que os nazistas incutiram na “consciência coletiva [dos alemães] que democracia e corrupção eram sinônimos”. Enfim, diz Stanley, “mascarar a corrupção sob o disfarce de anticorrupção é uma estratégia marcante da propaganda fascista”.

Essas eleições de 2026, comentam com razão os especialistas em análise política, também guardam para os extremistas e seus aliados uma ponta de lança estratégica: a vitória de seus candidatos ao Senado e à Câmara Federal. Há quem diga até que esse é o melhor caminho para derrubar a democracia. Uma vez com forte maioria no Congresso, o próximo passo será largo e vitorioso: mudar a Constituição e, oh glória, tutelar o Poder Judiciário. Eis aí o maior desiderato, o encoberto “santo graal”, se é que não blasfemamos ao usar esse termo e essa imagem. Assim, chega-se facilmente à instalação de uma “autocracia eleitoral”, para usarmos a expressão do historiador Steven Forti.

A César o que é de César. A Lula o que é de Lula, com todos os seus equívocos e contradições. Não é golpista, não é extremista, não transformou o País numa Venezuela(!), mas tirou o Brasil do mapa da  fome. É um democrata e um líder internacionalmente reconhecido. Não há como negar seu gênio político. No momento, não há opção mais democrática e razoável senão sua recondução à Presidência; a sua e a de Geraldo Alckimin, o grande e laborioso apolíneo que, por assim dizer, complementa o dionisíaco Lula.