
O “enviado” de Deus
Minha intenção era de focar o comentário sobre a vitória da extrema-direita alemã na eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Embora seja uma região de apenas 2,3 milhões de habitantes, na parte oriental alemã, essa vitória tem um significado preocupante: pela primeira vez, desde a derrota do nazismo, a extrema-direita, pelo partido Alternativa para a Alemanha (AFD) vence uma eleição e poderá, se obtiver maioria, governar essa região, abrindo caminho para conquistar outras regiões, como se as novas gerações alemãs desconhecem a tragédia provocada pelo nacionalismo hitlerista, há menos de cem anos.
Entretanto, a crise dentro do Supremo Tribunal Federal se internacionalizou com manchetes nos principais jornais europeus e justifica novos enfoques, mesmo porque depois do confronto entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes entrou em cena o ministro Flávio Dino e surgiu, um tanto tarde, o presidente do STF, Edson Fachin com um extintor tentando apagar o incêndio.
Assim, na próxima terça-feira, dia 15, já anulados os atos monocráticos de Mendonça, Moraes e Dino, haverá uma sessão plenária do STF, cuja pauta prevê as investigações de Mendonça sobre seu colega ministro Alexandre de Moraes.
O clima poderá degenerar, pois essa sessão plenária facilmente se converterá numa lavagem de roupa suja. Assim, a pauta prevista talvez nem seja discutida porque as investigações de Mendonça sobre Moraes, feitas sem consulta prévia dos demais ministros, poderão ser consideradas nulas.
Essas investigações infringiram regulamentos e se tornaram autoritárias e arbitrárias, pois Mendonça não tinha autoridade para isso, assim como não tinha autoridade para retirar Andrei Rodrigues da direção da Polícia Judiciária, ato já anulado mas que deu notoriedade a Mendonça, junto ao seu eleitorado e reforçou a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Nas redes sociais evangélicas circulam histórias falaciosas sobre a intervenção de Deus na vida de Mendonça, com o aparente objetivo de transformá-lo num mito.
Paralelamente, a crise provocada por Mendonça mostra uma ressonância na parcela do eleitorado considerado até agora como indeciso, visível nas últimas sondagens dando empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, levando mesmo o conhecido Luís Nassif do canal GGN a temer a vitória da extrema direita com todas suas funestas consequências.
Nesta altura, o caos instaurado no STF pelo ministro André Mendonça, também pastor evangélico, que se autoconsidera escolhido de Deus, já não parece mais um desentendimento entre juristas, seguido de denúncias e acusações.
Isso porque agora ficou evidente ter se tratado de uma bem calculada tentativa de golpe de Estado, disfarçada com toga de magistrado e apoio de Deus. Uma tentativa de golpe dentro do próprio STF, detonada a um mês das eleições com o objetivo eleitoral de provocar a derrota de Lula e assegurar a vitória do candidato praticamente sem programa de governo, cujas mentiras, repetidas nas entrevistas, lhe fazem parecer um verdadeiro Pinóquio.
O caos provocado pelo ministro-pastor no STF, que sempre evita dar sequência às investigações sobre Flávio Bolsonaro e suas ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro, deixa praticamente ignoradas as investigações sobre o dinheiro destinado ao filme Dark Horse.
Esse caos e o protegido silêncio sobre Flávio e relações com Vorcaro tinham um objetivo bem calibrado: influir no voto das pessoas mal informadas e juntar a isso o que seria o apoio de Deus, porque o ministro pastor acredita piamente ser um enviado de Deus.
Um enviado de Deus para provocar um golpe indireto, induzindo a população evangélica a votar no Flávio rachadinha, ao atacar o colega no STF Alexandre de Moraes, seu inimigo visceral, por ter impedido um golpe bolsonarista e por ter sido um dos principais responsáveis pela prisão de Jair Bolsonaro.
Como um ministro do STF pode usar a Internet para pedir e agradecer as orações de apoio de seus milhões de seguidores evangélicos, depois do caos criado no STF, introduzindo o fator religioso na crise e ignorando ser o Brasil um país laico?
Mendonça sabia muito bem que ao recorrer aos evangélicos, transformados em importante força política, isso significava uma importante propaganda e publicidade em favor de Flávio perto das eleições. Assim como a
decisão monocrática de afastar Andrei Rodrigues da PF tinha o objetivo de proteger Flávio Bolsonaro, numa intervenção evidente nas eleições.
Mas uma coisa precisa ficar bem clara – não vivemos mais na Idade Média e nem o Brasil é a terra dos aiatolás: intervenção divina nas eleições por orações, igrejas e redes sociais é uma afronta à laicidade do regime institucional brasileiro e constitui ameaça de golpe de estado. Intervenção divina nas eleições constitui tentativa de golpe de estado e se for consumada, é golpe.
E não se pode esquecer que essa intervenção divina no STF pode favorecer os EUA de Trump e Marco Rúbio e nos transformar em vassalos. Com uma perda da nossa soberania logo depois da comemoração da nossa independência em 1822.
Fiquemos atentos, embora possa ocorrer dia 15 uma reversão da situação, voltando-se contra André Mendonça, não se pode esquecer: houve uma real tentativa de golpe dentro do STF, cujas consequências serão visíveis nas próximas sondagens eleitorais, podendo se prolongar até as eleições.
Um texto escrito com paixão tende a sufocar a racionalidade que poderia atenuar interpretações maniqueístas.
O articulista, apesar de experiente, incorre em um reducionismo analítico ao assumir — sem apresentar argumentação convincente — que teria havido uma “tentativa de golpe” por parte do “ministro‑pastor” André Mendonça, que teria “instaurado o caos no STF… com o objetivo eleitoral de provocar a derrota de Lula”.
No próximo dia 15, o Brasil assistirá ao patético espetáculo de sua Corte Suprema tentando encontrar uma saída para o lamaçal em que se vê envolvida, resultado das condutas imorais, antiéticas e possivelmente criminosas de dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli (este, inicialmente, protegido).
Se o Supremo não cumprir seu papel institucional, caberá a um Senado renovado assumir a responsabilidade que lhe compete.
Fui ler os comentários de Sergio Alves, e aí tive que ler a diatribe do nosso apresentador de recortes de impensa europeia, o velho jornalista Rui Martins. De fato “paixâo sufocando a racionalidade”. Um debate nesse linha ultrapolarizada de Rui Martins seria ainda mais caótico do que foi a sessão do STF de 15 de setembro de 2026. Pelo menos nenhum dos togados argumentou com “deus”. A argumentação foi jurídica, com momentos de pura xingação. Não conseguiram decidir muita coisa, mas por ora a maioria decidiu que Fachin deve conduizir os procedimentos sobre a maneira de decidir se devem ou não devem ser iniciadas investigações sobre Alexandre de Moraes e André Mendonça. Indícios de conduta indevida e ilegal são apontados tanto para Moraes quanto para Mendonça, nas acusações recíprocas entre dois grupos no STF. Espero que a encrenca se resolva dentro do STF. Aliás, ali apontaram que Fux também foi mencionado em mensagens de Vorcaro. E não parece que será resolvida antes das eleições. O Senado entrar na rinha diretamente vai aumentar ainda mais a confusão insttucional.
Com todo respeito ao nobre jornalista, mas acho que esse espaço poderia ter sido usado de outra forma. Em vez de aproveitar a matéria para deixar tão evidente a sua preferência política, seria muito mais importante discutir o que realmente está acontecendo dentro do STF.
Há questões muito sérias que precisam ser esclarecidas. Por exemplo: como fica a atuação de ministros quando a decisão ou a questão analisada envolve diretamente um deles? E como explicar o fato de um ministro já ter apresentado seu voto e, posteriormente, pedir vista do processo? São questões que merecem respostas claras, independentemente de quem esteja envolvido.
Se existe preocupação com a democracia e com as instituições, essa preocupação precisa valer para todos. Não podemos defender a Constituição apenas quando as decisões favorecem o nosso lado político.
Criticar André Mendonça é legítimo. Mas criticar Alexandre de Moraes, Flávio Dino ou qualquer outro ministro também é. O STF não pode ser tratado como território de uma determinada corrente política.
O que espero de um jornalista é justamente isso: apresentar os fatos, questionar todos os lados e deixar o leitor formar sua própria opinião.
Porque, no final, a discussão não deveria ser sobre Lula, Bolsonaro, esquerda ou direita. Deveria ser sobre Constituição, limites do poder, devido processo legal e imparcialidade da Justiça.
Democracia de verdade exige coerência: aquilo que condenamos quando vem de um lado também precisa ser questionado quando vem do outro.