Rua da Mouraria, em Salvador, Bahia. Uma rua larga, zona azul dos dois lados, onde costumam estacionar os automóveis que vão às compras no comércio popular da redondeza. Da casa onde fiquei hospedada, ouvia-se, em alguns momentos do dia, o Hino Nacional brasileiro transmitido em um autofalante, com vozes acompanhando, e depois repetindo palavras de ordem das quais não se distinguia o teor.

Defronte ao Comando da Sexta Região Militar do Exército, uma nova paisagem urbana que se espalhou pelas capitais brasileiras, após a derrota de Bolsonaro nas urnas: o acampamento dos golpistas inconformados com a derrota. Aquele Quartel Militar fica num espaço de intensa movimentação de pessoas e automóveis. Já ouvira depoimento de alguns motoristas de Uber, pois para chegar em casa necessariamente se passava defronte ao quartel. Um deles: “Se isso fosse no tempo de ACM, ele já teria desocupado a área e prendido esses desordeiros.” 

Ressuscitei a socióloga pesquisadora, que interrompeu, no final de uma manhã ensolarada, a gostosa visita aos novos museus e às velhas igrejas, para ver aquilo de perto. Fui lá. Era mais estarrecedor do que os frios números da pesquisa Atlas Intel sobre a invasão ao Congresso Nacional, ao Supremo Tribunal Federal e ao Palácio do Planalto: “Na sua opinião, Lula venceu de fato a eleição (ganhou mais votos que Bolsonaro)?” 40% responderam que não, Lula não ganhou mais votos. 37% são a favor de uma intervenção militar para invalidar o resultado da eleição presidencial.

Eram 11:30 quando fui entrando, como quem não quer nada. Num amplo espaço entre a calçada e o jardim em frente ao quartel, as lonas fazendo as vezes de teto, três barracas de acampamento, e ao fundo, atrás de um balcão improvisado, água, bebidas, salgadinhos, pipocas, geladeira e freezer. No lado oposto, três banheiros químicos. Aproximei-me de uma mesa na qual estavam exposto livros, como se fosse um dia de lançamento. A autora, psicóloga, prontificou-se a me dar autógrafo, caso eu quisesse comprar o livro. Um senhor que estava próximo à mesa, que não desgrudava do celular, me recomendou. Havia uma meia dúzia de cadeiras de praia espalhadas pelo recinto. Pedi para me sentar em uma delas e comecei a folhear o livro, sem referência, sem índice, sem separação de capítulos. Impossível discernir o conteúdo. Do começo ao fim, destaque em caixa alta das palavras DEUS, PÁTRIA, FAMÍLIA, que não apareciam assim juntas, como no integralismo de Plínio Salgado. 

Entre homens, mulheres, jovens, velhos, brancos, mestiços, negros, circulavam naquele espaço cerca de trinta pessoas. Conversavam em pequenos grupos e nenhum deles questionou o que eu fazia lá. Aos poucos, depois de recolocar o livro na mesa, entabulei conversa com o senhor do celular. Objetivo do acampamento? Impedir que Lula subisse a rampa do Planalto. “Mas ele já não foi diplomado?” argumentei. “Tudo fake, minha senhora, essa diplomação não existiu.” “E a posse, depois de amanhã?”. “Pode estar certa de que não existirá posse.”

Aproximava-se a hora do almoço. Meu informante me diz que eles cantam três vezes ao dia: ao alvorecer, ao meio dia, e às 6 da noite, na hora do Ângelus. “Hoje o general está no quartel. Tem muita chance de ele vir se juntar a nós”. “Como o senhor sabe que ele está no quartel?” “Veja lá, a bandeira está hasteada e a janela aberta.”

Um outro senhor, branco, com cabelo cortado à escovinha, segurando uma enorme bandeira, começa a mobilizar todos para formar em frente ao quartel. A autora pede para eu olhar pelos livros enquanto ela se desloca para a formação em estilo militar, de costas para a rua e de frente ao quartel. Ouvem e cantam o hino. Depois, rezam o Pai Nosso. E em seguida um deles, que está na primeira fila, inicia, como uma ladainha, as palavras de ordem pedindo a volta das Forças Armadas. Repetem à exaustão, debaixo do sol escaldante do meio-dia baiano (eu permaneço embaixo da lona, ao abrigo do sol), várias palavras de ordem, e olham ansiosos para a janela aberta do quartel. 

O general não aparece. O que mais me impressionou foi ver ressurgir com tanta força, em pleno século XXI, esse fanatismo com forte marca religiosa, sustentado em um mundo paralelo de notícias falsas, descoladas da realidade. A fábrica de mentiras das redes sociais é assustadora. Pensei com meus botões: não vale a pena se perder tempo com essa horda de fanáticos seguidores de Bolsonaro. Esses acampamentos morrerão por inanição. 

Três dias depois, constatei que estava equivocada, ao acompanhar o horror do fatídico domingo, 9 de janeiro. Eu poderia me enganar. Mas não as autoridades eleitas e empossadas, que deixaram o assalto acontecer, com a destruição do patrimônio público, e de obras de arte que estão acima dos homens e governos de plantão.

Hoje recebo uma mensagem no celular: “Uma palavra de conforto à família de quem foi preso: Eles não vão desaparecer, não vão ser torturados, não vão ser mortos e seus corpos nunca mais encontrados. Que sorte, esse protesto acontecer em uma democracia, e não em uma ditadura”.

  

Quinta feira, 12 de janeiro de 2023