
Banho de água fria
A última rodada de pesquisa da QUAEST trouxe alguns dados bastante interessantes sobre a disputa eleitoral. O primeiro é que, nos sete cenários estimulados, apenas as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro conseguem pontuação entre 30% e 39%, enquanto os demais patinam em índices de 7% ou menos, confirmando o quadro de polarização calcificada tratada com riqueza de detalhes no livro “Biografia do abismo”, de Felipe Nunes e Thomas Traumann.
Reforçando tal percepção, temos a informação que, a pouco mais de seis meses do pleito, 57% afirmam que sua opção de voto é definitiva, sendo que entre quem indica preferência por Lula, 67% afirmam não pretender mudar sua escolha e no caso de Flávio Bolsonaro esse número é de 63%.
Esse quadro tem se mantido constante desde dezembro quando o ex-presidente indicou o filho como seu sucessor. Apesar das especulações à época de que se tratava de um mero balão de ensaio, a realidade tem mostrado sua consolidação como uma candidatura competitiva.
Então porque há lideranças políticas empenhadas em construir uma candidatura da autodenominada terceira via? Creio que há duas razões, dependendo dos atores envolvidos. De modo geral há uma confusão bastante comum na análise dos números que apontam um percentual entre 35% e 40% do eleitorado cansado da polarização. Tal cansaço não é suficiente para se transformar em voto, sendo mais provável que uma parte opte pela abstenção enquanto outra parcela acabe cedendo à ideia de escolher entre os dois polos a partir da rejeição.
Já a segunda razão pode ser representada pelos movimentos de Gilberto Kassab e seu PSD. Parece-me cada vez mais evidente que ele está fazendo uma aposta para além de 2026, considerando o esgotamento das duas alternativas postas atualmente, seja porque Lula disputará sua última eleição e Flávio Bolsonaro ainda não é um candidato com personalidade própria.
Das três pré-candidaturas apresentadas pelo PSD tudo indica que Ratinho Junior deverá ser escolhido. Tanto ele como Ronaldo Caiado têm trabalhado para conquistar o apoio do eleitorado que se considera de direita, mas sem abrir mão de flertarem com o bolsonarismo. Ambos, inclusive, já assumiam compromisso de caso vitoriosos, anistiarem os golpistas. Não se deve estranhar tal movimento já que a maioria da sociedade brasileira tem se declarado como conservadora. Kassab sabe que ele não tem com PSD possibilidade de disputar o eleitorado de esquerda. Então, a pretensão dele é sair das urnas de 2026 com seu partido sendo, no futuro, o principal representante desse segmento na sociedade.
E essa intenção fica ainda mais reforçada por outro resultado trazido nessa pesquisa. Para além da tradicional segmentação sociodemográfica, a amostra da QUAEST apresenta o eleitorado distribuído em cinco grupos: Lulistas (19%); Esquerda não Lulista (14%); Independente (32%); Direita não Bolsonarista (21%); e Bolsonarista (12%). Observemos que a soma dos dois primeiros grupos e dois últimos blocos dá exatamente os mesmos 33%.
Dessa forma, os dois candidatos líderes das pesquisas sabem que o foco de atenção está nos independentes, principalmente porque a disputa deve ser decidida por uma estreita margem. Lula vai tentar conquistar mais uma vez o apoio desse segmento, como em 2022, retomando a narrativa de ser o único candidato em condições de evitar a volta da extrema direita ao poder. Flávio Bolsonaro, por seu lado, vem tentando se apresentar como um político mais moderado que o pai, procurando deixar claro não há risco dele implantar um regime autocrático.
Porém, para nenhum dos dois é uma tarefa simples. A mesma pesquisa mostra que 43% têm mais medo de Lula continuar enquanto 42% têm medo da família Bolsonaro voltar. Ou seja, com a sociedade dividida, polarizada e calcificada a disputa deverá seguir esse roteiro até outubro, jogando um balde de água fria em quem aposta na possibilidade de vitória de uma hipotética candidatura de terceira via. A conferir.
Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia
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