Lula

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Ao longo das últimas três décadas, Lula da Silva tem sido uma presença destacada no cenário político brasileiro, liderando o Partido dos Trabalhadores, participando ativamente de todas as eleições presidenciais, assumindo três mandatos dos cinco e meio governos petistas. Os brasileiros com menos de 50 anos não conheceram uma disputa eleitoral no Brasil que não tivesse Lula como uma das principais figuras políticas. Como resultado desta história, Lula da Silva conseguiu criar no eleitorado brasileiro uma corrente de adoradores e fiéis seguidores, o fenômeno chamado de lulismo que representa cerca de 15 a 20% dos brasileiros. No entanto, refletindo os equívocos, as denúncias de corrupção, o populismo dos seus governos que afundou o Brasil na mediocridade econômica e social, com apenas melhorias inerciais, foi se formando na sociedade brasileira um cansaço e uma forte rejeição a Lula, um anti-lulismo quase fanático. Na última pesquisa Quaest, a seis meses das eleições presidenciais, o índice de rejeição ao presidente Lula chega a 55% dos eleitores.

Na ausência de concorrentes com capacidade de mobilizar o sentimento de desencanto e insatisfação da sociedade brasileira, o anti-lulismo foi capturado por Jair Bolsonaro, o capitão afastado do Exército e ex-deputado do baixo clero do Congresso, um político de extrema-direita, despreparado e saudoso da ditadura militar e golpista, tão saudoso que tentou dar um golpe de Estado quando perdeu as eleições de 2022. Desde 2018, as eleições presidenciais no Brasil têm sido uma disputa entre rejeitados, os anti-lulistas caindo nos braços de Bolsonaro e os anti-bolsonaristas correndo para o candidato do PT (Lula ou Haddad). O resultado é uma polarização nefasta que carece de uma discussão de ideias e projetos e não deixa espaço para novas lideranças ou tendências políticas. A polarização serve aos dois lados da disputa: a força eleitoral de Lula reside no seu adversário. E o clã Bolsonaro só tem chances enquanto o seu adversário for Lula da Silva.

Para as próximas eleições, a arena está montada para o confronto entre Lula da Silva, candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, unificando a direita e surfando no anti-lulismo que representa algo em torno de 55% do eleitorado. Entretanto, as últimas pesquisas eleitorais, mostrando que existe risco real de Lula não ser reeleito, deu origem a especulações de bastidores de uma possível retirada da candidatura do presidente. Alguns analistas políticos discutem sobre o futuro do Brasil pós-lula a partir de 2030, supondo a sua reeleição que, neste caso, seria antecipado de quatro anos com a sua atuação deslocada para os bastidores da política brasileira. O próprio Lula fez, recentemente, declarações ambíguas que alimentam as suspeitas de, no mínimo, uma avaliação interna de uma possível desistência.

Se trata, segundo informações, de preservar a biografia de Lula, evitar que ele encerre a sua carreira política – respeitável carreira com três mandatos presidenciais, cantada em verso e prosa – com uma derrota nas urnas, principalmente sendo vencido por candidato do clã Bolsonaro, um final melancólico para o maior líder popular do Brasil deste século. Ocorre que, pensando nesta hipótese, Lula e seus aliados estão preocupados com a preservação da imagem que vai deixar na história política do Brasil e não, o que seria de esperar, com futuro do Brasil, já que, desistindo da eleição, estaria entregando o poder a Bolsonaro, de triste memória.

No entanto, embora a eventual saída de Lula da disputa eleitoral tenha um propósito personalista, fugindo para poupar a biografia pessoal, pode ter um impacto disruptivo no cenário político brasileiro, desarrumação do jogo eleitoral. Sem Lula nas eleições, a polarização tende a se esvaziar, tirando de Bolsonaro um importante fluxo de eleitores anti-lulistas, reduzindo significativamente a capacidade da extrema-direita de atrair eleitores da direita civilizada e mesmo do centro, conservadores em geral que cedem ao bolsonarismo porque rejeitam Lula e não vêm alternativas ao candidato do PT.

A saída de Lula da disputa interromperia a inclinação de parte do eleitorado a votar em Flávio para impedir a reeleição do presidente. Os eleitores seriam estimulados a fazer a escolha do voto com base na qualidade dos candidatos e não na rejeição do adversário, podendo, portanto, se distanciar do clã Bolsonaro. Mesmo sem ser candidato, Lula é um importante eleitor (cabo eleitoral) e poderia apoiar um nome com capacidade para atrair o eleitorado de centro e de centro-direita (que votaria em Flávio por rejeição ao lulismo) com real viabilidade eleitoral. Assim, considerando que, com a sua desistência, Lula tivesse um momento de lucidez e generosidade política e apoiasse a eleição de um respeitável democrata com sensibilidade social, o Brasil teria chances de impedir a volta de Bolsonaro ao poder. O jornalista Ricardo Kotscho, amigo e aliado de Lula, imaginou que a alternativa óbvia a uma eventual desistência de Lula seria a indicação de Fernando Haddad, mas arriscou uma sugestão de nome: o do Geraldo Alckmin, o vice leal e competente, que poderia liderar um governo de continuidade, sem sobressaltos, com baixos índices de rejeição”. Poderia ganhar a eleição e Lula acrescentaria este sucesso à sua rica biografia política.