
Lula em Barcelona
No seu pronunciamento no “Fórum Democracia Sempre”, em Barcelona, o presidente Lula da Silva expressou um legítimo sentimento de indignação com o desrespeito às regras internacionais, às agressões, guerras e conflitos que ameaçam e desprezam a soberania das nações e os direitos humanos. Com razão, ele acusou os membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas de serem os “senhores da guerra” gastando bilhões de dólares em armas, dinheiro que poderia “acabar com a fome, resolver o problema energético e o acesso à saúde a toda a população do planeta”. Entretanto, no mesmo discurso, Lula deu uma escorregada quando afirmou que o “Sul Global” – que nem é sul nem global – “paga a conta de guerras que não provocou e de mudanças climáticas que não causou”. Como assim? Do Sul Global, segundo sua própria definição, faz parte a China, o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, e, quando convém, também a Rússia que invadiu a Ucrânia, violando o direito internacional, continua ocupando parte do território ucraniano e desrespeitando os direitos humanos no país invadido. Além do mais, estes dois países fazem parte do tão criticado Conselho de Segurança com direito a veto e gastam bilhões na montagem dos seus arsenais militares. Estes países estão entre os senhores da guerra e não são os “que pagam a conta”, são vilões e não vítimas, como pretende Lula.
Em outro evento realizado também em Barcelona, intitulado de Mobilização Progressista Global (MPG), com a participação de mais de cinco mil participantes, Lula fez enfáticas críticas aos governos de esquerda no mundo que, segundo afirmou, “sucumbiram à ortodoxia neoliberal”, tornaram-se “gerentes das mazelas do neoliberalismo”. Nas suas palavras, “os governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade”, deixando implícito que, para ele, a austeridade é um princípio neoliberal e condenável porque impediria o enfrentamento das mazelas. Como sempre, o neoliberalismo é o culpado de todos os males, e até quando o governo dito de esquerda, como no Brasil, não consegue ir além de medíocres melhorias inerciais, a responsabilidade é do neoliberalismo. Lula governou o Brasil por 12 anos, somados aos seis de Dilma Roussef, sua seguidora, ele conduziu o Estado brasileiro por 18 anos, que representa 72% da história do Brasil neste século. Aparentemente ele está fazendo uma autocrítica, não deveria ter assumido a gestão das “mazelas do neoliberalismo”. Ocorre que as atuais mazelas do Brasil são o resultado da sua clara hegemonia na história recente do país.
Por outro lado, se o seu pronunciamento é uma autocritica dos 18 anos no poder, Lula está dizendo que, se for reeleito, vai romper com o neoliberalismo, seja lá o que isto significa na cabeça dele. Dá para suspeitar, pelo menos, que ele pretende abandonar a austeridade fiscal, esquecer o Arcabouço Fiscal, aprovado no seu governo, rejeitar a responsabilidade fiscal e expandir os gastos públicos para “dar à população o que ela deseja comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura”. Pelo visto, ele se penitencia por ter gastado menos do que deveria e queria. Para ser coerente, ele deve anunciar na campanha eleitoral para sua reeleição que vai revogar Arcabouço.
Os discursos duros e emocionados de Lula em Barcelona, especialmente esta crítica à austeridade fiscal, podem ter implicações negativas na disputa eleitoral do Brasil, na medida em que ele demonstra pouco interesse em disputar os eleitores de centro. Entretanto, ele se destaca como uma importante liderança da esquerda mundial e uma voz ativa na defesa das teses de multipolaridade, soberania das nações, democracia, regulação das big techs, combate às desigualdades e às mudanças climáticas. Pode ser esta a sua escolha: perde as eleições no Brasil, já bem ameaçada (diga-se de passagem), mas passa a se afirmar como um importante líder da esquerda mundial.
Amigo, admitir a perda das eleições é calamitoso.
A alternativa é o avantesma da Extrema Direita, que nós, democratas, temos o dever primário de esconjurar.
A triste verdade é que estou vendo muita gente por aí (e que não é de “direita” não) que acha que não deve escrever e assinar isso mas que, “off the record” percebe que, pelo andar da carruagem, não vai dar para Lula ganhar a 4a vez , mesmo que aumente a dívida pública em mais 10% até o fim do ano.
Estou achando que a entourage do Romeu Zema, esse pré-candidato à presidência que estes dias irrompeu nas redes sociais às turras com o notório ministro Gilmar Mendes e o mesmo Supremo, viu o editorial da revista da semana passada, “Os intocáveis”. Ou foi uma baita coincidência!
Será melhor para o Brasil se o vaticínio apresentado na conclusão deste editorial se tornar realidade. A disputa política por aqui produziu não apenas adversários, mas inimigos morais. Adota-se a lógica perversa do “nós contra eles”: a afirmação identitária prevalece sobre a disputa de ideias. Conviver no dissenso torna-se muito difícil quando a emoção ganha maior peso do que o argumento racional. É indispensável reconhecer o adversário como alguém a ser vencido, e não um inimigo a ser exterminado. Cultivar espaços que acolham a divergência respeitosa e o esclarecimento factual é um caminho para despolarizar o debate e aproximar-se da prática democrática. Sem espaços assim, não há diálogo — apenas trincheiras.