Marx e o PT

Marx e o PT

Corria o ano de 1988. Haviam se passado quatro anos da campanha popular “Diretas Já” que mobilizou milhões de pessoas em torno da aprovação da emenda constitucional do Deputado Federal Dante de Oliveira rejeitada pelo Congresso Nacional em 25 de abril. O inicial sentimento de frustação logo foi substituído por uma nova campanha popular intitulada “Muda Brasil” que culminou com a eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985. Nessa mesma data Cazuza, em sua apresentação no Rock in Rio, fez um lindo discurso permeado de profunda esperança em dias melhores.

Porém, como sabemos, o destino pregou-nos outra peça e 96 dias depois Tancredo falecia. Os anos que se seguiram foram marcados pelo agravamento da crise econômica, marcada pela hiperinflação e desemprego, gerando um sentimento de frustração na população. Foi nesse cenário que foi composta e lançada a icônica canção que dá título a este artigo de autoria de Cazuza e Arnaldo Brandão (da banda Hanói-Hanói). Seu refrão, que transcrevo abaixo, tornou-se imortal: 

Eu vejo o futuro repetir o passado

Eu vejo um museu de grandes novidades

O tempo não para

Não para não, não para

Foram precisamente esses versos que vieram à mente quando li e reli o documento “Construindo o futuro: Manifesto do PT para seguir transformando o país” aprovado pelo partido em seu 8º Congresso Nacional realizado no último final de semana. Em tom panfletário, o primeiro parágrafo diz o seguinte:

“Vivemos uma mudança de época, marcada pela crise do neoliberalismo e pela crescente desordem global. Nessa conjuntura se sobrepõem crises estruturais que atingem o sistema capitalista, a ordem internacional, as democracias liberais e as próprias condições de vida no planeta. A promessa neoliberal de crescimento econômico, estabilidade e bem-estar mostrou-se incapaz de oferecer futuro para a maioria. Em seu lugar, consolidaram-se a fome, a estagnação, a desigualdade, a precarização do trabalho, a insegurança e o enfraquecimento das instituições democráticas.”

Inevitável fazer um paralelo com o primeiro parágrafo do Manifesto Comunista escrito por Marx e Engels em 1848:

“Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo. Todos os poderes da velha Europa uniram-se numa caça santa contra este espectro: o papa e o czar, Metternich e Guizot, radicais franceses e polícias alemães”

O problema é o intervalo de 178 anos entre os dois documentos.

Na perspectiva de reproduzir a disputa eleitoral de 2022, aponta o risco do retorno da extrema-direita ao poder central como forma de conclamar os setores democráticos a cerrarem fileira em torno da candidatura à reeleição do Presidente Lula. Além disso, numa demonstração de autossuficiência ou soberba, apresentam o governo como aquele “… com mais entregas da história, com a reconstrução de um país que havia sido destruído justamente pela extrema-direita.”.

Em mais uma demonstração de olhar o país pelo retrovisor, constatam as mudanças no mundo do trabalho, mas não apresentam soluções, preferindo limitar-se à afirmação: “O trabalho se torna mais instável, desprotegido e subordinado a lógicas algorítmicas. Ao mesmo tempo, surgem novas formas de resistência e organização.”.

Os seis parágrafos seguintes são dedicados a exaltar os resultados alcançados pelo governo com dados de diversos programas e concluem: “A reeleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é decisiva para o futuro do Brasil e para o campo democrático internacional.”.

No terreno da economia reafirmam, com vigor, a crença no papel do Estado como indutor do desenvolvimento econômico. Só faltou usarem a expressão “nova matriz econômica”, mas os conceitos presentes nos governos Dilma permanecem nas entrelinhas e em algumas das propostas.

E, apesar de todas as pesquisas indicarem que segurança pública é uma das três principais preocupações das pessoas, o documento simplesmente ignora o tema. Trata-se de um silêncio ensurdecedor!

E na conclusão parece a maior pérola: “Mais do que nunca temos de reafirmar nosso compromisso com o socialismo, e com um mundo democrático, de paz e de igualdade de direitos.”, confirmando que o documento fica bem representado pelos versos do poeta: “Eu vejo um museu de grandes novidades”.

Apesar disso, creio que o Presidente Lula tem reais chances de se reeleger, mas se seguir pelos caminhos propostos nesse Manifesto ampliará as dificuldades já existentes quando estamos a pouco mais de cinco meses do pleito.

Orlando Thomé Cordeiro é consultor em estratégia