Ludwig Wittgenstein

Ludwig Wittgenstein

Minha relação com o filósofo anglo-austríaco Ludwig Wittgenstein, falecido há exatos 75 anos, remonta aos anos 1980, quando eu então cursava o Mestrado de Letras na UFPE. Um dos meus mais admirados professores, o grande e pioneiro linguista Luiz Antonio Marcuschi, havia justamente se doutorado na Alemanha com uma tese sobre Wittgenstein (1889–1951). Ciente de que eu planejava uma dissertação sobre a dúvida na obra de Guimarães Rosa, Marcuschi gentilmente me emprestou o livro “Sobre a certeza”, aliás só recentemente  traduzido no Brasil. Uma obra que tanto aborda a certeza quanto a dúvida. Foi amor à primeira vista. Como ousado aprendiz, apliquei um tanto mal e parcamente algumas noções do filósofo ao meu trabalho. Mas o encontro com Wittgenstein, que perdura até hoje, conseguira rachar para sempre o meu juvenil platonismo.

No livro “Wittgenstein”, David Pears, especialista que também foi seu tradutor para o inglês, acertadamente logo adverte aos leitores que Wittgenstein elaborou duas filosofias: uma cristalizada no “Tractatus logico-philosophicus” (1921), e a outra desenvolvida na obra póstuma “Investigações filosóficas” (1953), não obstante haver entre as duas algumas conexões; para alguns autores, a segunda é tão somente o reverso da primeira. Publicadas dois anos depois de sua morte, as “Investigações” expõem a famosa teoria dos jogos de linguagem e, claro, outras ideias conexas. Não bastasse nos levar sob o espírito de uma implacável lógica, essa obra da maturidade é escrita num estilo único: simples, coloquial, ilustrado por exemplos inusitados, imagéticos e metafóricos, e sobretudo isento de qualquer jargão… “filosófico”. Mas essa sedutora e visível simplicidade não passa de aparência. À certa altura, ele nos diz que “sua missão é ensinar à mosca a saída do vidro”…

Autor de uma tese sobre a filosofia da matemática em Wittgenstein, o britânico Ray Monk escreveu uma magnífica biografia sobre o autor: “Wittgenstein, o dever do gênio”. Monk não esconde sua bem-sucedida ambição: descrever a vida e a obra wittgensteinianas numa única narração. Isso fica mais atraente se tivermos em conta que o homem Wittgenstein fascinava seus contemporâneos como hoje fascina os pósteros. A sua “ex-centricidade” pessoal fundava-se não só numa conduta ascética (embora fosse filho de uma riquíssima família europeia) como numa multiplicidade de talentos e num desejo radical de verdade, este aliás logo manifesto em sua infância. Conta-nos o referido biógrafo que tal preocupação com a verdade brotou por volta dos oito ou nove anos de idade, quando ensimesmou-se, num canto de porta, para refletir sobre uma arrebatadora questão: “Por que dizer a verdade se for pessoalmente vantajoso mentir?”. Não sem razão, Monk observa que “Mesmo aqueles que não se interessam pela filosofia analítica acham-no irresistível”. Dono de uma imensa fortuna crítica, ele inspirou e inspira poemas, músicas, romances, programas televisivos e inúmeros livros de memórias escritos, segundo o biógrafo, “por pessoas que mal o conheciam”. No Trinity College, em Cambridge (UK), suas aulas o mostravam em pleno e árduo ato de pensar.

Na contramão de Platão e seu longo cortejo, Wittgenstein é o filósofo que modernamente “destrói” a filosofia, deslocando o ponto de vista de um metafísico “por que” que nunca explica satisfatoriamente nada para uma visão que descreve e se contenta com o “como funciona”, tornando-o um dos criadores da pragmática linguística, que se atém a “situações de uso”. Não há, portanto, uma essência a ser desvendada ou encontrada, o que há e importa é o que está à mostra. A filosofia tradicional não lhe parece menos fictícia que a literatura, ela só existe na medida em que “a linguagem entra em férias”. Eis aí explicado por que suas ideias não chegaram a constituir um sistema filosófico, nem o pretendiam.

O protagonismo da linguagem no “segundo” Wittgenstein levou vários comentadores a observarem similitudes, guardadas as devidas diferenças, entre seus conceitos e a filosofia de Kant. O já citado David Pears, por exemplo, anota que “Sua filosofia era uma crítica de linguagem muito parecida, em alcance e propósito, com a crítica do pensamento realizada por Kant”. Nesse sentido, é uma filosofia que busca limites ou que vê os limites, e o que bem delimita os limites, se não incorremos em um pleonasmo, é justamente a linguagem: é por ela que vemos as coisas. Assim como o tempo e o espaço são as “lentes kantianas”, assim também a linguagem faz as vezes de uma incontornável “lente”.

Vertiginosa, a filosofia wittgensteiniana é influente em vários campos do conhecimento, indo muito além da lógica e da própria filosofia da linguagem. Se nela nos detivermos com algum estudo, logo a veremos como uma filosofia de nosso tempo e para o nosso tempo. Curiosamente, não é uma filosofia do desencanto nem pretendeu ser “destruidora” ou “inovadora”. Além disso, o fato de deixar tudo mais claro não a afastou da mística e do absoluto dos quais se avizinhou (Não sendo propriamente ateu, entendia que Deus está fora do mundo, assim como o sentido do próprio mundo). Ela flerta com um silêncio por definição insondável e sem palavras. Wittgenstein trabalhou os limites e jamais quis falar do que não entendia, convicto das fantasias que a própria linguagem enseja; não por acaso escreveu, dentre tantos outros famosos aforismos de cunho ético-existencial, que “Sobre o que não se pode falar, deve-se deve calar”. Um conselho, por sinal, frequentemente ignorado.