
PCC
Para o Brasil não interessa o nome que o governo dos Estados Unidos dê às organizações do crime organizado que atuam no território nacional, nomeadamente o PCC-Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Este tema da conversa do presidente Lula da Silva com Donald Trump vem incomodando o governo brasileiro porque Trump chama estas organizações de terroristas e, a partir da sua denominação, se arroga o direito de intervir no combate às mesmas em qualquer parte do planeta. O presidente Lula da Silva deve ignorar a denominação dos Estados Unidos a estas organizações e se concentrar na afirmação, com veemência, de que o Brasil não aceitará o envolvimento do governo estadunidense nos nossos assuntos internos, em hipótese alguma a intervenção militar no território, no espaço aéreo e nas águas territoriais brasileiras, como Trump andou fazendo, de forma criminosa, no Caribe e no Pacífico, violando a soberania das nações.
Ao mesmo tempo em que rejeita qualquer ingerência de Trump no Brasil, mesmo que seja para combater o crime organizado, o governo brasileiro tem interesse numa cooperação entre os dois Estados para desmontar o arsenal militar e eliminar o controle territorial do PPC e do CV. A reunião dos dois chefes de Estado, foi negociado um entendimento em torno de um acordo de cooperação entre os dois países para o combate ao crime organizado transnacional, independente da diferença de conceitos que cada um tenha do PCC e o CV. A cooperação deve contemplar, no mínimo, as investigações da atuação do crime organizado em escala global e o controle do fluxo financeiro. Porque, mesmo que o PCC e o CV não sejam terroristas na legislação brasileira, constituem uma grande ameaça à segurança, controlam territórios como se fossem um Estado, têm armamentos poderosos e grande capacidade militar, mantêm a população local aterrorizada e submetida ao seu poder e atuam com desenvoltura no sistema financeiro e tentam influenciar nos processos eleitorais e nas instituições políticas, policiais e jurídicas.
A cooperação dos Estados Unidos, não se pode esquecer, teve um papel muito importante no enfrentamento e desmantelamento do cartel de Medellin de Pablo Escobar, nos anos 90 do século passado, o que garantiu o sucesso das políticas sociais e urbanistas do governo colombiano e da Prefeitura de Medellin. A taxa de homicídios de 381 em cem mil habitantes, registrada em 1991, caiu para 15 homicídios em cem mil habitantes, em 2023, em Medellin, depois de uma ação combinada de combate ao crime organizado e implantação de grandes projetos sociais e urbanísticos. Como diz Murilo Cavalcanti, uma das maiores autoridades no assunto e profundo conhecedor de Medellin, “a ajuda dos EUA foi fundamental para desmantelar os principais cartéis (Medellin e Cali) da Colômbia. Os EUA ajudaram a modernizar e equipar as forças armadas colombianas e cooperaram com inteligência”. O desmantelamento dos cartéis não seria sustentável nem reverteria a ambiência criminosa das cidades colombianas se não fosse acompanhado das políticas públicas, da implantação dos “programas educativos, culturais, urbanismo social e cultura cidadã” pelas prefeituras de Bogotá e Medellin. Diante do poder de fogo, do domínio territorial e da capacidade financeira das organizações criminosas no Brasil, a cooperação dos Estados Unidos pode ser de grande relevância. Mas cabe aos governos brasileiros intensificar as políticas sociais e os projetos urbanísticos para construir uma cultura de paz e cidadania, eliminando as causas estruturais da violência.
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