Lula x Bolsonaro

Lula x Bolsonaro

 A polarização da política, no Brasil, completou vinte anos. E sua causa é a exaustão de lideranças. Nos três estados mais fortes da Federação: São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Mais poderosos economicamente, estes estados tiveram participação relevante desde a República Velha e no período Getulista (1889-1930 e 1930-1945). Assumindo papel significativo também na Nova República (1985-2002). Na República Velha, café com leite, paulistas e mineiros. No Getulismo, gaúchos. Na Nova República (1985-2002), mineiros.

Na República Velha (1889-1930), o país foi governado pela política do café com leite. Por meio de revezamento entre oligarquias paulista e mineira. São Paulo e Minas dominaram, durante as primeiras décadas do século XX, o poder republicano. Até que o presidente paulista, Washington Luis, perdeu as rédeas para o gaúcho Getúlio Vargas. Com a Revolução de 30, o Brasil foi dominado pelo Rio Grande do Sul. Por quinze anos (1930-45). Foi o período Getulista. O Rio Grande exerceu o poder absoluto.

Por sua vez, o período do poderio mineiro foi arquitetura de Tancredo Neves. Que teceu os fios da redemocratização. Ganhou a confiança dos militares. Criou o Partido Popular – PP. E recebeu os votos do Congresso em eleição indireta. Para o quadriênio 1985-89. Mas, os fados, com uma diverticulite, impediram sua posse. E o governo foi exercido por José Sarney. Antes, em 1955, os mineiros mandaram um aviso à nação. Assinado por Juscelino Kubitscheck. Presidente no período de 1955 a 1959. Anunciando que eles se preparavam para ocupar o poder. No entanto, veio o golpe de 64.

O fato é que o poder, no Brasil moderno, foi compartilhado. Por paulistas e mineiros, revezando-se na presidência da República na República Velha (1889-1930). Depois, pelo Getúlio Vargas. Como ditador, de 1930 a 45. E, como presidente eleito constitucionalmente, de 1950 a 54. E, em seguida, pelas lideranças mineiras: Juscelino Kubitscheck e Tancredo Neves.

Nesses períodos, o poder republicano foi fiel ao molde da democracia liberal. Dando suporte aos mecanismos institucionais.  Que garantiram o sistema democrático. Pode-se dizer que a resiliência da democracia brasileira se deve a dois fatores: discurso e voto. Discurso liberal com política social. Administrando a esperança do povo. Ansioso por mudança. E voto, que legitima o processo político. Articulado pelas organizações partidárias.

Tal cenário, binômio esperança e voto, se desgastou na inadimplência política. Terminou reinaugurado. Em 2002. Com eleição Luiz Inacio Lula da Silva. Que vai disputar, em 2026, o quarto mandato. Ou seja, duas décadas de Petismo Lulista. Promoveu alterações no repertório. Mas não efetivou a mudança social que a nação esperava. Porque a desigualdade continua. O patrimonialismo persevera. A corrupção avança. Lula IV é metamorfose ambulante. Existe em função de espaços vacantes. Daí, Bolsonaro.

O Lula III é certidão do autoengano. O que deveria ter sido governo de frente ampla, pelo voto dos independentes, é passaporte da mediocridade. Por causa do vezo hegemônico do PT. O que deveria ter aberto portas para surgirem novas lideranças virou franquia do nepotismo. Política, jogo familiar, cada vez menor.

O governo Lula virou miragem. Vergado nos galhos de populismo invertebrado. Sustentado pela ausência de lideranças. Nos estados economicamente fortes. E pela falta de estadistas. Nos estados politicamente atuantes. A política brasileira, com raras exceções, é um deserto. Falta coragem. E espírito público. Por isso Lula sobreviveu. Sobraram golpismo, clientelismo reforçado nas emendas secretas e corrupção. Isto é o que aparece no cateterismo da praça dos Três Poderes.

Temos, então, a polarização. Como faltam políticos de verdade, Ulysses Guimarães, Mario Covas, Darcy Ribeiro, instalou-se o extremismo. Investindo na emoção das massas. Alongadas no beco sem saída das manadas. Transformadas em vigília de quartel.