
Steven Forti
Uma nova era enquanto “nova” não se deixa, por óbvio, facilmente delinear-se. Seu inferno e seu purgatório, se existem, reclamam Virgílios para nos guiar, não às portas de qualquer paraíso, mas a uma certa compreensão. Não são poucos os que acham que já vivemos numa nova era, numa nova fase histórica. Um desses é Steven Forti, historiador e analista político italiano, docente na Universidade Autônoma de Barcelona. Seu perfil de estudioso da extrema direita vem qualificando-o para ser um daqueles Virgílios sempre necessários…
Aqui, em precária síntese, e tomando a liberdade de não seguir a ordem original do autor, apenas apresento as ideias com que ele logra vertebrar os novos tempos, tais como elas se encontram no artigo “Dez teses sobre a nova era”, publicado em janeiro deste ano pela revista digital espanhola “Contexto e Acción”, da qual é colaborador e membro do Conselho Editorial, e que também pode ser encontrado no site do Instituto Humanitas, da Unisinos.
Em primeiro lugar, segundo Forti, é de se notar que a ordem liberal global, pós-Segunda Guerra Mundial, está sendo substituída por uma lógica imperial, em que “a força faz o direito”, e por uma divisão de esferas de influência; não por acaso, a doutrina trumpista foi “definida como uma ‘geopolítica hemisférica’”. O fenômeno assemelha-se ao imperialismo do século XIX e pretende um sistema “neomonárquico” sob o domínio de “elites hiperprivilegiadas”.
O retrocesso ainda é maior do que se supõe, pois remete ao reacionarismo e ao pensamento anti-iluminista do século XVIII. Trata-se de algo mais que fascismo. O rótulo de “fascista” para a nova extrema direita, comenta Forti, é reconfortante “porque, em certo sentido, isso nos dá a falsa certeza de saber o que estamos enfrentando”.
O enfraquecimento do modelo do Estado de bem-estar social, promovido pelas políticas neoliberais, aumentaram as desigualdades e fragmentaram a coesão social. “O próprio conceito de democracia foi esvaziado de seu componente social”. As democracias serão substituídas por “autocracias eleitorais”. Com o deslocamento do poder efetivo para as elites econômicas, configura-se um sistema pós-democrático. Nessas novas elites, destacam-se os tecnoligarcas, que passam a controlar o Estado. Os grandes empresários do Vale do Silício “já não querem apenas encher os bolsos”, mas, sobretudo, defender abertamente projetos autoritários e antidemocráticos. Figuras como Peter Thiel, Elon Musk, Marc Andreessen e Alex Karp buscam capturar o Estado e “controlar as estruturas de governança”.
Forti também declara que “O extremismo é a nova corrente dominante”. As ideias extremistas foram normalizadas. Nos Estados Unidos, “declarar-se antifascista implica ser considerado membro de um grupo terrorista”. “Na Rússia e na Hungria, a homossexualidade é legalmente equiparada à pedofilia” e “já não choca ninguém que Javier Milei considere a justiça social como um câncer que deve ser erradicado”. Há outros inúmeros exemplos mundo afora, e todos só possíveis de se compreender à luz do impacto das novas tecnologias.
Por sua vez, “Os partidos e as instituições democráticas estão passando por uma paralisia debilitante”. A direita democrática está não só em declínio como numa crise de identidade, chegando, como se vê na Europa, a “aprovar políticas conservadoras e reacionárias em matéria de imigração, defesa, segurança, direitos e meio ambiente”. O principal ator da nova era é a extrema direita. Líderes como Trump, Milei, Netanyahu, Meloni, Bolsonaro, Bukele, Kast e Le Pen “acreditam estar travando a mesma batalha contra inimigos comuns: a esquerda, o liberalismo, o globalismo, o movimento Woke e o politicamente correto”.
Outra protagonista dos novos tempos é a religião, que “volta a ser uma arma política”, e os sinais disso estão em toda parte, a exemplo da “bênção do Patriarca Kirill à invasão da Ucrânia”; das referências de Netanyahu ao Antigo Testamento “para justificar o genocídio em Gaza”; do funeral do supremacista branco Charlie Kirk; das tatuagens do secretário da Guerra americano Pete Hegeseth (“Deus quer” e a Cruz de Jerusalém) e das “reflexões pseudoteológicas de Peter Thiel sobre o apocalipse e o Anticristo”. Em suma, arremata Forti, “É uma religião que se manifesta de forma agressiva, excludente e baseada na identidade”.
Finalmente, o historiador e analista propõe que “A resposta para ‘O que fazer?’ só pode ser coletiva”. O ponto de partida? Participação e protesto. No mais, “Os partidos democráticos devem evitar sucumbir ao canto de sereia da extrema direita e defender as instituições e os direitos arduamente conquistados”. Além disso, que haja uma defesa do multilateralismo, do governo da economia e uma agenda que inclua as questões ambiental e tecnológica. Decifrar a esfinge, mostrar suas garras e seu voraz apetite, como o faz Steven Forti em seus artigos e em seus livros, é uma importante contribuição. É preciso resistirmos ao caos, à desinformação e aos horrores que se anunciam e que tanto mal poderão causar à já sofrida humanidade. Antes de votarmos em outubro, é preciso inundar a zona de claridade e compreensão.
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