
Eu tive muitos servidores em minha atribulada carreira de guardião, preceptor, indutor, patrocinador e corregedor de tantos administradores que atenderam aos meus propósitos, nem sempre com a habilidade necessária para fazer o Brasil despontar entre os melhores do mundo, como era o meu desejo (nem poderia, com tantas deficiências de origem e com as deformações criadas por alguns desses atendentes provisórios na grande missão de governança de um país dotado pela natureza de bondades não aproveitadas). A todos concedi certa liberdade para administrar os assuntos correntes, não hesitando, porém, em lhes sabotar as ações, direta ou indiretamente, sempre quando percebia algum desvio da minha lógica implacável: o Estado, ou seja, eu mesmo, deve sempre prevalecer, em face de quaisquer outros objetivos alheios a mim.
O primeiro e o maior de meus servidores foi um verdadeiro intelectual, jornalista esclarecido, homem de muitas luzes, a quem não hesito em chamar de primeiro estadista legitimamente brasileiro, mesmo sem residir nestas paragens durante toda a sua vida adulta: quero me referir ao jovem Hipólito da Costa, perseguido em Portugal por essa entidade maléfica chamada Inquisição, e que teve de se refugiar na Inglaterra para escapar de uma prisão injusta; para servir à sua verdadeira pátria, deu início a um “armazém literário” que manteve sozinho por 14 anos, até a consecução de uma independência que ele já considerava inevitável desde 1808, quando lançou o seu empreendimento informativo, elucidativo, instrutivo e pedagógico. Poucos intelectuais brasileiros podem exibir, como Hipólito, a glória de ter formado mais de uma geração de estadistas brasileiros (alguns portugueses também), apenas pela sua atividade de leitor, de redator e de intérprete dos grandes acontecimentos do seu tempo, numa dimensão propriamente internacionalista (que não deixa de ser também, de certo modo, a minha, pois que como Estado constituído, membro fundador da ONU, tenho frequentemente de me confrontar a outros poderes regionais e às grandes potências desse nosso planetinha redondo).
Tive muitos outros aprendizes e assessores, ao longo do século XIX, e desejo destacar Luiz Gama e Joaquim Nabuco, que lutaram contra a instituição mais nefasta da história da nação, a escravatura, que ainda assim se manteve impérvia por muito tempo, mais até do que deveria. Entre aqueles que mais se distinguiram na defesa de meus interesses, econômicos, políticos, diplomáticos, esteve um certo José Maria da Silva Paranhos Júnior, bon vivant na juventude, passada entre farras e aventuras amorosas, ingressado pela janela na carreira consular (quando o Imperador viajou ao exterior e sua filha assumiu o trono), dedicado aos estudos históricos nos 20 anos durante os quais serviu como cônsul em Liverpool, o maior porto comercial da Inglaterra do século XIX (mas ele passava a maior parte do tempo em Paris), e que, por um golpe de sorte, foi convidado a defender a minha causa num entrevero com os hermanos a propósito de uma disputa pelo território das Missões, no sul dos meus pagos. Alguém se lembrou dele, como estudioso de velhos mapas e manuscritos coloniais, quando o Barão que defendia os meus interesses veio a bater as botas inopinadamente; ele foi retirado da boa vida, recebendo em libras esterlinas, no padrão ouro legítimo, e gastando em francos, mero padrão prata, minoritário.
Não é que o estroina da juventude se converteu no maior sábio com respeito às minhas fronteiras, muitas ainda não demarcadas, derrotando as pretensões argentinas sobre um pedaço considerável do território sulino lindeiro com aqueles arrogantes vizinhos? Ele se revelou tão competente nesse primeiro caso, que eu fiz os presidentes seguintes continuarem a usar de seus serviços de historiador e negociador de minhas fronteiras, também com a França (sobre o Oiapoque) e logo em seguida como preparador dos materiais documentais para que o amigo Joaquim Nabuco passasse a defender minhas fronteiras com a Guiana inglesa, as quais os ambiciosos britânicos querem vê-la estendidas até os nossos rios amazônicos. Nabuco continuavam monarquista, dez anos depois da inauguração da República por aqueles milicos ressabiados para comigo, quando eu era um Império meio decadente, da mesma forma como Paranhos Jr., convertido em Barão do Rio Branco – no seguimento do pai, que era Visconde sob o mesmo título –, mas ele foi esperto o suficiente para acrescentar Rio-Branco ao próprio nome, dispensando o título honorífico de barão. Todos sabiam que, sob a República (que abolira todas aquelas honrarias), só havia um barão, aliás com B maiúsculo, sem precisar mais nada.
Era Barão para cá, Barão para lá, sobretudo depois que o presidente de turno o chamou para ser o seu chanceler, o que ele aceitou com relutância, pois teria de sair do universo da libra britânica, como ministro em Berlim, para cair na miséria dos mil-réis na capital do Brasil. O Barão atravessou quatro presidentes, sem que nenhum ousasse dispensar seus serviços – eu também não o faria, e teria gostado de vê-lo como presidente em 1910, no lugar daquela mula fardada, um tal de Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do primeiro presidente-ditador – e morreu no gabinete que ocupava no velho Palácio do Itamaraty em 1912, ainda deitado sobre velhos mapas e manuscritos coloniais. O Barão – que depois figurou em todas as oito moedas que tivemos nos 140 anos seguintes – foi o servidor que melhor me ajudou a consolidar as minhas fronteiras, ainda objeto de cobiça e disputas com os vizinhos hispânicos, sempre hostis aos nossos interesses, como os espanhóis sempre foram com os meus avós lusitanos. Devo dizer que ele também gastava à tripa forra, para desgosto do meu ministro da Fazenda, que tinha de satisfazer o apetite de Paranhos por recepções nababescas para os visitantes estrangeiros, o envio de preguiçosos diplomatas para conferências na Europa, além de subornos a certos jornalistas, para que lhe enaltecessem a figura e as suas vitórias nas páginas dos diários da capital.
Eu também defendia o Barão todas as vezes que podia, sussurrando aos presidentes que deixassem a política externa e a diplomacia (duas coisas diferentes) sob o domínio exclusivo do filho do Visconde, de tão nobre memória nos tempos do Império e do velho Senado: até um escritor mulato, que depois se tornou muito famoso, como fundador da Academia de Letras, fez uma crônica estupenda sobre a figura do Visconde, estadista ainda superior em qualidades no confronto com o filho, que tentou continuar suas virtudes (e conseguiu). Fiquei extremamente consternado quando ele morreu, pouco antes do Carnaval de 1912, e até tentei postergar os folguedos, o que o tal de “mula fardada” cumpriu, deslocando os festejos para o mês de abril; mas o povo carioca, zombeteiro e rebelde como sempre foi, aproveitou para ter dois carnavais, o postergado, em fevereiro, e o “oficial”, em abril daquele ano. Fui compreensivo com a tramoia, tanto porque os patrocinadores dos desfiles queriam impulsionar um tal de “jogo do bicho”, que havia começado clandestinamente pouco antes, e não perdiam oportunidade de lucrar contra os impostos oficiais (mas, confesso que eu também fazia uma fezinha, de vez em quando).
Depois do Barão, a maior parte dos chanceleres foram mais ou menos medíocres, não tanto pelos diplomatas, que tinham boas virtudes – mas eles viviam no exterior, pouco sabendo das coisas do Brasil – e sim pelos parlamentares ou magistrados que ocupavam o cargo, sem que eu os fizesse compreender nosso potencial no novo mundo americano que se formava depois da Grande Guerra, mas alguns presidentes também foram excepcionalmente estúpidos, como um que veio das Minas Gerais, o teimoso Artur Bernardes, que fez o Brasil abandonar a Liga das Nações, nossa primeira experiência multilateral, desperdiçada pela ignorância do presidente. O único parlamentar com estatura de estadista que poderia se ombrear a Rio Branco, foi um gaúcho com tino de estadista, que foi ministro, embaixador e chanceler na perigosa década de 30, aliás, o verdadeiro líder da Revolução de 1930, pois que o candidato derrotado nas urnas fraudadas do pleito presidencial daquele ano, o também gaúcho Getúlio Vargas, governador do seu estado, muito temeroso de empreender ele mesmo a marcha sobre o Rio de Janeiro, para derrubar o paulista Washington Luíz.
Mas, eu me adianto muito no relato dos meus feitos e malfeitos, pois que estou justamente pulando o evento seminal do século XX, a Grande Guerra, aquela que trouxe todas as misérias de um breve século, de menos de cem anos, que começou estrepitosamente com o bolchevismo e o fascismo, continuou na Grande Depressão, e provocou, vinte anos depois, uma nova e terrível conflagração mundial, que mudou terrivelmente a vida de milhões de pessoas. Os europeus tinham lá as suas desavenças – restos de guerras até feudais, segundo um historiador – e começaram as terríveis matanças nos Impérios centrais, nos Balcãs e nos mares, e eu fiz questão de preservar nossa estrita neutralidade, até onde foi possível. Mas, de repente, os alemães (sempre eles), começaram a afundam alguns dos nossos navios, e tivemos de seguir os Estados Unidos e entrar naquela terrível hecatombe. Até chegamos a enviar soldados para a Europa, mas eles morreram antes de entrar em combate, vitimados pela, ainda mais terrível, Gripe Espanhola, que também deixou milhões de mortos, mundo afora, não só na Europa; no Brasil, a incúria dos meus servidores oficiais só servia para mandar as carroças carregar os mortos que iam perecendo nas ruas e calçadas.
Logo depois da guerra terminar em armistício, houve uma conferência em Paris, em 1919, que tratou de fazer a paz entre os impérios guerreiros, mas aquilo só conseguiu colocar toda a culpa na Alemanha, que tinha de pagar reparações durante 40 anos aos vencedores: nunca o fez, e um novo ditador ridículo, em 1933, declarou que não pagaria mais nenhum centavo. Em todo caso, aquela nossa participação nas negociações de Paris, e no tratado de Versalhes, ofereceu uma oportunidade nunca antes vista na história da República: eleger um novo presidente que jamais fez campanha, sequer estava no Brasil quando foi “eleito” pela famosa “comissão de verificação”: Epitácio Pessoa voltou triunfante de Paris, enquanto o “homem mais inteligente do Brasil” (segundo os baianos), Rui Barbosa, perdia pela segunda vez uma campanha à presidência; a primeira tinha sido justamente em 1910, contra a “mula fardada”, o já mencionado Marechal Hermes.
Pouco antes da guerra começar na Europa, em 1914, tínhamos feito um último funding loan, uma mania que vinha do Império, mas que nos permitia alguma folga financeira ante os déficits habituais, empréstimos exacerbados pela Constituição de 1891, que permitiu aos estados e municípios contrair empréstimos no exterior sem o aval da União, o que redundou numa orgia de lançamento de títulos até por capitais de pequenos e pobres estados. Mas esse é um episódio trágico em minha história de vida, que vou contar em detalhes num próximo capítulo desta minha autobiografia razoavelmente sincera.
Brasília, 5396: 10 de julho de 2026
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