Os Embaixadores

Os Embaixadores

Ao mesmo tempo e por motivos bem diferentes, o Brasil está vivendo três crises diplomáticas com países aliados: Paraguai, Argentina e Estados Unidos. A crise com o Paraguai, já desativada, decorreu de um deslize verbal do presidente Lula da Silva (comum em quem fala em demasia): “A gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil”. Lula lembrou a Guerra do Paraguai para justificar a modernização das Forças Armadas brasileiras. Uma frase solta e aparentemente irrelevante gerou grande desconforto diplomático no Paraguai, por despertar o ressentimento histórico em torno do cataclisma que provocou um colapso demográfico no país. O governo paraguaio convocou o embaixador do Brasil para esclarecimentos e entregou uma nota oficial de repúdio. Em resposta, o Itamaraty declarou que não houve intenção de ofender o povo paraguaio e a crise esfriou, mesmo sem o presidente Lula apresentar um pedido formal de desculpas.

Grave e muito delicada é a crise provocada pela participação do histriônico presidente Javier Milei, da Argentina, num evento político-eleitoral da oposição brasileira. Além da interferência política nas eleições brasileiras, Milei soltou o verbo, agredindo o presidente Lula e um ministro do STF — Supremo Tribunal Federal. Como protesto, o Itamaraty chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas e esperou que o presidente argentino se retratasse. Milei não se retratou e ainda continuou com as agressões. A crise escalou, e o Itamaraty decidiu manter o embaixador no Brasil, reduzindo o nível da representação em Buenos Aires para encarregado de negócios.

Com a grotesca performance teatral, o presidente da Argentina se junta a Donald Trump na tentativa de tumultuar as eleições brasileiras e dificultar a reeleição do seu desafeto brasileiro. O governo dos Estados Unidos completou o golpe diplomático revogando o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Como pretexto, Washington reclamou da demora brasileira na aprovação formal (agrément) do novo embaixador indicado por Donald Trump e da negativa de vistos de entrada a dois funcionários do Departamento de Estado americano que viriam analisar o sistema eleitoral do Brasil. À medida que se aproximam as eleições presidenciais, Trump e Milei vão tensionando as relações diplomáticas com o Brasil, numa “escalada deliberada, motivada por razões ideológicas” (nota oficial do Itamaraty), para favorecer o seu candidato.

Mesmo sem motivos, Trump vai continuar chantageando e provocando tensões nas relações com o Brasil. Desta vez, em parte, o Itamaraty deu um motivo ao negar o visto aos dois diplomatas estadunidenses que viriam avaliar o nosso sistema eleitoral. Se tinham, a priori, a intenção de desqualificar o sistema eleitoral, o governo não deveria ter negado o visto. Ao contrário, consciente da higidez do sistema, o Itamaraty deveria ter recebido os dois diplomatas, e o TSE — Tribunal Superior Eleitoral — teria aberto as portas para a sua avaliação: a melhor forma de calar a boca dos detratores.