Mito

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O lulopetismo não se reduz a um populismo demagógico sustentado por apelos emocionais, promessas persuasivas e políticas públicas assistencialistas. Embora seu modus operandi revele uma lógica paternalista, sua continuidade depende também de mecanismos políticos e institucionais. Este artigo sustenta que a liderança carismática de Lula constitui simultaneamente a principal fonte de unidade do movimento e seu maior obstáculo sucessório: sem distribuir entre instituições as funções de articulação concentradas na autoridade pessoal do líder, o lulopetismo corre o risco de fragmentar-se após sua saída de cena.

Neste artigo, lulopetismo designa a configuração político-eleitoral organizada em torno da liderança de Lula, do PT e das organizações que reconhecem essa liderança como eixo de articulação. O conceito, portanto, não se confunde com o PT nem se restringe a uma doutrina política homogênea. Socialismo, esquerdismo, estatismo, identitarismo e outras correntes convergem nesse agrupamento, cuja unidade decorre sobretudo da liderança pessoal de Lula. A autodefinição do próprio líder como “um dirigente sindical com boas relações internacionais”, em conversa durante a reunião de cúpula do G7, na França, em 17 de junho, reforça o contraste entre uma identidade pessoal sintética e a amplitude ideológica do agrupamento articulado ao seu redor.

A heterogeneidade ideológica do lulopetismo manifesta-se nas escolhas políticas do PT e nas posições assumidas ao longo de sua trajetória. Para relacionar essa diversidade à permanência da liderança de Lula, o panorama a seguir agrupa votações relevantes no Congresso Nacional e controvérsias envolvendo integrantes do partido e governos petistas. Os episódios não são equivalentes quanto à natureza, à gravidade ou às consequências; seu valor analítico está em mostrar que, apesar das mudanças de contexto e das tensões acumuladas, Lula permaneceu como principal referência de coesão política e eleitoral.

O primeiro conjunto reúne episódios de oposição institucional que ajudam a dimensionar a distância entre posições históricas do PT e consensos posteriormente consolidados. Em 1985, o partido recusou-se a apoiar Tancredo Neves no Colégio Eleitoral e determinou a abstenção de sua bancada. Em 1988, orientou seus parlamentares a votar contra o texto final da nova Constituição. Em 1994, posicionou-se contra o Plano Real e fez oposição às medidas adotadas para implantá-lo. Em junho de 1995, na votação que consolidou o plano no Congresso, encaminhou voto contrário. Em 2000, opôs-se à Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada para estabelecer normas e limites à gestão das finanças públicas. Apesar da diversidade desses confrontos, nenhum deles eliminou a centralidade de Lula na organização partidária.

O segundo conjunto reúne controvérsias relacionadas aos governos petistas e à sua principal liderança. Entre 2005 e 2013, o escândalo do Mensalão passou das denúncias ao julgamento e às condenações. Em2014, teve início a Operação Lava Jato, que revelou esquemas de corrupção relacionados à Petrobras. Entre 2016 e 2021, Lula da Silva foi investigado e condenado em processos da operação; posteriormente, as condenações foram anuladas. A permanência de Lula como centro político do movimento, mesmo durante esse ciclo de forte desgaste, reforça a hipótese de que a coesão do lulopetismo depende menos de repercussões institucionais sobre suas práticas do que do vínculo de seus integrantes e eleitores com a liderança pessoal.

O terceiro conjunto reúne posições legislativas mais recentes. Em 2016, o partido opôs-se à instituição do teto de gastos públicos e propôs a retirada do dispositivo que criava o regime fiscal. Em 2019, posicionou-se contra o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado pela Câmara naquele ano e pelo Senado em 2020. Em 2021, foi contrário à autonomia do Banco Central, que estabeleceu mandatos para o presidente e os diretores da instituição não coincidentes com o mandato do presidente da República. A continuidade da liderança de Lula em meio a essas posições confirma que a unidade do agrupamento não depende da adesão a uma agenda legislativa estável, mas da capacidade do líder de manter articuladas distintas correntes e organizações.

Em conjunto, esses episódios mostram que mudanças programáticas, controvérsias e confrontos institucionais não dissolveram a centralidade política de Lula. A diversidade histórica do agrupamento contrasta, assim, com a permanência de seu principal eixo de coordenação política e eleitoral.

A presença do lulopetismo na vida política brasileira por quase meio século e em contextos políticos tão distintos desloca a análise de sua trajetória para as bases de legitimidade que sustentam o movimento. Para compreender essa longevidade, é conveniente distinguir as formas de dominação legítima formuladas pela sociologia weberiana. Essa tipologia ajuda a examinar a tensão entre liderança carismática e continuidade institucional.

Weber distingue três tipos ideais de dominação legítima: a tradicional, fundada na autoridade dos costumes; a racional-legal, associada a regras impessoais e à administração burocrática; e a carismática, cuja legitimidade decorre das qualidades extraordinárias atribuídas a um líder. Este artigo concentra-se no terceiro tipo porque nele a missão apresentada pelo líder, quando reconhecida pelos seguidores, estabelece vínculos de dependência, afeto e fidelidade.

Por depender do reconhecimento pessoal do líder, a dominação carismática é subjetiva, socioafetiva e voluntarista. Sua autoridade não deriva primariamente de regras estáveis nem da tradição; por isso, o portador do carisma tende a resistir a controles externos e a confrontar a ordem estabelecida. Weber (1999, p. 138) sintetiza esse ímpeto de ruptura do status quo ao afirmar que “a liderança carismática intenta conformar as coisas e as organizações de acordo com a sua vontade”.

A dominação carismática oferece uma chave para interpretar tanto a permanência política de Lula da Silva quanto o impasse de sua sucessão. Sua ascensão e a formação do PT remontam ao sindicalismo do final da década de 1970; o partido foi fundado em 1980. Desde os embates sindicais do ABC paulista, Lula exerce uma liderança político-partidária predominante, sustentada por reconhecimento pessoal e capacidade eleitoral. Ao longo de quase meio século, não se consolidou um sucessor potencialmente capaz de reunir essas duas fontes de autoridade. O problema sucessório não decorre, portanto, apenas da ausência de um nome competitivo, mas também da dificuldade de reproduzir institucionalmente uma legitimidade concentrada na pessoa do líder.

O intricado processo sucessório da liderança carismática descrito pela teoria weberiana ganha urgência no lulopetismo porque seu líder é um político octogenário. Uma derrota eleitoral poderia abalar a percepção de sua capacidade de conduzir o movimento, precipitar disputas entre possíveis sucessores e enfraquecer suas bases de sustentação. Uma vitória adiaria a definição sucessória e poderia ampliar o número de interessados em disputar seu espólio eleitoral. Os caminhos são distintos, mas convergem em uma mesma consequência: nenhum deles cria, por si só, um mecanismo reconhecido para transferir a autoridade política e a capacidade de mobilização eleitoral concentradas em Lula da Silva. A questão decisiva passa a ser, assim, quais condições permitiriam legitimar um eventual sucessor.

Embora o carisma seja inerente à pessoa e, portanto, intransferível e indelegável, o líder pode tentar ordenar a transição mediante a indicação de um sucessor — processo quase sempre conflituoso. Essa indicação transfere uma preferência, não o carisma. Para adquirir autoridade política própria, o escolhido precisa demonstrar capacidade de liderança, obter o reconhecimento dos acólitos mais próximos e conquistar legitimidade perante a base mais ampla do movimento. Sem essa dupla validação, a designação formal produz apenas um herdeiro nominal, incapaz de reproduzir a autoridade do líder carismático e de conter as disputas provocadas por sua saída de cena.

Tendo em conta o caráter efêmero da dominação carismática está relacionado ao ciclo de vida do líder, e considerando que “é destino do carisma dar lugar aos poderes burocráticos ou da tradição” (Weber, 1974, p. 292), é razoável supor que a saída de cena de Lula da Silva desencadeará uma reconfiguração política e eleitoral do lulopetismo.

Essa reconfiguração alcançará não apenas a direção partidária, mas também as organizações político-ideológicas cuja identidade se estruturou em torno da liderança de Lula e do PT — sindicatos, pequenos partidos, diretórios estudantis, movimentos sociais e associações diversas. Diante da sucessão, três trajetórias tornam-se possíveis: a busca de maior autonomia por essas organizações, a preservação dos vínculos atuais com o partido ou sua incorporação a uma estrutura mais burocratizada de coordenação. A combinação entre essas trajetórias definirá se o lulopetismo conservará unidade após a saída de seu principal articulador.

Sem a presença de Lula, líder inconteste e principal força eleitoral, a continuidade do lulopetismo dependerá da capacidade de suas correntes internas e das organizações a ele vinculadas de construir um projeto político comum e mecanismos reconhecidos de coordenação. O desafio não consiste apenas em escolher um novo dirigente, mas em distribuir entre instituições as funções de articulação hoje concentradas na autoridade pessoal do líder, traduzindo-as em ideias, propósitos e procedimentos capazes de legitimar decisões coletivas. A sobrevivência do movimento dependerá, portanto, menos da reprodução do carisma de Lula — por definição intransferível — do que da consolidação desses mecanismos de coordenação.

Na falta dessa institucionalização, o legado de Lula tenderá a converter-se em objeto de disputa entre correntes. Nesse cenário, a fragmentação do lulopetismo não seria apenas uma crise de sucessão, mas o resultado da impossibilidade de transformar carisma pessoal em coordenação política duradoura, o que comprometeria a sobrevivência do movimento como força político-eleitoral relevante.

Referências

Weber, Max. Ensaios de sociologia. Organização e introdução de H. H. Gerth e C. W. Mills. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1974.

Weber, Max. Economia e sociedade. v. 2. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

 

Sérgio Alves

Engenheiro civil, Mestre em Administração, Doutor em Sociologia. Professor titular (aposentado) da UFPE. Entre seus livros, estão: Revigorando a Cultura da Empresa; Racionalidade, Carisma e Tradição nas Organizações; O Estado do Líder.