
Idosa
Difícil prever o resultado para Presidente. Se os números são de empate, a previsão de cada um varia segundo sua esperança. E não é que ainda há uma direita que não sei se é extrema, mas é ignorante, que está espalhando à boca pequena que não dá para prever porque não se pode confiar nas urnas eletrônicas? Coisa de bolsonarista pessimista? Mais de um taxista me veio com essa, esta semana: que na máquina não dá para confiar porque não tem papel pra conferir, e que nos Estados Unidos, “a maior democracia do mundo”, é papel. Esses esqueceram que as urnas são as mesmas de 2018. Pensei que o ataque às urnas tivesse amainado depois da eleição de tantos bolsonaristas confessos em São Paulo.
As regras estão valendo igualmente para todos, o resultado das eleições tem que ser aceito, deve ser respeitado por eleitos e eleitores. Exceto os casos de ilegalidade que cabe ao TSE, o Tribunal Superior Eleitoral, apurar. E mais: comparecimento às urnas é dever de cidadania, mesmo para os isentos, os “70+” que de repente viraram alvo de campanha.
Tudo isso dito a título de preâmbulo. Não quero desacreditar nenhuma eleição específica, nem vou falar de calçadas e escadas. Mas o sistema partidário no Brasil merece ser chamado, no mínimo, de “disfuncional”, mesmo “palhaçada” e “absurdo” se quiserem. Começo a desconfiar que pouco a pouco virou até “antidemocrático”. A começar por um Fundo Partidário e um Fundo Eleitoral que juntos chegam a mais de seis bilhões de reais, financiados por quem paga imposto. Eu sei que esses Fundos foram criados um dia sob o argumento democrático de permitir candidatos que não sejam ricos o suficiente para financiar suas próprias campanhas. É mais um caso de “em tese” que “na prática” não é bem assim. Mas o Fundo Partidário deve ter contribuído para que se criassem partidos.
É partido que não acaba mais. Cronologia não é causalidade, como me avisa o ChatGPT, depois de informar que 19 dos 30 partidos (63,3%) obtiveram seu registro depois da lei que criou o Fundo Partidário. Verdade. Mas será mera coincidência? É urgente a necessidade de um estudo sobre o uso desse Fundo, pouco mais de 1,3 bilhão em 2026, e mais ainda do Fundo Eleitoral, de quase 5 bilhões nestas eleições. E não me refiro ao dado de quanto recebeu cada partido, que isso está disponível no TSE. Exceto anedoticamente, quando algum cacique de partido compra um helicóptero, não se informa o que os partidos e seus parlamentares fazem com esse dinheiro, além de financiar uma engrenagem que tem favorecido quem já ocupa cadeira no Parlamento. Não há como não ficar desconfiada quando 473 dos 513 deputados federais são candidatos a reeleição: 85,19%! E não é porque tenham reputação de eficientes. No Senado a situação não está muito melhor. Das 81 cadeiras, são 54 as que devem ser renovadas este ano. Nestas, 32 senadores buscam sua reeleição e 9 senadores são candidatos a outros cargos, ou seja, 2/3 estão em campanha de reeleição.
Ninguém se importa com partidos na hora de votar. Ou quase ninguém: no caso, as exceções só confirmam a regra. Há partidos cujo nome ninguém sabe. Nem o que pregam, qual é sua identidade. Há nada menos de 30 partidos registrados no TSE-Tribunal Superior Eleitoral para esta eleição. O site do TSE, quando a gente consegue acessar, tem a lista das siglas, o nome por extenso que corresponde a cada sigla, e o número. Mesmo com o nome completo não é possível saber o que significa cada um. Ainda que a lei dos partidos políticos (Lei no. 9096 de 1995) tenha criado o Fundo Partidário, um fundo permanente destinado à manutenção e funcionamento dos partidos (inclusive sede, pessoal, institutos partidários, partes da campanha), verifica-se que na propaganda individual dos candidatos a deputado ou senador o nome do partido aparece “em letra miúda”, mal se ouve, ou nem aparece. Se você quer mesmo saber do partido, na maioria dos casos só mesmo anotando o número e indo ao TSE ver a que partido corresponde. Só o fato de serem 30 já mostra que é impossível que tenham todos uma identidade programática ou diretrizes gerais específicas de cada um.
É o que na política até já se chamou de “geléia geral do Centrão”, documentada inclusive pela “dansa das cadeiras”, a grande quantidade de candidatos que muda de partido de uma eleição para outra. Candidato perde numa eleição e se candidata de novo na eleição seguinte por outro partido, e ninguém se importa, nem se sabe. A informação sobre o candidato se perde, não se acumula. É claro que sempre há os que conseguem usar em benefício próprio essa geleia geral. Alguém se lembra de um deputado obscuro em partido apagado, que chamou a atenção no dia da votação do impeachment da Presidente Dilma Rousseff porque dedicou seu voto ao Cel. Brilhante Ustra, militar da ditadura reconhecido como torturador? Pois é, esse é campeão da “dansa das cadeiras”: quando Jair Bolsonaro chegou ao partido nanico que então era o PL, já tinha passado antes por oito outros partidos.
Fato é que as trocas de partido são bem mais comuns do que se imagina. Um levantamento recente publicado pelo jornal “O Estado de S.Paulo” (27/09/2026,p. A12), mostra que nada menos que 60% dos candidatos que disputaram as eleições de 2022 voltaram a se candidatar em 2026 por outro partido. Essa intensidade das trocas de partido é ainda mais marcante quando se examina a movimentação por partido. O levantamento da taxa de permanência dos candidatos, por partido, lista essa taxa para 25 partidos para os quais foi possível comparar 2022 e 2026. Segundo o resumo, dos 32 partidos registrados nesta eleição, apenas 10 partidos conseguiram manter mais de metade dos candidatos que haviam lançado quatro anos atrás. Entre os partidos com as menores taxas de permanência está o PSDB, com uma migração de 78% de seus candidatos. PSD e PSB só retiveram 40% de seus candidatos, MDB reteve 44%.
Curiosamente, os partidos com a identidade mais definida, com programa e diretrizes que os identificam, como o PT, um dos maiores partidos, além de alguns micropartidos à esquerda, são também os partidos que têm as mais altas taxas de permanência de candidatos. No PT, apenas 17% dos candidatos de 2022 saíram ou migraram para outros partidos, isto é, reteve, em 2026, 83% de seus candidatos. Alguns desses chamados “partidos nanicos”, ameaçados pela cláusula de barreira dos 5%, se juntaram a outros partidos formando federações, que não são novos partidos, mas alianças permanentes para atuar em conjunto. Há a Federação PSDB-Cidadania, a Federação Brasil da Esperança (PT-PCdoB-PV) e a Federação PSOL-Rede, o que não produz exatamente mais nitidez nas identidades partidárias.
Um sistema partidário que permite tamanha volubilidade demonstra que boa parte dos partidos não tem identidade política, sua identidade é rasteira, ninguém sabe exatamente o que pretendem. Isso não quer dizer a inexistência de identidade partidária definida explique por si só a intensidade do troca-troca partidário. Falta diagnóstico. E como explicar que ainda sobra gente que acha que nenhum de 30 partidos abriga suas posições políticas? Além dos 30 registrados, há 23 partidos em formação, segundo informação oficial do TSE. Sinal de que antes que se aprovem ainda mais partidos, é preciso discutir reforma política. Se ficar como está, só pode piorar a barafunda partidária.
Ótimo artigo, assunto da maior importância a ser discutido.
A baraufunda partidária é ainda maior. Descobri que havia 12 candidatos a Presidente da República, de 12 partidos (mais um indeferido pelo TSE). Os partidos não recebem adicional do Fundo Eleitoral por ter candidato presidencial. Então para que? Usam sua cota do Fundo para financiar candidato sem chance, apenas como forma de chamar a atenção?
Boa análise. Dia 25, no final do dia, saberemos quem ganhou.