Diversidade e tolerância

Diversidade e tolerância

Ontem, vendo os resultados das pesquisas, observa-se uma clara migração de eleitores de candidatos da segunda linha da direita para Flávio Bolsonaro.

No Sul, impressiona a força da direita mais radical. Lula, entretanto, mantém sua força no Nordeste e disputa espaços importantes no Sudeste. Aqui, como já era previsível, está solidamente à frente. No plano nacional, porém, as pesquisas revelam uma disputa apertada, com variações entre os diferentes institutos.

O mar de incertezas nos invade — e esta é a beleza da democracia. *A incerteza é prima legítima da tolerância:* quando ninguém pode ter antecipadamente a certeza de que sua vontade prevalecerá, somos obrigados a admitir a existência da vontade do outro. E, ao final, somos obrigados, por lei, a aceitar resultados que, às vezes, não são aqueles que esperamos — assim como na vida.

Os intolerantes, aqui e nos Estados Unidos, já mostraram que não aceitam resultados contrários à sua vontade, como vimos em 6 de janeiro de 2021, no Capitólio, e em 8 de janeiro de 2023, na Praça dos Três Poderes.

Que venham os desafios da democracia, pois essa mãe e herdeira dos valores civilizatórios nunca cessou de enfrentá-los.

Não se trata apenas de conflitos ideológicos. Estes talvez sejam expressões circunstanciais de uma luta muito mais profunda e milenar: *a luta entre a barbárie e a civilização — luta que funda nossa própria humanidade.*

A barbárie, lembro, está em cada ato de violência de um ser humano contra outro. Ela nos invade a cada guerra, revelando, de maneira espantosa, que conhecimento, técnica e método, conquistas da civilização, podem ser apropriados pela própria barbárie e colocados a seu serviço.

A democracia, depois de milênios de guerras e destruição — e isso a história nos mostra com dolorosas evidências —, talvez seja o momento civilizatório supremo que a humanidade conseguiu atingir.

E o mais surpreendente disso tudo acontece justamente na eleição.

É quando o poder concentrado nas instituições se abre e se pulveriza de forma microscópica. Por algumas horas, milhões de pequenas parcelas desse poder retornam às mãos dos cidadãos para que, por meio do voto, as instituições possam novamente se alimentar de legitimidade.

É como se o gigantesco Leviatã, imaginado por Thomas Hobbes, tivesse sido domesticado pela democracia : periodicamente, ele precisa retornar ao cidadão comum para renovar a legitimidade de sua força.

O pensamento político-filosófico e seus produtos — o conhecimento sobre o Estado e as formas de governo — vêm evoluindo há séculos para que este gesto aparentemente tão simples de votar esteja hoje em nossas mãos.

Milhares lutaram, morreram e foram sacrificados para que chegássemos até aqui.

Por isso, quando for à urna expressar o meu voto, não estarei apenas escolhendo um candidato.

Estarei, com milhões de outros cidadãos, refundando de forma celular a democracia e demarcando, de maneira indelével, a barreira que separa a civilização da barbárie.

Recife, 4 de outubro de 2026

ADENDO – Parágrafos complementares

Em 07/10/2026

A reflexão sobre a tolerância é um dos pilares da filosofia política e da convivência humana, historicamente debatida em obras clássicas como a Carta sobre a Tolerância, de John Locke (1689), e o Tratado sobre a Tolerância, de Voltaire (1763).

Acontece que o grande impasse é que o sujeito humano se constitui em meio às incertezas e ameaças do ambiente e, para sobreviver, precisa construir-se fincando sua existência em ilhas de certezas, a exemplo do conhecimento, da religião e das ideologias.

Tudo isso cria um corpus afetivo que lhe permite caminhar pela vida, criando e amando — e, muitas vezes, sofrendo.

Assim, nos armamos para a vida com nossas convicções e certezas, muitas delas passíveis de contestação pelo outro, que pensa e age segundo valores distantes dos nossos.

É nesse momento que as dúvidas sobre minhas próprias certezas me questionam e me fragilizam. É dessa fragilidade que nasce a tolerância: quando procuro enxergar no outro traços de uma verdade que eu desconhecia, permitindo-me voltar enriquecido pela crítica.

Compreender essa dinâmica, digamos, existencial é um salto de qualidade no processo civilizatório.

A lei, ao instaurar e regular a vida em sociedade, nos obriga, consciente ou inconscientemente, ao exercício dessa dinâmica interior.

A passagem do estado de natureza para a vida em sociedade levou milênios; outros tantos foram necessários para que mitos, religiões e instituições políticas percorressem o longo caminho histórico que permitiu a emergência do Estado laico.

A democracia é uma conquista recente, quando considerada no percurso histórico da humanidade. Por isso mesmo, é um experimento em permanente estado de consolidação.

Ela é mais a expressão de um sentido civilizatório, de um caminho permanentemente em construção, do que um ponto a ser atingido e no qual possamos simplesmente parar.

João Rego é membro do Conselho Editorial da Revista Será? e Coordenador do IED — Instituto Ética e Democracia. www.eticademocracia.org

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOBBES, Thomas. Leviatã ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os Pensadores).

LOCKE, John. Carta acerca da tolerância. Tradução de Anoar Aiex. In: LOCKE, John. Locke. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores)

VOLTAIRE. Tratado sobre a tolerância. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

6 de janeiro de 2021 — Estados Unidos. Invasão do Capitólio, em Washington, por apoiadores de Donald Trump durante o processo de certificação, pelo Congresso, do resultado da eleição presidencial de 2020.

8 de janeiro de 2023 — Brasil. Invasão e depredação das sedes dos Três Poderes — Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto —, em Brasília, por participantes de manifestações contrárias ao resultado da eleição presidencial de 2022.

#Eleições2026 #EleiçõesBrasil #Democracia #Voto #Cidadania #EstadoDemocráticoDeDireito #Tolerância #Civilização #Liberdade #RevistaSerá