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Penso, logo duvido.

Hebdomadário da Corte XXXVI – Luciano Oliveira

Luciano Oliveira

Jornaleiro.

“Pensar feridas” é uma expressão que desapareceu do nosso léxico, mesmo nos seus usos cultos. É pena, porque é uma bela expressão, e valiosa na sua ambiguidade. Nela, o verbo “pensar” ainda guarda o sentido, perdido entre nós, de curar, aliviar. Nesse caso, a expressão tanto pode significar aliviar e curar dores, quanto refletir sobre elas. Lembrei-me dela no momento em que me pus, depois do choque eleitoral de 7 de outubro último, a refletir sobre as dores que estou sentindo, e me dispus a tentar aliviá-las. Estou, meus amigos e minhas amigas, pensando minhas feridas!

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É fato. Mais de 50% do eleitorado brasileiro – ou seja, mais de 60 milhões de brasileiros! – parece disposto a votar em Jair Bolsonaro para presidente da república em 28 de outubro. Entre eles, há o voto dos que têm uma consciência de classe dominante e votam segundo seus interesses; há os que, pelas mais diversas razões, criaram ou se permitiram deixar vir à tona um atávico horror ao PT assim que este lhes deu uma brecha ao se lambuzar com gosto no mel do dinheiro da corrupção; há um voto evangélico extremamente conservador em matéria de costumes, desorientado com as novas pautas identitárias e comportamentais, para quem um slogan como “O Brasil para Cristo” não é motivo de medo, mas de esperança – há de um tudo. Inclusive, claro, brutamontes que têm se sentido cada vez mais à vontade para amedrontar e mesmo agredir, verbal e até fisicamente, gays, “sapas”, militantes de direitos humanos etc. São os nazistóides do tipo “músculo e arma”, prontos para arranjarem um sentido para suas vidas irrelevantes vestindo uniformes cáqui à la SA, a milícia paramilitar do regime nazista. Desses, devemos ter medo; e, com eles, não há compromisso possível. É discar para o Disque-Denúncia, e pronto. Pelo menos enquanto o número existir…

Mas… Mais de 60 milhões de fascistas, temos tudo isso? Claro que não. Tenho pensado nas pessoas comuns que votaram em Bolsonaro. E não estou me referindo à parcela da nossa classe média de mentalidade escravocrata e brega que ostenta adesivos de Jair no vidro traseiro de suas camionetas Hilux. Estou pensando em pessoas simples, geralmente pobres, que compõem o que a gente chama de “povo”, e mesmo de “povão”. Essas pessoas nem sabem que diabo é fascismo, trabalham feito umas condenadas para criarem seus filhos decentemente, e legiões delas estão aderindo à onda bolsonarista que se agigantou no país. Como e por quê? Vou dar o exemplo de uma delas.

Na segunda-feira, depois do domingo do primeiro turno, bati um papo interessante com o camarada de um pequeno “sebo” perto de minha casa, onde compro livros de Agatha Christe. Compro, leio e lhe dou de presente para que ele venda de novo… e assim vá levando sua vida de “pobre diabo”, como se dizia antigamente. Ele votou em Bolsonaro. Por quê? Porque “a bagunça está demais”… Por bagunça ele se referia à roubalheira dos políticos, mas também ao assassinato de um pai de família morto na manhã do domingo dia 30 de setembro (o mesmo dia em que, à tarde, houve a manifestação pró-Bolsonaro em Boa Viagem), no Parque das Esculturas, em frente ao Recife Antigo, enquanto passeava de bicicleta com a mulher e uma sobrinha. O assaltante chegou, levou celular, bicicleta e lhe deu um tiro. Em tempo: ele próprio, o “sebista” já teve seu pequeno comércio arrombado três vezes por ladrões, durante a madrugada. Eles não foram roubar livros. Foram roubar cigarros refrigerantes e cerveja, que ele também vendia. Não vende mais. Cigarro, só no retalho; e, de liquido, agora só água mineral…

Essas pessoas têm aderido a um sujeito que vem destilando ódio há anos, mas elas não são más! No geral são pessoas boas e honestas, revoltadas com tudo o que sofrem diariamente, faça chuva ou faça sol, inclusive a intolerável violência urbana de que são as vítimas mais corriqueiras, porque mais vulneráveis. Têm medo por elas e por seus filhos, de que eles caiam no “mundo das drogas” e, daí, na criminalidade. Temos, no sentido sociológico do termo, que fazer um esforço de “compreendê-las”. Sei que não podemos nem devemos votar como elas votaram, mas também não podemos nem devemos simplesmente voltar-lhes as costas e continuar nosso discurso bem-intencionado e protegido dos horrores do mundo nas “bolhas” em que vivemos: a universidade, o escritório, o apartamento cercado de guaritas. Pessoas como meu “sebista” não são nem burras, nem ignorantes, nem estão sendo enganadas. Elas sabem o que estão fazendo. No curso da nossa conversa, de repente fiquei com a sensação de que elas se cansaram do nosso “humanismo mole” que em trinta anos de democracia (1988-2018) não lhes proporcionou o que também é um direito humano elementar: o direito à segurança pessoal (cf. art. 3º da Declaração dos Direitos Humanos da ONU). Na frente de um “doutor” como eu, elas até podem se sentir embaraçadas em dizer claramente o que pensam dos “tais direitos humanos”, mas como encontraram um “sem-vergonha” que vocalizou o que elas têm vergonha de admitir, se vingaram de nossas lições de moral com o voto – porque o voto é livre e secreto… Acho praticamente impossível que Bolsonaro não ganhe essas eleições. E aí vamos, pacientemente, pensar nossas feridas.

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Poucos dias antes do desastroso resultado eleitoral do dia 7 de outubro último, tive uma instrutiva discussão com uma amiga querida de longa data – também de longa data eleitora do PT. Discutíamos sobre a quem caberia expiar a “culpa” pelo desastre que já se antevia. Em certo momento, critiquei o PT por ter se recusado, meses atrás, a compor uma chapa com Ciro Gomes. “Mas como?” – ela reagiu. “O PT ofereceu a Ciro a vice-presidência!” – completou. Fiquei estupefato. Não ocorria a minha amiga que o Partido dos Trabalhadores, depois de ganhar quatro eleições presidenciais em seguida, e de ter afundado numa crise moral e política sem precedentes, bem que poderia ter aceito uma aliança a favor da democracia em que não figuraria como cabeça de chapa. No day after, Ciro deu o troco. Embarcou com família, malas e bagagens num avião com destino à Europa. Para mim, uns e outros mostram como o terreno da política – a da brasileira em particular – é um deserto sem grandeza.

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4 Comments

  1. Mais um texto viúvo do Marxismo. Impressionante como a maioria das publicações desta revista defendem esta ideologia e ainda querem se mostrar neutros e democratas. Ainda queriam que o PT desse a cabeça de chapa para o Ciro em favor da democracia. Onde Ciro é um democrata cara pálida? Cansei de ler tanta besteira destes ditos intelectuais. Peço ao João que por gentileza me exclua do rol dos leitores da Será, pois já passei dos 30 faz tempo e nem antes dos 18 tinha pensamentos socialistas. Acho que nasci sem coração mesmo. Agradeço pelo recebimento de tantas edições anteriores. Abraços à todos.

  2. Prezado Iramar,

    se um leitor educado como você considera o meu texto como mais um “viúvo do Marxismo”, e que “a maioria das publicações desta revista defendem esta ideologia”, das duas, uma: ou eu enlouqueci, ou o mundo enlouqueceu.
    De minha parte, agradeço o abraço a todos.
    E acho que vou me recolher e cultivar meu jardim, como recomendava Voltaire.

    Cordial abraço,

    Luciano Oliveira

  3. João,

    Tem horas que eu acho que a primeira condição para ser um “publisher” de seu gabarito, passa por ter um coração benevolente e um fígado isolado do sistema circulatório. Isso dito, eu jamais poderia ser um.

    Um abraço,

    Fernando

  4. Do primeiro comentador, posso dizer que já vai tarde.
    Afirmar que a maioria dos artigos desta revista defende a ideologia marxista é simplesmente revelar uma dificuldade de compreensão de textos. Coisa até frequente nas novas gerações de estudantes, mas surpreendente em pessoas mais maduras.
    Assim, não vale a pena continuar como nosso leitor. Vai ficar sem entender o “espírito da coisa”.

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