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Penso, logo duvido.

A imagem perdida – Sérgio C. Buarque

Sérgio C. Buarque

Mirror (autor desconhecido).

Mirror (autor desconhecido).

De fora, Alberto já podia ver o salão cheio de homens e mulheres elegantes. Teve impulso de voltar, evitando os salamaleques e as futilidades da festa. Pensou em Alice, acelerou os passos, empurrou a porta de vidro com vigor, e entrou. Cabelo curto e barba rala, ele vestia um blazer cinza e uma calça jeans azul, destoando do traje a rigor dos homens que circulavam no ambiente. Ao entrar, viu o cronista social da cidade na mesa da direita, logo na entrada do salão, gesticulando para todos os lados e se exibindo para as jovens em torno da mesa. Elas apenas sorriam. Estariam encantadas com o poder e a verve ou sorriam de desprezo pela sua eloquência rasteira e ridícula? Alberto avançou pelo corredor evitando as pessoas. Não pode evitar, porém, as saudações de alguns amigos e sinais de conhecidos que o convidavam para tomar um uísque e jogar conversa fora. Não queria ser grosseiro, mas continuou andando entre as mesas passando pelos homens de pé com copos na mão e garçons apressados circulando com suas bandejas. No meio do salão teve que parar para cumprimentar um casal amigo, trocou algumas palavras e aceitou uma taça de vinho. O olhar, no entanto, circulava em busca de Alice.

No fundo do salão, um grande espelho reproduzia os movimentos e as luzes da festa, pessoas, gestos e olhares que se projetavam na tela. Caminhando para o fundo na direção do espelho, ele via a festa duplicada. A superexposição de imagens e o excesso de reflexos luminosos pressionvam o seu globo ocular provocando um grande incômodo e um princípio de enxaqueca. Continuou andando para o fundo procurando Alice, circulando o olhar pelos cantos. Na medida em que se aproximava do espelho, Alberto se distanciava da porta de entrada deixando para trás as pessoas que continuavam se movendo nas imagens de cores e luzes projetadas.

Ele continuou descendo pelo corredor, cumprimentava algumas pessoas e observava o agitado movimento no espelho. De repente, parou. No meio da multidão refletida não via sua imagem, mesmo que estivesse ao lado de um casal, este sim estava bem nítido no cristal. Olhou assustado, forçou a vista, mas faltava precisamente ele naquele retrato projetado na parede do futuro. Tentou se afastar de algum obstáculo que o estivesse escondendo do espelho, se moveu para um lado e outro, mas continuava sem a sua reprodução. No meio de um enorme movimento de pessoas e objetos refletidos, Alberto não localizava a si mesmo, incômoda ausência do seu corpo que deveria estar lá, reproduzido como resultado do reflexo das luzes que dançavam no salão. Ele se colocou entre duas pessoas, abraçou-as e localizou as suas imagens. Mas, no meio, nada, ninguém, um vazio entre os dois corpos. “Que é isso? Onde está minha imagem? Que loucura é esta?”, falava e se mexia inquieto, desesperado com a inusitada situação. Empurrou os dois e acelerou a descida pelo corredor. Já não procurava Alice. Procurava por ele que deveria estar se mexendo no espelho e que, no entanto, não aparecia, não existia na reprodução.

Continou caminhando apressado, percebia os olhares desconfiados das pessoas no espelho, e sentiu a cabeça doendo da pressão das luzes e do desespero com a sua imagem perdida.Ele se tocava, sabia que estava vivo e sentia seu corpo. Mas não existia, simplesmente não existia como todo mundo, parecia um ser transparente que não refletia a luz. Mais um passo e encostou no espelho, tocou com as mãos, enfiou o rosto na peça fria. Recuou com um olhar alucinado e perplexo. Via a projeção da multidão atrás que o olhava sem entender o estranho comportamento. Só ele não aparecia na tela. Assustado, desesperado, Alberto recuou, pegou uma cadeira de metal, correu e jogou-a no espelho, destruindo a peça que o rejeitava. A parede ficou vazia, não tinha mais espelho para refletir imagens, nem a dele nem de mais ninguém no salão. Sorriu aliviado. Encostou o corpo na parede nua, escorregou até sentar no chão. Virou de costas olhando agora para o salão. O alívio inicial cedeu ao pânico. De repente, o salão agora estava completamente vazio. Ninguém existia mais, exceto Alberto. Levantou cabeça, ainda assustado com a sua repentina solidão e, finalmente, viu Alice, de costas, caminhando no salão em direção à porta de saída.

One Comment

  1. Que imagem linda, Sergio! A multidão, a solidão, o ego, o amor…Tanta coisa em uma unica página!!!

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