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Penso, logo duvido.

Página de memória: o voo da Georgia – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Aeronave.

EU JÁ TINHA RODADO BOA PARTE DA EUROPA, visitara meia-dúzia de países do Oriente Médio e vivera nas três principais nações do Velho Continente, quando meu pai sugeriu que eu fosse aos Estados Unidos por uns dias, como integrante do então chamado Voo da Georgia. Tratava-se de uma iniciativa bilateral entre Pernambuco e o estado do sudeste. Concebida nos anos 70, trazia duzentas pessoas de lá para o Recife, e, no mesmo avião fretado da Braniff, levava outros tantos dos nossos para Atlanta. No regresso das delegações, o procedimento se repetia ano após ano em mão inversa. Segundo ele, obstinado em me ver um dia engastado na diplomacia de estado, passava da hora de eu ter uma primeira percepção do grande país, a terra mítica que muito pernambucano apelidava de América, emulando o cacoete ianque de atribuir a si o peso do continente – como víamos nos filmes. Quanto mais conhecesse do mundo, dizia ele, mais perto estaria daquela que ele considerava minha vocação. Por certo, o raciocínio deveria ter sido outro: saciado dos grandes palcos, diminuiria o apetite em vê-los sob a ótica de um Terceiro-Secretário. Foi o que aconteceu. Afinal, não precisaria do serviço público para saber que meu lugar era nos confins da Terra.

Com tamanho apoio, é claro que aderi à ideia com entusiasmo embora dissesse a mim mesmo que, se procedente a dicotomia excludente entre ambos os lados do Atlântico, eu haveria de permanecer europeu para sempre. Fato era, porém, que esse maniqueísmo não passava de bravata de bar e em nada mudaria a feição da Guerra Fria. Lá fui eu, portanto. Se já não lembro de que ano estamos falando – 1977 seria um bom palpite -, inesquecíveis foram meus companheiros de poltrona: Janete Costa e Borsoi. Conversamos de uma ponta a outra da viagem e o papo fervilhou quando entramos nas intimidades familiares. Isso porque ela tinha uma parente casada com um tio meu, figura lendária de Garanhuns. Assim, a partir de tia Bubu e tio Pipe, a discussão orbitou para o mundo maior e nos descobrimos afeitos às viagens e às experiências – o casal, é claro, do alto de uma rodagem respeitável já que unia, como poucos, o lazer e o trabalho, quintessência do que eu buscaria para mim mesmo, mais adiante. No voo mítico, uma vontade fortuita pode ter virado epifania – sim, era possível ganhar a vida viajando.

Pouco depois da decolagem do Recife, a alegria dos passageiros era transbordante e imperava um clima de congraçamento entre velhos e novos amigos. As garrafas de uísque – a bebida fetiche do Balneário, da Mata e do Agreste – brotavam das bolsas femininas e passavam de mão em mão como troféus camuflados. Ontem como hoje, um beduíno sedento não exultaria tanto diante de um oásis quanto um pernambucano de grei diante do scotch. Apesar da pouca idade, fui bem acolhido por alguns passageiros que conheciam minha família. Entre eles, Carlos Alberto Gueiros, de quem papai gostava; e Dr. José Fernandes, cavalheiro de fina estampa que, já septuagenário, fora médico de meu avô materno e tinha por hábito madrugar nas areias de Boa Viagem, muito antes de essa prática virar moda. Nem todo mundo ficaria em Atlanta pelos doze dias do programa. Eu mesmo me engajara num grupo que visitou Nova York e Miami. Se me apaixonei pela primeira, certo é que detestei a última e esse sentimento de rejeição jamais mudou. Aos 57 anos, sou fiel ao que senti aos 19. Se bom ou ruim, jamais saberei. Coerente, certamente.

O ponto alto, contudo, foi a estada na emergente capital do sudeste. Terra de onde Jimmy Carter governara o estado, Atlanta conheceria nos anos seguintes um progresso colossal. Se o velho democrata foi maior como ex-presidente do que como titular da Casa Branca, a cidade se preparava para ser um enorme “hub” aéreo e acolher empresas que, além da Coca Cola, se tornariam icônicas num futuro próximo. Era o caso, entre outras, da CNN, do endiabrado Ted Turner, um homem que pouco vira de telejornal para entender o mundo. Visionário, contudo, lhe coube transformá-lo ao criar uma rede que transmitiria notícias repetidas em escala mundial, varando os fusos horários. São iniciativas dessa envergadura que distinguem os Estados Unidos. Poderia ter havido um Bill Gates alemão? Um Steve Jobs belga? Talvez nunca. A cidade que então conheci, no entanto, ainda trazia alguma coisa de modorrenta e provinciana. A vida então acontecia perto do centro da cidade, hoje uma referência vaga e sem molho, embora os condomínios impessoais já existissem. Neles, um homem percorria uma légua para comprar pão e isso lhe parecia normal. A vida de pedestre começava a se extinguir nos subúrbios.

Chegando ao aeroporto, os intercambistas tinham que identificar os anfitriões que traziam seus nomes em placas rabiscadas. Uns poucos já se conheciam de outras viagens ou mesmo por fotos. “Fernando, Welcome” – logo achei minha família na pessoa de uma senhora relativamente jovem, de obesidade esférica, ofegante, óculos de sol, enfiada numa bata de flores amarelas e calça Capri preta. Por um momento, torci para ter um homônimo no grupo. Bem diferente tinha sido a experiência de meu primo quando viveu nos EUA e eu queria isonomia para ter o que contar. Ademais, os casos de obesidade mórbida que eu conhecera se contavam nos dedos. Tinha em mente o filho de Carlos Duarte, um homem gordo que jogava bilhar no bar de Clóvis, na rua do Lima. O quadro dele era extremado e o carro Veraneio pendia para o lado em que sentava. Mas o dela não ficava a dever. Em compensação, como fazem os gordos, Molly se mostrou empenhada e bonachona. Caminhou até o estacionamento pedindo desculpas por ser como era. Sou assim, mas prometo que você se divertirá conosco, parecia querer dizer. Chegamos a um utilitário enorme; ela custou a achar a chave e mais ainda a encaixá-la na ignição.

Eu não sabia o que dizer e lhe minimizei a culpa descabida como pude. Será que ela se apercebeu que eu ficara assustado? Talvez. Uma vez sentados, perguntou se eu queria dirigir porque costumava ter apagões que a cegavam, sobretudo no lusco-fusco. Eu sugeri que ela guiasse por uns minutos para eu observar como os outros se viravam. Como poderia me sentar ao volante numa cidade cujas regras eu desconhecia? Ela riu com vontade. Ora, eles lá faziam como todo mundo; as leis eram universais. Percebi, então, que Molly achava que o planeta todo era uma projeção da realidade norte-americana. Sem retoques nem nuanças. Registrei o delírio, inconsciente de que um dia o conheceria pelo vulgo de etnocentrismo cultural. Uma variante de quem se julgava a ´América`. A bem da verdade, ela aceitou meu ponto de vista e disse que, sendo tão ponderado, teria muito a ensinar ao filho. Tratava-se de um rapaz de minha idade, porém mimado e rabugento. Como toda mãe, logo se arrependeu da confidência e a consertou. Cedendo ao coração, mutilou a verdade em favor de um truísmo raso: “Well, he is just a boy”.

Quase uma hora mais tarde, chegamos ao apartamento escuro depois de pararmos num supermercado que, isolado, era maior do que a soma das áreas de todas as lojas do Bompreço que tínhamos no Recife de então. Mal entramos em casa, ela gritou o nome do filho e sugeriu que eu me servisse de gelo numa máquina plantada no meio da sala. Segundo ela, todos ali gostavam de um drinque. Apesar do porre do avião, não achei a ideia ruim e me surpreendi com a quantidade de garrafas que vi na mesinha da sala. Tirando o Campari, as bebidas restantes vinham em várias versões e marcas – uísque, gim, vodca, vinho e, bem entendido, cerveja. Concluí com acerto que não haveria lugar para tédio naquele lar que me exporia às primeiras impressões do “American way of life”. Sorte que não fora recebido por puritanos, temor generalizado do grupo. Olhando para trás, hoje constato que mesmo os protestantes mais austeros da época ainda eram figuras brandas quando comparadas com os “red necks” que hoje povoam o “Cinturão da Bíblia” sulista.

Molly falava com o sotaque cantado do Alabama, de onde viera com a família ainda menina. O pai era veterinário e a mãe dona de casa. Na estante, pontificava uma foto dela no dia da formatura na High School e mostrava uma moça rechonchuda, de olhos violeta – hoje ofuscados atrás de lentes de grau. Mostrou-me o quarto e trouxe um presente de boas vindas que esquecera de levar ao aeroporto. Era uma colônia Old Spice – ou seria Musk? – e um long-play de um conjunto local de grande sucesso. Creio que o tenho até hoje, mas nunca o ouvi. Pensando bem, eu estava ali em meu elemento. Vivenciar particularismos culturais haveria de ser a mola propulsora de minha formação. Em outras palavras: adorava observar a vida dos outros. Sem fazer disso um ofício mórbido, mas enriquecedor e quase antropológico, meu olhar se detinha nos detalhes e nos sentimentos que eles evocavam; e menos no que eles significavam. Ainda hoje sou assim. Ademais, sempre gostei mais de história contemporânea do que da antiga.

*

O FILHO DE MOLLY, TEDDY, era mais sardento do que eu próprio e tinha má índole, sejamos sinceros. Se assim não fosse, como justificar aquele sotaque terrível e o meio-sorriso cavernoso e gutural que nunca aflorava à boca? Ademais, como entender que tratasse a mãe com um desdém tão odioso? Era como se lhe exigisse um esforço enorme dirigir a palavra à pobre mulher. Quando o fazia, grunhia um monossílabo em resposta à terceira tentativa dela de aparentar uma normalidade que, visivelmente, não era de regra em casa. Se o rapaz agia assim na frente de visitantes, o que não fazia no dia a dia, longe de olhares estranhos? A bem da verdade, se o padrão de filho voluntarioso e delinquente se tornaria corrente a partir dos anos 90 – inclusive nos lares brasileiros de classe média -, quarenta anos atrás a praxe ainda não estava consagrada. Eu, pelo menos, jamais vira tanta impertinência, sequer na Europa. Ou mesmo no kibutz, um celeiro de adolescentes cheios de “chutzpah”, sob o olhar de pais complacentes.

Ainda nesse terreno, vale dizer que, se hoje perdi a habilidade para ocultar antipatias, naquela época as camuflava com maestria, e rebatia cada ação perversa com uma pergunta amistosa. Essa habilidade tem uma explicação. O autoritarismo de meu pai me ensinara a lidar com a força e a me defender bem. Como nas artes marciais orientais, eu derrotava o contendor com o peso e a agressividade dele próprio. Quem disse que juventude é sinônimo de asneira e que só a idade traz sabedoria? Engana-se, pois. Não é só no campo desportivo que o adulto velho não pode mais repicar o que foi quando jovem. É também no comportamental, o que parece indicar retrocesso inelutável. Já naquela época, portanto, dificilmente ouvia um “não”, de tão hábil que era. Foi só quando entrei nos 40 anos que abdiquei do jeito em favor da força, guinada essa que marcou a banalização – destino de quase todo vivente. Com o cair da noite, contudo, eu logo entenderia de onde o rapaz herdara tanta malícia; aquele “blend” de amargura com perversidade latente.

Pois quando ouvimos o barulho da chave virar na fechadura, um “frisson” varreu o ambiente e se apoderou de todos. Até do gato que, rápido, se esgueirou por trás do sofá, levantou o rabo bem alto e miou. Você deve ser Orlando, veio gritando casa adentro o dono de uma voz metalizada, chefe absoluto da pequena taba. Teddy se espigou na cadeira e engoliu em seco. Um despertador disparou com estrépito. O telefone tocou. Lá dentro, Molly derrubou a panela. Do vizinho, veio o choro de uma criança. Da rua, um buzinaço irritado. O mundo balançou, eu trouxe a respiração para o diafragma e contei até três. Um, dois três… Conhecia de algum lugar aquele sentimento. Era um homem altivo e bem apessoado. Os olhos verdes vasculharam o ambiente enquanto pendurava na chapeleira a jaqueta de couro, jogava a chave no sofá e me estendia uma mão descarnada que apertou a minha como um quebra-nozes. Já vou tomar um desses, murmurou apontando a garrafa de Wild Turkey. Certo é que, bronzeado e sem uma mecha de cabelo branco, ele não parecia ser o marido de Molly. Eu só tive a confirmação em contrário quando Teddy o chamou de pai. Havia algo em ambos que os assemelhava como duas gotas.

Corrigi meu nome. Orlando, não; Fernando – o que fazia só uma boa rima, suavizei. Derek minimizou o próprio erro como quem diz que dava tudo na mesma. Quem mandava os latinos gostarem tanto de vogais abertas? Gritando em direção à cozinha, alertou Molly que eu estava com ar faminto. Foi a única verdade aproveitável que proferiu em dias. Enquanto ela esquentava acepipes mexicanos, o homem me olhou nos olhos e, do nada, assumiu que era uma pessoa brutalmente franca. Perguntando-me sobre a viagem, ouviu com enfado meu relato e, riscando o ar com um gesto seco, comentou cada um dos pontos pertinentes: ele jamais enfrentaria um voo tão longo para sair dos Estados Unidos. Ademais, que eu o desculpasse, mas ele não tinha a menor intenção de conhecer o Brasil mesmo porque era homem de fazenda, não de floresta. Sarcástico, concluiu que ficaria contente se Molly nos visitasse no ano seguinte, conforme sonhava. Na selva, disse, ela teria que caminhar e isso lhe faria bem à silhueta. Nem o filho riu da tentativa de piada. Naquele instante, tomei um gole mais longo e odiei-o.

Rápido, Derek chegou à segunda dose. Molly o chamava de “honey”, mas estava claro que o tratamento carinhoso era descabido e o irritava. Aquele intervalo demorou a passar. Com a chegada de dois rapazes à casa, ambos amigos de Teddy e apenas um pouco mais educados do que ele, foi dada a senha para que saíssemos para minha primeira noitada em Atlanta depois de uma rodada de tacos com guacamole. Derek recomendou que pegássemos leve. Com uma piscadela de olho, me instou a conhecer as amigas que tocavam na banda da escola do filho. Amanhã, concluiu, gostaria de ter alguns minutos comigo para uma conversa de homem para homem. Podia ser? Sem entender o propósito da convocação bizarra, respondi que me acenasse quando quisesse. Molly arqueou as sobrancelhas e balançou a cabeça. Eram muitas as situações novas e ir dormir até que não teria sido má ideia. Mas como frustrar os planos da família que pareciam traçados há dias? Quando saíamos, vi que Derek também pegou o carro e sumiu na noite. No bar, saudei uns recifenses à distância. Ali, pertencíamos a mundos diferentes e eu queria ir a fundo no meu.

*

O DIA SEGUINTE À MINHA CHEGADA FOI UM SÁBADO e acordei desacorçoado, sem saber direito onde estava. Não imaginava que essa sensação narcotizante me perseguiria por décadas a fio, e que um dia ela estaria para as viagens como a embriaguez está para a bebida: uma consequência desejada embora raramente explicitada. No começo daquela noite, teríamos uma recepção no senado estadual com os membros da delegação recifense e nossos anfitriões. Foi a primeira vez que vi pessoas de todas as idades usando crachá e abordando umas às outras para conversas leves. Era o proverbial “small talk” das sociedades igualitárias – uma prática consagrada no mundo ianque, hoje conhecida como fazer “network”. Nos palcos onde eu transitara – as nada igualitárias França e Alemanha – as abordagens eram mais formais, quase sisudas e, as hierarquias, estruturadas. Apesar de falar a mesma língua, a Grã-Bretanha tampouco prescindia de estratificações nítidas para iniciados, insinuadas nas vitaminas e venenos do idioma de Oscar Wilde. Mas ali todo mundo era informal. Antes disso, porém, me aguardava viver o pior.

Os amigos de Teddy passaram na hora do almoço para fazermos um passeio até o entardecer, quando eu deveria estar de volta. Molly precisava de tempo para fazer o cabelo e, de tão empolgada, parecia que ia ao próprio baile de debutante. Derek, é óbvio, não pretendia nos acompanhar à noite. Mas perguntou se íamos ao safári naquela tarde e os meninos assentiram sem jeito, os olhos ora no teto ora no chão. Bem ou mal, tinham gostado de mim e mais de uma vez estouraram de rir com meu sotaque britânico que lhes parecia tão ou mais ridículo que o deles a mim. No porta-malas do carro, jaziam duas caixas com 24 cervejas a temperatura ambiente, o que era bem passável dada a meia-estação. Quando já estávamos cada um bebendo a terceira lata, chegamos a um bairro de casas de madeira. Lá, negros altos e parecidos com Morgan Freeman ficavam parados à soleira da porta sob o sol. Taciturnos, de camiseta cavada ou camisa xadrez, eles olhavam o movimento da rua com expressão neutra e pareciam imóveis, petrificados.

Foi quando entramos numa rua menos central que Teddy reduziu a marcha e aproximou o carro da calçada. Então, um dos rapazes colocou o tronco para fora da janela, e, com toda força de seus músculos e sem qualquer piedade, arremessou uma lata de cerveja cheia no meio das costas de um negro de meia-idade. Com o arremesso, insultos de toda ordem espoucaram e ecoou um grito de guerra: “Fucking nigger!”. O homem fora pego desprevenido. Ainda que rodássemos a baixa velocidade, o impacto do recipiente fez com que ele caísse em meio a um vagido que ouço até hoje. Teddy, o motorista, arrancou e os dois amigos urravam para disfarçar o medo e acompanhar a subida da adrenalina. De novo, o que dizer? Até que ponto aquela cena era representativa do Sul Profundo? Mais tarde, o nefando Derek me recomendou fazer o mesmo no Brasil: “Por que não? Tratem de adotar os bons costumes. Jovens precisam de diversão e só se vive uma vez. E, depois, para que mais servem os pretos?” Era esse o tal safári a que aludira.

Essa atitude só me reforçava a convicção de alguns letrados de que o norte-americano médio passava da adolescência para a senilidade, sem pausa no mundo adulto. Na recepção, meus colegas de intercâmbio falavam de suas famílias com orgulho e alguns apresentavam-nas como se fossem ligados a elas desde sempre. Eu estava acompanhado de Molly que me chamava para novas rodinhas mal elas se formavam. Dizia que eu era ajuizado para a idade que tinha e falava muitas línguas. Eu também passei a prestigiá-la junto aos recifenses ensimesmados com o mesmo desembaraço. Com todos, ela abria o coração: dificilmente poderia conhecer o Brasil um dia já que o diabetes não permitiria voos longos. Mesmo assim, inscrevera a família como forma de aprender mais sobre nós. Como é comum entre eles, reagia com estardalhaço à menor informação, ciosa de mostrar interesse pelo outro. Se alguém confessasse que gostava de milk-shake, ela se sairia com um longo: “Really?”. E complementava com um óbvio “So do I”, suspirando. Na modesta biblioteca de Molly, Dr. Norman Vincent Peale e o pensamento positivo ocupavam lugar de honra.

Aturdido, mas dividindo a atenção entre muitos naquela solenidade caipira e pomposa, vez por outra eu pensava na conversa de homem para homem que tivera com Derek antes de sair de casa. Com um drinque na mão, usando a mesma roupa da véspera, barba crescida de um dia e exalando um hálito azedo mal camuflado pelo chiclete, ele me dissera que obviamente já não tinha relações sexuais com Molly e que vivia com ela por piedade. Na verdade, tinha uma namorada que fora rainha da beleza de uma cidade vizinha. Pena que eu não poderia conhecê-la. Dormia na casa dela nos fins de semana e Molly fingia ignorar o pecadilho. Muitos anos depois e centenas de confidências masculinas ouvidas, nunca tive pruridos de escutar as histórias mais aberrantes – afora as que eu mesmo contei. Contudo, jamais uma conversa me terá soado mais gratuita e sórdida do que o papo melífluo de Derek. Não fiz comentário algum e ele deve ter sentido no olhar a medida de meu nojo. “That´s the way it is. Sorry”, reconheceu. Dali em diante, passou a me evitar.

Pobre Molly. A certa altura, desfilávamos de braços dados sob a cúpula dourada e ela se sentia num filme. Espigada, trajava um vestido marfim longo, cravejado de brilhos. Nunca tinha estado numa recepção do senado e me agradecia. Eu disse que ela estava “dazzling”. No meu ouvido, segredou ter orgulho de mim tanto quanto tinha do filho. Não me senti lisonjeado, mas entendi o que isso significava para ela. Era uma mulher de valor, cheia de boas intenções. Mas a vida só lhe dera cartas ruins. Como pode? Emparedada entre a doença grave e a vulgaridade de Derek, ela ainda embalava sonhos e tentava se virar. Hoje me lembra uma flor acuada na busca desesperada do sol. Em dada hora, admitiu que não viveria muito e que a doença seria mais forte do que ela. Com os olhos marejados por trás das lentes embaçadas, confessou adorar fazer amigos. Mas casara cedo e pouco vira do mundo. Verdade que na França comiam carne crua com gema de ovo? Não fazia muita questão de conhecer a Espanha. Para ela, era como estar no México. Mas sonhava com a Itália. Uma amiga que fez na clínica tinha ido às ilhas gregas. Lá arranjara um namorado peludo que lhe roubara duzentos dólares. Ah, o mundo.

Dois dias mais tarde, embarquei para Nova York com alívio, mas triste por ela. Ainda passaria uma última noite em Atlanta, mas recebera um convite mais alinhado com os anseios do momento. Assim, voltei à casa dela com Sylvia, uma namorada-relâmpago, para pegar a bagagem e lhe levar um presente. Depois disso, nunca mais soube da família. Por que não lhe telefonei naquele Natal? Porque é da natureza do jovem virar as páginas com rapidez. Retornei algumas vezes a Atlanta. Mas o mundo então já dera voltas e por certo ficara tarde para Molly viver e sonhar.

 

*

8 Comments

  1. Molly, Derek e Teddy são tão bem descritos que parecem personagens de Truman Capote. Parabéns FD! Não pare.

  2. Essa veia poética e novelística de Fernando para nos ensinar as coisas do mundo, sobre o mundo é muito prazeiroso!!! Não se aprende apenas, a gente se diverte!!!! Obrigada, Fernando!

  3. O verdadeiro caçador nesse safari foi você – os troféus estão aí postos.

    Extrair uma prosa elegante de personagens, aparentemente, pouco fascinantes em seus prefácios é um exercício de criatividade e curiosidade da natureza humana. Concordo com Romulo e adendo uma pitada de Steinbech.

  4. Gostei muito do texto. Não sei se o chamaria crônica, parece mais. Sem desdenhar da forma consagrada em nosso tempo por Braga, Sabino, Millôr…, a bela história contada por Fernando (vivam nossas vogais longas!) dá vontade de saber mais: da adorável Molly e sua detestável família, da rápida imersão no deep south do jovem precocemente cosmopolita. E de sua experiência em Nova Iorque, até por uma coincidência: também encantei-me nela, em única e breve visita, só depois de extasiar-me em Lisboa, Paris e assumir decididas preferências europeias.

  5. Olá,

    Depoimentos como os acima me enchem de alegria. Obrigado a Jaime e Marco Antônio que aqui vejo pela primeira vez, dando uma força e tanto a um texto de minha lavra.

    Sim, concordo que ele é longo demais para ser chamado de crônica e tampouco pinça os elementos do cotidiano que singularizavam os escritores citados. Logo, crônica não é.

    A palavra ensaio me parece coisa de gente grande. Jogador da série C – que é o meu caso – cairia no ridículo e na execração se ousasse se atribuir o título de ensaísta, nem que fosse por um episódio.

    Hoje em dia vejo muita gente acoimando de “pensata” essas divagações que me são caras. Nelas, aciono um navegador e vou registrando os pontos de apoio que identifico na bruma. Mas também é presunçoso.

    Daí, por fim, ter batizado de “página de memória”. Se a insignificância não me autoriza a escrever uma biografia, ninguém me impede de explorar as reminiscências de uma vida que foi só minha, não é?

    Uma coisa é certa. Nesse universo dito de cultura, e isso vale para a literatura em especial, impera um microclima de chuva ácida inimaginável para quem olha de fora. Onde quer que você se encaixe, vira alvo.

    É como se os escritores de ofício lutassem por migalhas de facão na mão.
    Só há um lugar inexpugnável para quem escreve: o coração do leitor. Só lá, ele estará abrigado dessa faceta obscura da miséria humana.

    Mesmo assim, muito escrevinhador de ofício o acusará de raso, sentimental e apelativo. O desprezo da classe, como o tempo ensina, é bom termômetro. Só significa que você pode estar no caminho certo.

    É claro que faço uma generalização a partir dos poucos que conheço. Entre eles, há alguns que são magnânimos. Meu primo Paulo Caldas, por exemplo, sempre tem uma palavra de carinho. Homero Fonseca, nem se fala.

    Isso dito, pediria um favor prático. Se alguém conhecer pessoas que participaram desses voos da Geórgia – “Partners of America”-, divulgue, por gentileza, esse esforço de resgate junto a eles.

    Para muita gente que hoje conta entre 50 a 80 anos de idade, será como abrir uma janela para uma dia iluminado. Elas mesmas se sentirão motivadas a resgatar lembranças e registrá-las em algum lugar.

    Numa dessas, quem sabe alguém não me dirá que Molly está viva e muito feliz? Que Teddy hoje é um líder comunitário num bairro negro e que Derek, depois de uns anos na cadeia, pertence ao AAA de Atlanta?

    Abraço,

    Fernando

  6. Fernando,
    Impossível não se deleitar com o estilo e a artesania de personagens, autobiográficos ou não, parecem emergir de uma novela de Faulkner. Aliás, lembrei de Viver para contar de Gabo quando relata os debates e estudos com os amigos literatos à época.
    Seus ensaios a cada dia mostram um escritor maior. Aguardamos o próximo. Abç

    • Obrigado, Tonho. Não lembrava de ter lido esse comentário generoso. Relendo-o nessa noite de Carnaval – já antecipei a comemoração do meu – me ocorreu te agradecer pela força. De abril para cá, dei o que podia. Espero ter correspondido.

      FD

  7. Não seria uma novela? Partindo das lembranças como todos as outras novelas e romances já escritos? Ousando a ficção mas ainda algo presa às memórias?

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