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Penso, logo duvido.

Brava gente del Mezzogiorno – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Corigliano Calabrio.

“L´Italia non esiste” , dito popular.

Se você já foi a Nápoles, e de lá se animou a pegar um trem, ou mesmo um carro, e se desceu ao longo da costa em direção ao bico da bota da Península, lá onde fica Reggio Calabria, diante da Sicília, algumas coisas lhe terão chamado a atenção no lindo trajeto. Passadas Sorrento e Pompéia, talvez você tenha parado em Battipaglia para comer a melhor muçarela do mundo. Nas terras impregnadas das cinzas do Vesúvio, o pasto por ali é único e não há leite tão propício para a confecção daquelas pelotas brancas que descansam na salmoura em grandes tigelas, à porta dos restaurantes, e que os clientes pescam com uma pequena rede. Uma vez no prato, recebem a escolta de rodelas de tomate e um fio de azeite. Com um pão crocante na cestinha e um copo de vinho terroso à mão, você terá conhecido algo muito próximo ao que alguns chamam de felicidade suprema.

Seguindo viagem, tendo à direita o mar Tirreno, é reconfortante adivinhar que do outro lado do horizonte está a Sardenha, terra de gente longeva. Se no verão tudo é desumano de tão escaldante, não esqueça de se acautelar contra os sirocos e as tramontanas que sopram no outono e inverno. De novembro a fevereiro, dir-se-ia que a região fica hibernada, reduzida a um ramerrão em que só as festas do padroeiro e as quermesses natalinas animam a vida dos burgos sonolentos e frios. Fazem-se então os trabalhos de manutenção nas casas de veraneio e, nem bem começa abril, já começam a chegar os turistas escandinavos e russos, para quem as águas já estarão suportáveis, quase tépidas. Daí em diante, a região ganha vida até o ápice do “Ferragosto” – a festa de Assunção de Maria -, quando essa parte da Península fervilha de italianos à procura do sol, sombra e coquetéis refrescantes.

Continuando na estrada em direção ao ponto em que termina a Basilicata e começa a Calábria, entre as cidades de Maratea e Tortora, se você olhar à esquerda, verá penhascos, vez por outra sacudidos por terremotos, onde vive uma gente singular nas cidadelas muradas. De lá até a Sicília, vicejam traços inconfundíveis: o senso de independência, o ódio ao Norte, o horror ao fisco, o forte senso de família, códigos de conduta comuns no Mediterrâneo oriental, conservadorismo, religiosidade e certo culto à esperteza, desde que esta se volte para ludibriar o opressor. Tanto os de fora quanto os de dentro. Nessas terras, fenícios, sarracenos, otomanos, romanos e mouros já deixaram rastros indeléveis de sua passagem. Portanto, resistir é preciso. Só assim, dá para manter a conserva cultural e o pertencimento. Mas tem algo mais sobre o que queria falar, para além da terra gretada, onde as cabras pastam o verde escasso.

Do que se trata? Da pobreza, ora. Pautados por relações de trabalho quase feudais, foram centenas de milhares os moradores desses burgos empoleirados que conheceram a fome e, por boa parte da vida, viveram na mais completa ignorância. Quem tem acesso a meros certificados de nascimento ou de casamento lavrados há um século, ali verá as digitais de uma sociedade patriarcal, anacrônica, decadente e quase iletrada. Não foi por outra razão que atravessaram os mares aos milhões para “fazer a América”. Argentina, Venezuela, Estados Unidos e Brasil foram algumas dessas novas Mecas. Se os irmãos do Norte – Toscana, Ligúria, Veneto, Lombardia e Piemonte -, gozavam de uma situação mais perene, muito embora também tenham sido sujeitos às peias de uma unificação precária, nunca consolidada até hoje, lá no sul, naquilo que os nortistas chamam de “Calábria Saudita”, emigrar era preciso.

É deste sul que os italianos chamam de “Mezzogiorno” – o antigo reino das Duas Sicílias que hoje compreende, ademais das províncias citadas, também a Campânia, Abruzzo, Molise e Puglia -, que nos chegaram os pais e avós de alguns nomes ilustres do cenário político brasileiro. São Paulo, capital, foi o berço de três deles, por quem tenho curiosidade especial. Embora bem diferentes entre si, notabilizaram-se pela aplicação nos estudos e pela obstinação em superar as limitações de origem. Suas vidas espelham uma espécie de recado aos avós, ecoando por sobre as gerações: o de que eles, efetivamente, fizeram a América, e venceram na vida nos países de adoção. Sempre que os vejo em ocasiões sociais e profissionais, meu olhar se detém sobre os traços fisionômicos de cada um, e tento me transportar até seus locais de origem, na execução de uma coreografia que me habituei a fazer com prazer.

Assim sendo, o bairro industrial do Brás nos legou o embaixador e ex-Ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, em pleno 1937, quando a Segunda Guerra mostrava a que viera. Não longe dali, no coração da Moóca – um bairro ilhado por muitos trilhos e de acesso nada banal para os não iniciados -, veio ao mundo o senador José Serra. Filho de um vendedor de laranjas do Mercado Central, ainda hoje tem parentes que moram bem ao lado do fabricante dos panetones Di Cunto, um modesto porém altivo ícone gastronômico desse bairro de falar tão peculiar. Por fim, foi bem ali no Cambuci, nas cabeceiras da mais paulista das avenidas, que cresceu outro polivalente obstinado de nome Antonio Delfim Netto, nascido em 1928. Embora o morador mais ilustre do bairro tenha sido o operoso pintor toscano Alfredo Volpi, o Cambuci – juntamente com o Brás e a Moóca – formava o triângulo do Anarquismo no Brasil.

Mas falemos por hora do embaixador, talvez o diplomata brasileiro que mais admirei nos muitos anos que acompanho os caminhos e descaminhos do Itamaraty. De todas as vezes em que estivemos juntos, nenhuma foi tão pungente quanto a de um bate-papo de livraria, meses depois do famigerado Escândalo da Parabólica, de 1 de setembro de 1994. Naquela ocasião, em conversa com o jornalista Carlos Monforte, um “link” ficara aberto e vazou para o ar uma passagem comprometedora, quando vocalizada pelo Ministro da Fazenda, posição que ele ocupava à época. Ao dizer que, na entrevista, omitiria as coisas ruins e tentaria capitalizar as boas novas, viu-se etiquetado de biltre e cínico. Como se tamanha desdita – quase 25 anos atrás – não fosse o bastante, soube que seu filho, militante de esquerda, ter-lhe-ia dito que seu amor permanecia garantido, mas que o apreço intelectual que devotara ao pai, este morrera.

Naquela tarde, ao nos encontrarmos lado a lado nas gôndolas da livraria, por uma vez na vida o vi sem terno e gravata. Precocemente envelhecido, parecia que sequer a fé inquebrantável conseguia dirimir aquela humilhação sem fim, sobejamente explorada pela oposição. Em verdadeiro ato de contrição, o embaixador não perdia ocasião de reiterar o quanto estava arrasado e o tanto que tinha dificuldade de se reconhecer no personagem que fora ao ar. Sem pedir permissão para abordar o tema nevrálgico, disse-lhe sem quaisquer peias que nunca estivera tão solidário à dor de alguém, e que era indigno o linchamento de que fora vítima. Percebi-lhe uma fagulha de esperança no fundo dos olhos e, gentilmente, me pediu o e-mail para que nos mantivéssemos em contato. Dali em diante, nunca mais vi a Puglia da mesma maneira e passei a ser um cruzado em favor do filho da napolitana D. Assunta, felizmente redimido pela História.

Do senador José Serra, por questão de empatia – ou talvez por falta dela -, teria menos a dizer. Mas lembro como se fosse hoje daquele homem calvo e pálido que adentrou a sala de aula da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco, a convite do professor Gadiel Perrucci, que nos ensinava História do Pensamento Econômico, e desfiou uma ladainha de costas para os alunos, entretido com as demonstrações que fazia na lousa, tomando um banho de pó de giz. Estranho homem. Não sorria, não fazia um chiste, não dava um contexto, parecia nascido para ser professor das antigas. E, no entanto, mal podia eu imaginar que todas as vezes que comparecesse às urnas dos anos 1980 em diante, haveria sempre de votar naquela figura tão sem encantos e tão sem cor. Ao fazê-lo, vez após vez, jamais me arrependi e ainda hoje desconfio que só Ted Kennedy se lhe iguala em impacto no Legislativo mundo afora.

Seu avô era de Corigliano Calabrio, um daqueles burgos fortificados onde ninguém abre a boca impunemente. Mesmo que seja para tartamudear palavras ininteligíveis em terrível dialeto calabrês que, segundo o ângulo, pode também ser bastante divertido. Excepcional gestor, brilhou por onde passou. Demasiado tarde para lograr o intento máximo de ser Presidente da República, passamos a nos ver pouco. Da última feita, pouco antes de deixar o cargo de Chanceler, vi-o na Hebraica, em recepção a Natan Sharansky. Da tribuna, reportou-se à Moóca e aos judeus que conheceu na infância. Sem treinamento em “boutades” e desprovido do fulgor dos homens de salão, fez piadas de gosto francamente duvidoso diante da plateia, aludindo ao fato de que jamais conhecera judeus pobres, sequer em seu bairro de infância. Contudo, todas as pessoas que me disseram não gostar dele, são, invariavelmente, ruins de serviço. Ainda pode fazer muito no Senado.

E agora resta dedicar umas linhas a Delfim Netto, talvez o personagem que eu tivesse em mente desde o começo do périplo. Seja da viagem iniciada em Nápoles rumo ao bico da bota, lá onde ela parece querer chutar a Sicília, seja nas tantas vezes em que me vi percorrendo de carro os bairros do Cambuci, do Brás e da Moóca, na modorra dos velhos domingos, em que matronas enfiadas numa espécie de camisolão tomavam a fresca nas calçadas da Lins de Vasconcelos, da Paes de Barros ou da rua dos Trilhos. Embora nem só de grandes personagens viva a pequena crônica – pelo contrário -, como não louvar o trio que, alternadamente, foi ocupando as mais destacadas posições da República? Dele, o quase nonagenário Delfim Netto – nascido em 1 de maio de 1928 -, filho de uma costureira e de um funcionário público, mereceria que lhe devotasse um livro, mas temos gente mais apta a fazê-lo do que este escriba.

Desde a mais tenra idade, sabia que aquele sujeito gordote e estrábico era o manda-chuva da economia dos governos militares. Como a sociedade da época era pouco midiatizada, passei anos sem lhe ouvir a voz, restando apenas a contemplação da figura roliça, de terno escuro mal cortado, e óculos de armação inconfundível. Foi só muito adiante, quando já tinha uns 20 anos, que lhe fui apresentado por um ex-sogro na boate Gallery, de São Paulo, em noite de black-tie. Passei boa parte da festa a contemplar aquele homem inverossímil que dançava com a esposa, e àquela altura acabara de deixar a Embaixada do Brasil em Paris, para onde fora mandado numa espécie de exílio dourado. Lembro de ter lido a respeito desse período o jornalista Sebastião Nery que, ao pedir para falar com o embaixador, ouviu da secretária que o ministro já ia atender. Segundo Nery, isso atestava o quanto ele estava aqui, e não lá. Era do poder, pelo poder e para o poder.

Já residindo em São Paulo, comecei a ombrear não somente com ele pessoalmente, mas também com uma constelação de pessoas que lhe devotavam a mais iracunda fidelidade que já vira até então. Detentor de uma vasta bancada pessoal no Congresso, que alguns estimavam em até 80 parlamentares que lhe seguiam os vaticínios como se fosse um oráculo, passei a vê-lo nos bons restaurantes da cidade e, ocasionalmente, em reuniões de trabalho. Muito embora sempre tenha tido agudo senso de humor, há de se ressaltar que há um que de cinismo em seu raciocínio demolidor, todo ele construído para mesmerizar jornalistas e clientes. A história recente mostra que este neto de brava gente do Mezzogiorno se esmerou em exercer poder de uma forma matricial e abrangente, talvez como nunca um de seus ancestrais tenha pensando em fazer naquelas terras onde ravinas sulcam as encostas fumegantes.

Pouco preocupado com a coerência e sempre a postos para colocar sua verve inegável e imensa cultura a serviço dos donatários dos palácios, Delfim Netto é, inegavelmente, um intelectual de fina linhagem e devota ao estudo o melhor de si. Tendo sido alvo de uma operação de busca e apreensão em seus domínios às vésperas de idade tão avançada, vale observar que isso é quase tão honroso quanto ser esfaqueado por ciúmes nessa mesma faixa etária. Quem o conhece de perto, aprecia sua discrição obsessiva quanto a aspectos da vida pessoal. Sabe-se que foi avô depois dos 80 anos, que casou em segundas núpcias com a mãe de sua filha Fabiana – uma homenagem a uma corrente socialista de coração na juventude -, e que já doou mais de 300 mil livros à biblioteca da USP, universidade que o catapultou para a vida. Santo, todos sabem que não é. Mas que fique o registro ao homem devotado ao conhecimento, bastião de pureza diante da sanha do poder.

Concluo, pois. Em meu roteiro imaginário, saio do Cambuci e ao invés de cair na avenida Paulista, vejo Reggio Calabria. Do outro lado, a adorável Sicília, terra de origem de outros tantos moradores do Triângulo Anárquico que grassou no coração paulistano. Como dissociar a trajetória de homens e mulheres, notórios ou não, da terra de onde vieram seus ancestrais? Foi em tudo isso que pensei naquela primeira noite que cheguei a Trapani e, diante da colunata do mercado de peixe, fiz um balanço do que vira no longo périplo ao sul do país encantador. Por mais que a Itália seja uma ficção como país, como eles gostam de repetir, certo é que não dá para entender  o Brasil, os Estados Unidos e a vizinha Argentina sem que deitemos um olhar na direção dos burgos, do mar azul e daquela gente desconfiada cujos filhos, para sobreviver, maquiavam índices, escondiam o legado ruim ou viam concorrentes na própria sombra que o corpo projetava.

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