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Penso, logo duvido.

Mitteleuropa – Fernando Dourado

Fernando Dourado

The Szechenyi Chain Bridge and Royal Palace Buda Castle. Budapest Hungary.

I

Berto e Isa são os pais de Beatriz, Cíntia e Guilherme, este o caçula, por todos também chamado de Gui. Se os pais não formam um casal fusional, não seria exagero dizer que eles conheceram mais momentos bons do que ruins, e que estão dispostos a se ajudar mutuamente pelos muitos anos que esperam viver entre os atuais 49 dele e os 47 dela, até que a morte os separe. A situação financeira de Berto sempre foi bastante folgada e, embora não incorra nos exageros dos novos ricos, a família vive um padrão confortável, a ponto de mandar os filhos para escolas prestigiosas, ir a bons restaurantes toda semana, passar feriados prolongados fora da cidade e, desde sempre, fazer pelo menos uma grande viagem para algum lugar do mundo. Pelas contas de Cíntia, a filha do meio, que faz as vezes de memória e consciência da pequena tribo, eles já estiveram em seis estados do Brasil, três países sul-americanos, dois norte-americanos, um africano e oito europeus. Poupados do infortúnio, só tiveram a chorar até hoje a morte de Banzé, o cachorrinho. As crianças tinham ainda três dos quatro avós vivos, e só o pai de Isa já falecera. Isso aconteceu quando elas eram pequenas. Bia hoje tem 22 anos, Cíntia é apenas onze meses mais jovem, mas Gui vem lá atrás, com seus 16. Até aqui, tudo muito bem. E assim poderia ficar. Porém…

*

Porém, depois de certo estágio, torna-se difícil agregar a família como no passado. Já há dois anos, Bia passou a orbitar em torno do namorado, um rapaz muito rico cuja família tem sempre uma pauta de entretenimento difícil de bater, dessas que só muito dinheiro consegue manter. Menos mal que a futura sogra de Bia – a supor que tudo corra bem até a boda – a trata como uma filha, e tem a gentileza de telefonar para Isa sempre que Bia está por fazer as malas para passar duas semanas de ócio com eles. “Isa, eu só queria te tranquilizar quanto ao programa, viu. Vou ficar atenta para que todos se mantenham longe das pistas de esqui muito íngremes, para que ninguém se arrisque a quebrar uma perna. Como você talvez saiba, o dia em Aspen começa cedo, mas também termina cedo. E você já deve ter ouvido falar que somos esportistas radicais e muito frugais à mesa. Temos médico no chalé vizinho e nem de longe se preocupe com o deslocamento até lá. Nosso piloto já está com a família há doze anos e é o primeiro a ser obcecado com a segurança”. O que dizer? Como rebater? Com que argumento pode o casal separar Bia de André, especialmente em circunstâncias tão idílicas? “Sei que vocês gostam mais de viajar à Europa. Mas se quiserem ficar uns dias lá com a gente, seria um prazer. E aí já vamos treinando para o dia em que formarmos uma só família”. Assim falam os muito endinheirados.

*

E Cíntia, a que é apenas um pouco mais nova do que a irmã? Bem, ela ainda acompanhou os pais e o irmãozinho até ano passado, quando fizeram uma tediosa viagem pelo Douro que, em definitivo, não a agradou, conforme desabafou para a melhor amiga: “É bonito, sim, mas é tudo meio provinciano. Aquele tal de turismo rural pode ser agradável para meus pais, que almoçam pensando no jantar. Mas para mim que tenho horror à ideia de engordar, é tedioso. Eles gostam de passar longas horas à mesa e eu juro que acho isso uma perda de tempo. Especialmente quando minha mãe fica com a voz pastosa e começa a dizer que é a mulher mais realizada do mundo”. Coincidência ou não, aquela foi a última viagem que Cíntia fez com a família, nas últimas férias de verão, ano passado, ela saiu para duas semanas de viagem ao Cuzco com amigos. “Vai ser para comemorar a formatura. Quem não tem Aspen, se vira com o Peru”, disse ela com graça, afetando inveja dos programas de Bia. Na verdade, ela sequer sabia o que era a inveja. Especialmente quando se tratava da irmã, de quem parecia falar com mais pena do que com amor. Berto então brincou com Isa e disse que só lhes restava aproveitar para curtir Gui na viagem que fariam à Europa Central – Áustria e Hungria. Quando Isa propôs que levassem seu melhor amigo, Berto assentiu. “Ligue para os pais dele e pergunte se o passaporte do garoto está em ordem. Se estiver, introduza o tema”.

II

O amigo de Gui era Armando, um rapaz de 17 anos que se dizia vocacionado para a nanotecnologia e os desdobramentos da inteligência artificial, temas que pareceram aos pais de Gui muito pertinentes e sobremodo sintonizados com o futuro. “Que bom, né? Tudo indica que ela seja boa companhia. É bem verdade que viajar é diferente do que ver o camarada uma vez por semana aqui em casa. Com o pé na estrada, eles vão ter que dar mais as caras, vão ter que conviver, interagir conosco, dando um tempo àqueles confinamentos no quarto”. Isa sorriu, cética. “É melhor você não contar muito com isso, meu bem. Vá ver que a afinidade deles vem dessa semelhança de jeito de ser, dos valores, sei lá eu”. Armando parecia Harry Potter, tanto na armação dos óculos quanto na expressão do olhar. Atento sem ser gentil, veio jantar com a família de Gui uma semana antes da viagem. “Celulares à mesa são proibidos nesta casa, meu caro amigo. E na viagem também, já vou avisando”, disse Berto com o menos de empostação que pôde, o que não o livrou de receber como um petardo a reação do jovem convidado: “É que estou esperando uma mensagem importante. Tive que remarcar um compromisso por causa da viagem. Mas se ela chegar, o telefone não emitirá sinal sonoro, fique tranquilo”. E emendou: “Desculpe perguntar, mas por que a Hungria? Por que não trocar Budapeste por Tallinn? Deve ser perto, posso verificar na internet. Sonho em conhecer a Estônia”. Que topete.

*

A viagem foi confortável. Berto e Isa se acomodaram na classe executiva do 747 da Lufthansa e, por sugestão dele, escolheram os lugares do upper deck, onde o fluxo de passageiros e tripulantes se reduz ao mínimo. Ainda sobrevoavam o território brasileiro, talvez lá pela altura do Rio Grande do Norte, quando um aturdido Gui atalhou a primeira hora de sono dos pais com uma demanda inoportuna. “Esgotamos o limite do wi-fi de bordo. Armando estava num chat importante com um primo que trabalha na Apple. Precisamos comprar mais créditos. Vocês se incomodam em passar o cartão de crédito? Posso pedir ao comissário que venha aqui”. Berto não gostou. “Escuta, cara, vocês agora precisam dormir. Até a 12 mil metros de altura vocês ficam pensando em internet, pô. Amanhã ainda temos duas horas de espera em Frankfurt até a conexão para Viena. No que depender de mim, vocês desligam esses negócios já”. E fechou os olhos para encerrar o tema. Conciliadora, Isa desceu e comprou mais carga para ambos. “Não digam nada ao Berto. Só mais uma horinha e depois tratem de descansar. Berto gosta de aproveitar a viagem desde o primeiro dia. Amanhã mesmo jantaremos no Plachutta, que ele adora. Quero vê-los dispostos”. Mas nem um nem outro prestava mais atenção à fala previsível de Isa. Em Frankfurt, saíram às pressas para oloungeonde a conexão wi-fi era livre. Berto sugeriu que descessem para esticar as pernas, mas o pedido foi vão. “Estamos jogando, pai. Precisamos matar o tempo”.

*

Será que tinham dado pouca atenção ao caçula? Era o que se perguntava o casal diante de um aparatoso serviço de chá na Sacher. Mas Isa tratava de tranquilizá-lo. “Não vejo nada de errado com o Gui, meu bem. Pelo contrário. Eu não te falei que Armando provavelmente comungava do mesmo credo? São só millennials, ora essa”. Berto custava a se conformar. Afinal, já era a terceira mensagem que recebiam enquanto estavam ali. Em todas, os meninos encontravam desculpas protelatórias para o encontro na grande confeitaria vienense. “Você acha que passar a tarde toda na loja da Apple é uma alegação válida, Isa? Aliás, você viu o olhar embaçado deles quando comecei a contar a história de Elias Canetti, no Prater? E depois o carinha ainda me vem falar de Estônia, de e-Citizenship, e-Identitye o escambau. O pior é quem nem um simples obrigado esse moleque sabe dizer”. Os meninos por fim chegaram. Não, não queriam nem vagamente provar a famosa torta que leva o nome da confeitaria. “Já comemos. Vocês ainda vão ficar muito tempo aqui? É que Armando esqueceu de comprar um cabo USB para o irmão. A gente vai voltar à Apple em dois tempos, esperem aqui”. Vendo que não encontrava resistência, Gui foi além: “Precisamos também passar aqui perto para comprar um chip novo que o meu está com problema”. Fumegando, Berto foi sucinto: “Uma hora antes da saída do trem para Budapeste, esperamos vocês na recepção de malas fechadas. Até amanhã e divirtam-se”. Gui e Armando adoraram, apesar do tom abusado de Berto. Isa se arrependeu de ter dado a sugestão de levar o amigo do filho para a viagem. Mas agora já era tarde.

III

“Que espécie de primeira classe é essa que nem wi-fi tem?”, perguntou Armando entre sério, preocupado e debochado. “Isso é vagão húngaro, rapaz. Tem a mesma idade que eu. Vá ver que é por isso que a rede não pega”. Rápido, ele só respondeu: “Nada a ver”. Um inglês que parecia ter entendido a conversa, ofereceu seus préstimos: “Posso lhes dar meu acesso”. Se Berto e Isa pensavam que teriam um par de horas para conversar com os meninos, para avaliar o pouco que tinham visto juntos de Viena e o que os esperava em Budapeste, logo perderam a esperança. De olhos vidrados numa tela única, os dois amigos se entregavam galhardamente a um jogo. A certa altura, faziam os movimentos manuais de quem estava fisgando alguma coisa. “Quem vê a cena e não sabe do que se trata, vai dizer que vocês estão se masturbando”. Sem prestar atenção à observação paterna, Gui foi mais prático: “A gente não está podendo sair agora, mãe. Nesse jogo não dá pra parar. Você pega dois chocolates quentes no vagão restaurante?” No caminho, um imenso parque eólico mesmerizou todos os passageiros do vagão que passavam ali pela primeira vez. Eram centenas as pás que rodavam preguiçosamente. “Engana-se quem acha que elas giram devagar. A velocidade nas pontas é estúpida”. Ninguém rebateu Berto. Na verdade, nenhum dos dois garotos sequer levantou a vista. E assim chegaram à estação Keleti.

*

Berto ficou decepcionado ao perceber que a Ópera de Budapeste estava fechada para reformas. Ainda assim, propôs que fossem a um café na calçada oposta da Andràssy, àquela altura bastante desimpedida. Em uníssono, os meninos o reprovaram duramente: “Por que é que a gente não caminha até a faixa de pedestre para atravessar?” Isa disse que o pai sabia o que fazia. Mas Berto foi menos diplomático: “É incrível que vocês não confiem minimamente no bom senso, no instinto. Se a rua está completamente vazia a essa hora, porra, eu a atravesso aqui mesmo, nem que seja para ganhar tempo precioso e evitar de andar mais cem metros por puro excesso de zelo”. Os meninos olharam-no como se tivesse saído do paleolítico. “Tudo bem, é que não se deve fazer isso. Mas se quiser, a gente pode achar na internet um lugar legal para ir por aqui, desse lado mesmo”. Berto então, agora já à porta do café, abordou um senhor que saía: “Excuse me. Do you think we can find fresh croissants in this café?” O magiar foi taxativo: “The best in town, trust me”. Acomodados no terraço, Armando não conteve a curiosidade: “Posso perguntar como você sabia que ele falava inglês?” Berto pareceu gostar da pergunta: “Simplesmente não sabia, cara. Tentei e deu certo. O que se tem a perder em simplesmente tentar?” Mas Armando já não queria saber da explicação. Virando-se para o garçom, pediu: “Can you give me your wi-fi code?” E voltou a mergulhar em seu mundo. Quando a cestinha chegou, tirou dois croissants para si. Um que botou direto na boca e outro que deixou ao lado do telefone celular, cuja tela olhava transfixado.

*

“Entendo sua pergunta, mas nem eu nem Gui somos hikikomori, na acepção do termo. Achamos que somos normais, só que amamos ficar nos nossos quartos. Acreditamos na realidade virtual e ficar offline para nós é mesmo uma tortura”. Mais tarde, Berto confidenciou a Isa, em longo passeio que fizeram na tarde do domingo pela ilha Marguit: “Para mim estes dois são um caso perdido. Não, não quero ser cáustico, mas esse pessoal não está minimamente ferramentado para viver a vida. Todo não que eles escutam, já consideram como um não definitivo. Para completar, não insistem em obter coisa alguma e só são inteligentes na hora de falar das possibilidades de uso de um celular ou de ajudar a comprar um novo modelo de computador. Este é o único traço solidário que vejo terem”. Isa não tentou contra-argumentar. Berto prosseguiu: “O que seria desses caras sem esses aplicativos? Se está escrito padaria na fachada de um estabelecimento, eles vão ao celular saber se é uma padaria mesmo. E no fundo, acham que esse é o padrão normal de vida. Como pode?” As inquietações de Isa, não se sabe se apenas discretas ou conscientemente camufladas para não agastar o marido, eram de outra natureza: “O que eu percebo é que eles não sabem curtir o aqui e o agora meu bem. Acho que vou tentar convencer o Gui a ir ter umas lições de ioga. Eu também já fui assim, queria resolver tudo antecipadamente, queria planejar os próximos passos de forma obsessiva. No caso dele e do amigo, tudo que não seja mundo virtual é um fardo. Eles querem logo se ver livre do resto para voltar ao círculo vicioso das telas. E por melhor que seja uma história, eles não conseguem prestar atenção nela por mais de vinte segundos, trinta e olhe lá”. Mas Isa logo se arrependeu de ter feito um desabafo mais explícito do que pretendia.

Epílogo

Gui viria mais tarde a confessar arrependimento pelo que fizera e evitou o olhar de Armando durante toda a audiência de acareação. Ora, nas duas últimas noites em que estavam em Budapeste, Armando disse com todos os tons que Berto, o pai do amigo, era sim uma espécie de ameaça ao mundo: “Não sei como você aguenta. Ele não se dá nem ao trabalho de comprar forints. Consome e, lambido o prato, obriga o garçom a converter o preço em euros. Custava perguntar antes? Quem ele parece imaginar que é, se tudo o que sabe de um computador é mandar e-mails, e se não tem ideia para onde vai a informática quântica ou mesmo a inteligência artificial?” Indagado sobre como aconteceu a ação, Gui confessou às irmãs perplexas e à mãe desolada, a essência da trama. “Sabendo que ele gostava de plantas, falamos que queríamos ver o Jardim Japonês da ilha Marguit enquanto a mamãe ia ao castelo de Buda. Então ele disse que viria com a gente. Na ponte Árpád, meu pai e Armando começaram a discutir por causa de política. Eu ainda pedi que se acalmassem, mas não teve jeito. Meu pai disse a Armando que ele não sabia sequer ir ao banheiro sem o Waze. Então Armando puxou uma faca que tinha roubado do restaurante e quando eu menos esperei, ele enfiou-a com força nas costas de meu pai, que caiu de joelhos. Então ele retirou a faca e espetou-a de novo e depois mais uma vez. Eu não consegui fazer nada. Eu pensei que meu pai ia sobreviver, que bastava a ambulância chegar e tudo ia se resolver”. Armando então pediu um celular ao juiz para fazer uma animação sobre o roteiro que eles tinham percorrido antes do crime. Mas este indeferiu o pedido. Agora ninguém sabe o que vai acontecer aos meninos. Berto não levará Bia ao altar, isso é certo. Mas daqui até lá, Cíntia terá uma boa ideia.

7 Comments

  1. Que loucura, mano. Gostei demais.

  2. Salvou-se uma alma, Bretas, você gostou. Obrigado.

    Abraço,

    FD

  3. Trama bem urdida. Expressào do mundo moderno.
    Sugiro que nos brinde com a continuação!

    • Obrigado, Marly, eis aqui em você outra heroína da resistência. Afinal, poucos se aventuraram pela pequena viagem da família desafortunada. Continuação? Sabe que não tinha pensando nisso. Vamos ver.

      Um abraço,

      Fernando

  4. Perfeito ! Vemos alguns muitos casos assim. Gostei do choque!

    • Obrigado pela leitura, Ana. Será mesmo que estamos às vésperas de uma pandemia? Eu acredito.

      Abraço,

      Fernando

  5. Queria registrar meus agradecimentos às palavras elogiosas que recebi sobre “Mitteleuropa” de Maria Elizabeth Freire, Patrícia de Niemeyer Kahane, Iracema Rodrigues, Beatriz de Faria, Maria Inês Sponchiado Peres, Aldo Paes Barreto e Mauro Ramos. A todos, um grande abraço.

    Fernando

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