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Penso, logo duvido.

De meu avô sobre Sevilha – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Sevilha by João Rego.

I

2040 d.C

A caminho da casa do avô, Elisa teve a premonição de que aquela seria a última visita que lhe faria. Na semana seguinte, viajaria sem data para voltar. Se tudo corresse bem, iria ficar na Áustria, estação após estação, à medida que o trabalho conhecesse os desdobramentos previstos pela equipe orientadora que lhe monitorava os objetivos. Se a missão fosse dada por concluída no final do ano seguinte, como previa o contrato, era quase certo que ela iria aproveitar o embalo, e rodaria com suas habilitações de cientista entre Berlim e Zurique, em busca de novas fronteiras clínicas e não-medicamentosas na chamada POT – Psicoterapia da Opressão Tecnológica -, um ramo da geriatria que a fascinava. Voltar para São Paulo, de qualquer maneira, não estava no radar dos próximos 24 meses, o que não a deixava especialmente pesarosa. Especialmente se dessem certo os planos de ficar na órbita da Terra por uma semana, acompanhando um casal de milionários cujo desejo era o de enlaçar as mãos vendo o Planeta Azul, e morrer no silêncio do espaço, fora da nave, depois de 80 anos de vida em comum. Mas isso ainda era só uma hipótese mesmo porque os candidatos a acompanhá-los eram muitos e bem qualificados, embora nem todo mundo tivesse paciência com os tais românticos, uma tribo bizarra.

Ora, a verdade era que o avô não gozava de grande saúde. Reagia por certo bem ao tratamento, mas era voz geral que a vontade de viver talvez não fosse mais tão evidente. Não se tratava só de debelar a doença, que vinha sendo monitorada minuto a minuto por sofisticados controles de nanotecnologia que o estabilizavam à mera ameaça de qualquer intercorrência. Tampouco o desestimulavam os aborrecimentos da fisioterapia obrigatória, especialmente depois que um robô lhe cauterizara um vaso traiçoeiro no cérebro, prevenindo o que antes era conhecido como um AVC. Mesmo assim, Elisa preferiu não pensar nisso enquanto se locomovia da Lapa em direção ao Alto de Pinheiros. Ladeada pelas copas das árvores que formavam um túnel de luz filtrada por onde o pequeno bólide trafegava com autonomia e velocidade, ela se habituara a pensar em alemão. Prächtig, disse para si mesma, inalando a luminosidade tropical e extasiando-se com a temperatura de 18° cravados, uma benção que ainda era despejada sobre a cidade a cada mês de maio, nem que fosse por uns poucos dias. Apesar de tudo, a vida era bela, como diziam alguns de seus pacientes. Elisa sorriu. Quando lhes perguntava, apesar do quê, eles não sabiam o que responder.

Vendo que virava à esquerda, a caminho da pracinha bucólica onde viviam os avós, ela se perguntava se ela própria conseguiria captar a beleza do mundo, se soubesse que este se esfarelava, se acaso ela também estivesse com os dias contados na casa das dezenas, no máximo das centenas, seguramente não dos milhares, no que dependesse de sua vontade. E também lhe ocorreu observar se a morte já estava à espreita do avô, acantonada numa esquina de onde enxergasse o velho Lauro a fazer flexões preguiçosas na varanda, pelos braços mecânicos embora suaves de uma fisioterapeuta robotizada, e para quando a morte pretendia enlaçá-lo de vez. “Não pense em coisas mórbidas, meu amor. Pense só que terá um bom dia”, segredou-lhe uma voz que saiu da bolsa. Nem aqui ele me dá sossego, ela pensou. “Você prometeu que ia ficar quietinho em meus momentos íntimos. Que saco, como diz minha mãe. Olha lá, não quero te colocar on hold, mas posso. Depois não se queixe”.

II

Sempre fui agradecido à sua avó por ela deixar que você me chamasse de avô, Elisa. Teve tempos em que ele era muito rígida nessas coisas e valorizava os laços de sangue mais do que um chefe tribal africano. Acho que foi quando você começou a frequentar o colégio aqui, depois de tanto ter rodado o mundo com seus pais, que ela percebeu as diferenças como um valor que agregava. Então se conformou com o fato de que não precisávamos ser iguais em tudo para nos amarmos e gostarmos da companhia um do outro. Foi também talvez por achar que o fato de você ser uma menininha única, tão versada em línguas, e de origem algo diversa de seus colegas de clube – muito uniformes, cá entre nós dois -, que a vovó se tornou uma mulher mais inclusiva. Desde quando ela era novinha, eu me pegava com ela com essa história da redoma em que ela vivia, que até hoje ela repete. Tanto pode evocá-la em seu favor, quanto para justificar uma derrapada. “Você mesmo dizia que eu era uma garota impermeável ao mundo. Como é que você quer que eu seja diferente agora, Lauro?” Lembro certa feita quando você ainda mal tinha um ano, ela foi visitar vocês com sua tia – já não lembro bem se Margarida ou Violeta – na minha cidade favorita na Europa, a bela Sevilla. “Vá jantar no Manolo Leon, na calle Guadalquivir. Ou leve-os ao Mariatrifulca”. Ela respondeu: “Eu não estou indo lá para engordar, Lauro. O que quero mesmo é ficar com Elisa, dando frutinhas na boca dela”. Mas o fato é que àquela época ela estava sim saindo da redoma. Quando voltou da viagem, falou com entusiasmo do restaurante Victoria, de Triana, perto de onde você estudava, e do Robles, ali no Centro, ao lado de uma alameda de laranjais. Então ela me dizia que você tinha se comportado que era um primor, inclusive na viagem que fizeram a uma ilha do Mediterrâneo, já não lembro qual, provavelmente Minorca ou Milos. A vida para mim não estava muito fácil àquela época e tive decisões difíceis a tomar. Você, seu irmãozinho e seus pais já estavam a caminho da Ásia quando nos mudamos para este apartamento, o que foi uma adaptação mais fácil do que imaginávamos. De certa forma, foi sua chegada ao mundo que abrandou o hermetismo de minha Amet. E, depois de décadas, ela me deixou entrar na vida dela para valer. E vice-versa porque olhe que eu também não era fácil. Agora, me conte de seus planos. Viena, hein? Explique o porquê da escolha. Não me diga que é por causa da roda gigante do Prater, se é que ela existe ainda. Ou tem a ver com Dr. Freud, se é que o velho médico ainda está em voga nesses meios de tantas certezas e de tanta tecnologia.  

III

2048 d.C

Ontem fiz 30 anos, mas minha avó teimou comigo que eram 20. Como ela teima. “20, vó, quem me dera…Estamos em 2048, é só fazer as contas” Então ela disse que nossa geração praticamente aboliu as idades. “Eu já me perco com a idade de seu pai e de suas tias. E não me olhe desse jeito, meu amor, eu não estou gagá”. Nessas horas ela sorri e vai lá dentro pegar a escova de cabelo, como se fosse para ela: “Vem aqui um minutinho, Elisa, só um minutinho. Desde novinha você tem os cabelos enovelados assim. A vovó gosta tanto de brincar com eles”. No fundo, eu sei que ela adora pegar no meu cabelo, um feito que nunca conseguiu com a tia Violeta. E nessas horas, quase sempre, diz a mesma coisa, como se a proximidade com minha cabeça lhe autorizasse a penetrar em camadas mais íntimas de minha anatomia: “Quando você nasceu, meu amor, eu pensei que o azul de seus olhos ia sumir, como acontece com a maioria dos bebês. Mas com você foi diferente”.

Meu avô Lauro, o avô postiço como ele gostava de dizer, já morreu há seis anos. O outro, o de verdade, está vivo e muito bem. “Lauro poderia ter vivido mais, sim. Mas eu acho que a última coisa que ele queria era ser um peso para mim. Não havia dia em que não repetisse que eu tinha sido a melhor coisa que tinha acontecido à vida dele. E que só lamentava mesmo que não pudéssemos ser enterrados um ao lado do outro, quando minha hora chegasse”. Eu já sabia o que ela diria na sequência, mesmo sem qualquer decodificador de inteligência artificial à mão, desses que ela considera coisas do além. “E agora me diga, como vai ele?” Fui rápida. “Ele tem nome, vó. Chama-se K-11. A fábrica propôs outro modelo e acho que ele percebeu que corre perigo. Ele morre de medo que eu o desative e quase não sai do sol para que a bateria se mantenha sempre carregada. Ultimamente tem abusado das formulações cruzadas sobre Freud, Reich, Jung, enfim, tem deitado falação oca para se mostrar erudito e imprescindível. Está enchendo a paciência. O pior é que ele percebe quando estou pensando em pedir o bloqueio automático diretamente à Central. Vamos ver”. Minha vó ficou pensativa: “Bem que teria sido bom que isso já existisse nos tempos em que vivi com teu avô e com o próprio Lauro. Não que eu fosse querer um modelo parecido com o teu, prefiro mesmo gente de carne e osso, à moda antiga. Mas invejo o dispositivo de dar um off, entende?” Fiquei pensando em meu avô. Acho que ele só tinha olhos para ela e para aquelas coisas que escrevia. Pelo menos de quando o conheci para frente. Ah, 30 anos hoje. E não é que já estamos em 2048, pelo calendário tradicional.

IV

Sobre 2019 d.C em 2048 d.C

Minha avó se chama Ametista, mas meu avô Lauro só a chamava de Amet, por uma razão de que já não lembro. Eles eram cheios de pequenos códigos para se comunicar e acho que emitiam desde alertas de tsunami a perigo iminente de terremoto, para evitar confrontos. Ela me diz sempre: “Não nos fazia nada bem ter desavenças. Era tão mais fácil achar as convergências, mas as pessoas têm direito a seu temperamento e cá tinha eu o meu e ele o dele. Vivemos maravilhosamente os últimos 20 anos de vida dele. Sob certo aspecto, ele foi sim o cara de minha vida. Embora nem sempre a gente suporte o lado intenso das pessoas”. Ainda pensei em perguntar porque ela não ligava para a Central para que eles verificassem os padrões de telemetria em momentos de crise, mas ela ia pensar que eu tinha saído com a tia Violeta e feito conexões meio malucas na cabeça, além das que já tenho. Já ontem minha avó me mostrou o lado poético do avô Lauro, de quem tem saudades. Era uma espécie de página de diário que ele mantinha, especialmente quando estava longe dela. O texto meio barroco datava da compra do apartamento, quando eu ainda não tinha sequer dois anos.


“Amet, na manhã de ontem, fiz três jogos mínimos da Megasena, de olho num prêmio de mais de R$ 30 milhões. Preenchi um volante com critério, marcando os números que assinalaram minha vida. 58, meu ano de nascimento. 60, o seu. 3, o andar onde queremos morar. 16, o andar em que morarei eternamente, no edifício de minha infância. 23, o andar onde viveram meus pais, em que nunca considerei que cheguei a morar. E o 8, o número da camisa alvirrubra do magistral Bita, o Homem do Rifle, do Náutico de minha infância. O segundo jogo, obedeceu a outros critérios. Pensei num primo falecido há décadas que gostava de ciências ocultas, e deixei o dedo correr no volante. Onde a caneta parava, abria os olhos e preenchia a casinha. Não achei ruim e vi sinais sugestivos de estar de posse de um jogo ganhador. Saiu 9, camisa de Nino, o cabeceador. 2, meu andar na Morato Coelho, 30 anos atrás. 33, a sugestiva idade de Cristo, com seu devido perdão. Forcei o 60 para dar minha idade, mas terminou resvalando para o 46, o que não achei ruim porque é o número que calço. O 12, número com que simpatizo, e então cravei o 14, para dar a sequência do Pi. Quase não preenchi o terceiro volante, tão certo estava do triunfo. Não seria dar ao Criador prova de descrédito se fizesse mais uma aposta? Mas sabe-se lá dos tais caminhos tortos. Nada disso deu certo, lamento. Ontem à noite mesmo, abri o site da Caixa Econômica e lá estavam números inverossímeis, que contemplavam meu jogo apenas esparsamente. Foram R$10,50 perdidos, o que bem poderia ter valido uma fatia de pão integral na chapa com um café com leite na padaria Benjamin hoje cedo”. 

Dias mais tarde, ele voltou a escrever para minha avó, dessa vez evocando um poeta da terra dele, João Cabral de Melo Neto. “Amet, meu amor. Espero que vocês estejam se divertindo. Eu por aqui tenho notícias boas e valeu muito a pena ter ficado em São Paulo. Antes que me esqueça, queria que você fosse até a porta da Giralda, e lá lesse este primor que descobri. Veja que maravilha”.

 

Só em Sevilha o corpo está

com todos os sentidos em riste,

sentidos que nem se sabia

antes de andá-la, que existissem;

 

sentidos que fundam num só

viver num só o que nos vive,

que nos dá a mulher de Sevilha

e a cidade ou concha em que vive

 

M-26, meu novo affair, vendo que eu me extasiei com a leitura e que me senti embalada a voltar à cidade de que quase não lembro, salvo pelos filminhos que rodaram de mim, não perdeu a deixa para engatar outros versos do pernambucano.

 

Quem fez Sevilha a fez para o homem

sem estentóricas paisagens

Para que o homem nela habitasse,

não os turistas, de passagem 

 

E claro, se a fez para o homem,

fê-la cidade feminina,

com dimensões acolhimentos,

que se espera de coxas íntimas.

 

Para a mulher: que se aprenda,

faz escolas de espaço, dentros,

pequenas praças, plazoletas, 

quase do tamanho de um lenço

 

Gostei. Ainda bem que M-26 está programado para calar juízos machistas e primitivos. Mas a poesia tem que ser avaliada pela capacidade de varar os séculos, muitas vezes os milênios, como diz minha avó Ametista. Ou Amet.

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