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Penso, logo duvido.

Um roteiro de filme: saia curta, sem sutiã e calcinha de renda – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Nahariya beach, Israel.

I

Berta Kubits mandou uma orquídea para a psicanalista no dia 6 de maio. “Pelo teu dia, com carinho e gratidão. Beijos, Berta. PS – Ele chegou. Jantamos ontem e vamos viajar hoje. Na volta, te conto tudo”. Àquela altura, na verdade, a última coisa que passaria pela cabeça de Berta é que, por uma razão nada fortuita, não haveria a volta.

II

Saindo da floricultura, e como se já tivesse planejado tudo em algum lugar do inconsciente, Berta achou boa a ideia de caminhar umas poucas quadras até seu mercado favorito, uma espécie de empório de luxo de que a avó fora cliente durante décadas, e depois também sua mãe. Por um instante, pensou em deixar o carro ali mesmo onde ainda tinha um crédito de estacionamento, para assim poder respirar o ar fresco das alamedas. Mas avaliando que podia se exceder nas compras, o que era corriqueiro, resolveu guiar até a garagem subterrânea. Dessa forma, seria mais fácil acomodar as sacolas de papel pardo no porta-malas. No engarrafamento da subida, Berta acoplou o telefone ao painel e se dispensou por uma rara vez de ligar o navegador. Era um luxo a que se permitiria àquela hora da manhã, sobretudo estando na geografia conhecida das ladeiras de sua adolescência. De mais, já era outono e logo mais entraria uma discreta frente fria que dissiparia o abafado atípico. Ela bem sabia o quanto Benjamim Rappaport gostava do clima ameno. Agora, aliás, sabia-o até demais. “Maio é bonito em todo o mundo. Aqui, em Jerusalém, em Moscou e até nas latitudes equatoriais parece que a vida fica mais humana” – eis a frase que ela o ouvira repetir duas ou três vezes à mesa do Zena, na noite anterior, com leves ares de que não achara coisa melhor para dizer. Será que o deixara nervoso? Será que o tinha provocado em excesso? Estivera à altura da expectativa de quem viera de tão longe só para vê-la? Talvez. E quanto a ela, estava empolgada? Hum…

Para essa manhã que antecedia a subida à Serra da Mantiqueira, Berta compraria duas garrafas de Champagne – sabe-se lá o quanto ele não iria precisar de uma forcinha para destravar -, umas latas de cerveja para o trajeto, talvez empadinhas de frango ou palmito, já que Benjamim lhe dissera que não comia camarão; e um salmão defumado de boa origem em respeito à restrição que ele fazia a frios, defumados e embutidos em geral, o que era uma pena. Sem ser religioso, estava cada dia mais suscetível ao que chamava de uma nova higiene de vida. Na véspera, enquanto comia espaguete com molho de tomate e bebia discretíssimos goles de vinho, declarara em tom algo solene: “É profilaxia pura. Quem passou pelo que eu passei, sabe que todo o mal começa pela boca”. A que ele se referia? Não tardaria a saber na excursão, mesmo porque um jantar de reencontro não era ocasião para tais aprofundamentos. Ademais, talvez ela já tivesse bebido além da conta, o que quase sempre acontece quando a outra parte pisa no freio muito cedo, emborca o cálice sobre a toalha e proclama: “Para mim, chega”. Foi o que ele fizera justo na melhor parte. Seja como for, a conversa ficou tórrida em dado momento, bem do jeito a que ela se habituara, mas das palavras só restara uma lembrança vaga. Lamentou de qualquer forma, que ele tivesse preferido dormir no apartamento do amigo, e não no dela. O melhor ainda deveria estar por vir. Era disso que Berta Kubits mais queria se convencer.

“Bom dia, D. Berta. Quer um carrinho hoje?” Ela sorriu. “Obrigada, seu Luís, mas acho que a cestinha vai resolver. Acaso o senhor viu alguma irmã minha por aqui?” Ele balançou a cabeça. “Não, hoje ainda não. Quem esteve ontem quase à hora de fecharmos foi o Jairo, seu irmão”. Ali ela estava em casa e era como se sua mãe fosse aparecer por trás de uma gôndola a qualquer momento.

III

Berta era pequenina e andava a passo rápido, como se estivesse sempre com pressa. Quem a visse saltar do carro em traje de ginástica – uma mania tão paulistana em determinadas partes da cidade -, perceberia que ela acomodava-se numa espécie de almofada alta que lhe dava mais domínio sobre o volante. Passando pouco dos cinquenta anos de idade, poderia dizer que tinha dez a menos, como fazia de vez em quando, se a situação assim pedia. Os que não a conheciam muito de perto até acreditavam na versão, especialmente quando ela estava bronzeada e sorria o sorriso branco em que investira alto ano passado, para neutralizar o único ponto que considerava de menos no rosto resplandescente. Berta tinha coxas roliças, por enquanto ainda imunes à celulite. Os seios eram bem proporcionados e continuavam sendo os originais, como gostava de dizer. Tendo as nádegas arrebitadas, temia engordar e se tornar cadeiruda como ficara a irmã mais velha. Se era fácil manter-se em dia com a tez acobreada – à custa de se expor ao sol que varria a cobertura onde vivia só, três vezes por semana auxiliada por uma diarista paraibana -, o estado de alma feliz já não era tão óbvio. É claro que naquele 6 de maio, Berta vivia um momento de exceção. Mas os fatos crus da vida diária, na verdade tinham toda outra cor. Isso porque ela integrava aquele vasto contingente feminino que aparentava uma plenitude de que, lá no fundo, encontrava-se bem distante. E ultimamente, apesar das sucessivas advertências da terapeuta, vinha abusando costumeiramente do álcool, o que só lhe dificultava a navegabilidade e o equilíbrio.

IV

Berta estava separada pela terceira vez, ao passo que as irmãs – uma mais velha e outra mais nova – pareciam manter casamentos que iam de bem a melhor. Já ela persistia em se desencontrar. Será que havia nela uma componente auto-destrutiva dominante? Nessas horas, tranquilizava-a a ideia de que os pais já tivessem morrido. Jairo, o caçula da família, que vivia há anos com Alekos, um grego que conhecera no avião, era talvez o único que a poupava do olhar de desprezo que recebia dos demais. “Perdedora? Você, Ber? Jamais. Perdedora é quem é infeliz, minha irmã. Acho que você tem tudo à mão para virar o jogo. Cá entre nós, antes ficar sozinha, ou com teus rolinhos, do que na companhia de meus cunhados. Mil vezes. Você bem sabe que o único reparo que faço é quanto à birita em excesso. No mais, você está ótima”.

Berta abria um sorriso triste. “Sei lá, sei não”. “Como não sabe, sua boba? Quando a Léa diz que ama o Moishe, eu mal consigo conter o riso. Desde quando ter netos apaga as baixarias de um grosseirão daquele? Boa gente…boa gente um cazzo. Não sei como alguém ainda encomenda uma reza a ele. Pobre do defunto. Até como chazan é um entojo. Ficha sujíssima na Comunidade, se quer saber. Este caiu na profissão que sobrou, não a que ele escolheu. Além de tudo, é homofóbico de carteirinha”. A língua de Jairo era mordaz, mas cirúrgica. “Já a Ester até que não vai tão mal. A gente sabe que ela e o Rubens se gostam. Mas não tivesse ela o gaúcho da empresa, o tal “Tchê”, cala-te boca. Rubens sabe de tudo entre eles, pode ter certeza. Vá ver que ele tem alguma disfunção, sei lá. Ou uma tara, uma fantasia de imaginá-la literalmente no espeto. Mas que ele sabe, sabe. Se sublima com o trabalho, mazal tov, não estou nem aí. Em suma, você está no páreo, minha irmã, e ainda pode se dar muito bem. Basta escolher melhor seus parceiros, o que nunca foi seu forte. E beber menos para também falar menos”. Alekos atalhou em seu socorro: “Vamos lá, cunhada, agora me fale do tal Benjamim. Não me diga que você o chama de Bibi? É verdade que foi militar? Adoro uniformes. Ele pretende vir ao Brasil?”

V

Benjamim Rappaport já fora um homem mais normal, tão longe quanto Berta podia lembrar. Mas quem não já foi? A crer na apresentação rígida que fazia de si próprio, algo de substancial parecia ter mudado em sua postura de adulto maduro, no auge da meia-idade. Contido por temperamento, conseguiu quando jovem ser quase divertido, e muito mais do que um bom nadador. Na faculdade de engenharia, granjeou fama por conta da imitação que fazia do professor de resistência de materiais, disciplina que apavorava a maioria dos colegas. A ponto tal que, numa confraternização às vésperas da colação de grau, quando ainda estavam de namorico, o ferino Abramowicz (que este sim, Berta conhecia intimamente) insistiu para que o recatado mestre assistisse ao número satírico de Rappaport. Depois de relutar como pode, Benjamim cedeu aos apelos da audiência e o certo é que o caricaturado divertiu-se tanto que o neo-comediante teve que repetir a encenação três vezes, em diferentes pontos do imenso jardim onde acontecia o almoço. Berta chegou a olhá-lo com certo orgulho, como fazem as moças judias quando se sentem ao lado de uma companhia alfa.

Tirando esse episódio que o singularizou, Benjamim era o típico rapaz bem nascido dos anos 1960. Nunca ouviu da boca dos pais se eles tinham sido a favor ou contra o movimento militar que derrubara o Presidente Goulart, mas acreditava que o pai vibrara com a restauração da ordem mesmo porque era arquiteto dos bons, e queria exercer a profissão num mercado em expansão. Por inverossímil que isso possa hoje parecer a parte da juventude, uma motivação dessa ordem era considerada bastante legítima. A mãe achava apenas o que o pai mandasse que ela achasse, se é que essa fórmula é inteligível para os não iniciados. Pensando bem, o 1964 brasileiro não fora Auschwitz nem Treblinka. Embora não dissesse isso aos contemporâneos, pareceu-lhe óbvio, especialmente depois que passara a morar em Israel, que todas as vítimas fatais da chamada ditadura brasileira caberiam no que era então o maior avião comercial em atividade, o Boeing 747, dito Jumbo, capaz de transportar bem mais do que as 400 almas que aqui pereceram. Dez vezes menos vítimas do que no Chile e cem vezes menos do que na Argentina – dito de outra maneira. Em suma, é importante frisar isso porque a associação bem atesta que Benjamim foi e sempre será um engenheiro dos mais orgulhosos de sua capacidade de estabelecer nexos numéricos, e de atribuir peso aos intangíveis, o que o singularizava em valuation de ativos.

Daí a interpretar de moto próprio uma frase com que se descrevera a Berta, havia uma distância. Pois quando ainda estavam na fase de trocar e-mails, escreveu: “Antes de nos revermos, é bom que você saiba que o ressentimento e o ódio nunca sairão de todo de dentro de mim”. O que quer que isso fosse, Berta desconfiava que era algo excitante, mas provavelmente de importância menor, como acontece com alguns homens que têm tendência à dramatização. Sabe-se lá…Tanto melhor que ela pudesse ser de alguma ajuda para extirpar a carga tão tóxica que ele alardeava. Será que seu diploma de psicóloga afinal teria alguma serventia? De qualquer forma, este tampouco seria tema para o primeiro encontro. Na época, ela respondeu com apenas uma palavra: exagerado. E mudou de assunto.

VI

Fato é que, estando já separado de Aviva há uns poucos anos, Benjamim viajara várias vezes a trabalho à Rússia para ajudar a montar uma estrutura de telecomunicações, como subempreitado da firma Yamima, líder de um consórcio que assegurou a transmissão de dados de segurança criptografados por ocasião da Copa do Mundo. Findo o evento, por lá mesmo foi descolando contrato após contrato, prevalecendo-se das boas relações entre os chefes de estado da Rússia e de Israel – conhecidos na empresa como o Czar e o Trator. Dado o ritmo irregular da missão em Moscou, contudo, Benjamim se viu plugado na internet mais do que tinha por hábito, na solidão invernal do hotel Sokol, diante do pequeno parque nevado.

Muito embora estivesse cada vez mais interessado nos benefícios da meditação e nas virtudes dos preceitos dietéticos do kashrut, certo de que a dilacerante infidelidade da esposa se devera também à impureza de sua alma que não se devotara por inteiro ao sagrado, vez por outra entrava em redes sociais mundanas onde mantinha um discreto perfil, talhado sob medida para xeretar a vida alheia e, é claro, para falar de si próprio o mínimo possível, como fazia a maioria dos engenheiros que conhecia.

Foi essa a circunstância que originou certa noite o aceno de uma ex-namorada. Ou de um ex-flerte firme melhor dizendo, já que nunca tinham transado, se esta é uma linha de corte admissível. Tratava-se de uma baixinha de rosto lindo (apesar da dentição meio torta) com quem teria gostado de se envolver mais, não tivesse ela uma reputação tão malbaratada entre os colegas. O que agora perdia relevância. Pelo contrário, aquele laivo de vulgaridade chegava a excitá-lo. “Oi Ben, está lembrado de mim? Foi a Malka que me passou tuas coordenadas”. Era Berta, Berta Kubits que, entrementes, já tinha virado Katz e depois retomara o nome de solteira. Segundo ela mesma disse sem que ele sequer perguntasse, “por pouco também não virei Martinelli, do segundo casamento, mas este nome era goy demais até para meu gosto eclético. Quase voltei a ser judia de novo com Kaufman, mas o rolo não durou o bastante para que a ideia evoluísse”. Mãe de um filho único que vivia na Áustria, este da primeira união, Berta mostrou-se a personagem irreverente de sempre. “Apareça e me resgate dessa solidão. Pense que quase tivemos nossos momentos. Acha que eu esqueci? Nananinanão. Dessa vez, podemos pular o quase, não é? Só vai depender de você. Beijo grande”.

Como as pessoas se despiam dos pudores nessas redes. Por outro lado, ele sentia falta daquela irreverência, que chegava a lhe fazer cócegas na noite moscovita. Para valorizar uma brasileira, case com uma israelense – foi este seu mote naquele instante. Duraria?

VII

Do casamento com Iso Katz, Berta herdara uma herpes ocasional que lhe pipocava a comissura labial esquerda quando ficava nervosa, um apartamento cujo condomínio estava mês após mês mais caro e um filho a que nunca tivera grande apego, e que sabia reciprocar o desmazelo com adquirida naturalidade germânica. Como era de seu feitio procrastinar, não chegava a uma decisão sobre como adequar-se a uma vida mais simples, mais humana e, sobretudo, mais barata. Chegara a propor a Jairo e Alekos que eles se mudassem para lá. “Vocês têm a vida de vocês, eu tenho a minha e nós teremos a nossa. Uns gays em volta da piscina vão trazer alegria ao terraço. Espaço é o que não falta”. O irmão riu. “Tudo isso é preguiça de encarar uma mudança?” Alekos concordou. “No dia que você quiser jogar coisas fora, me chame. Minha avó de Salônica, dizia que nada é tão terapêutico quanto esvaziar gavetas”.

Em plena madrugada, um mês antes do dia 6 de maio que assinalaria sua sentença de morte, quando as ruas do bairro ficam quase apavorantes de tão desertas, Berta desceu até a loja de conveniência do posto para comprar um maço de cigarro. Deixara de fumar há muito tempo, mas dar umas tragadas num Marlboro vermelho não lhe faria lá tanto mal. Muito pior tinha sido receber em casa um homem amorfo, pescado num site de encontros. Fora de longe a transa mais mal sucedida do ano. “O degenerado não sabia sequer para que serviam os dedos e a língua. Foi um estupro”, diria depois ao irmão, em telefonema para purgar o mau passo.

De volta à sala à meia-luz onde tirou a roupa, viu uma mensagem no celular. Era Benjamim, o novo date virtual, certamente com dicas de alimentação saudável ou fastidiosas histórias de criptografia de mensagens. Até agora, ele não se soltara. “Oi Berta, Fui ontem a um lugar chamado Pavillion, no lago Patriashki, perto da estação de metrô Maiakowskaya. Foi lá que Tólstoi fez a linda Ana Kariênina patinar no gelo, não sei se está lembrada do filme. Acho que me excedi na bebida, mas valeu muito a pena. Coisas da Rússia. O restaurante é retrô, dos tempos soviéticos. Comi arenque e tomei sopa de beterraba. Que vontade me deu de revê-la depois de tantos anos. Você teria gostado disso aqui. Fazia -10° lá fora e vi uma mulher de vison que parecia com você. Daí esta mensagem. Talvez eu passe uns dias no Brasil dentro de mais umas semanas. Você ainda tem aqueles olhinhos azeviche? Pelas fotos que andei fuçando, parece que sim. Quais as novidades? Conte-me mais de você. Abraços moscovitas. B. Rappaport”.

VIII

Berta percebera ali uma mudança de tom.

“Querido Ben, Fico me perguntando se algum dia terei oportunidade de viajar por estas terras de onde você me escreve. Vontade não me falta. Venha me ver. Quero muito. Minha novidade é que comecei a fazer aula com Ivaldo Bertazzo – mistura de dança, consciência corporal e bastante divertimento. Na verdade, estou sempre inventando coisas. O lugar lá é lindo. Um pouco longe, mas está valendo. Vou te dizer uma coisa. Você não está mais no Exército, não precisa se identificar pelo seu sobrenome quando me escreve coisas tão doces. E aqui no Brasil, a gente só manda abraços (mesmo que sejam moscovitas) para estranhos. Entre amigos ou algo mais – embora ainda não tenham vivido seu algo mais -, a gente manda beijos. Minha vida é a de sempre. David mora em Viena, minhas irmãs continuam sendo umas chatas e meu irmão e meu cunhado grego são meus amores. Você vai gostar deles. Quando vier aqui, podemos fazer um programa diferente. Vamos de carro a um lugarzinho maravilhoso. Lá tem um chalé onde sonho em me hospedar. É cercado de verde e muito romântico. Mas não quero te assustar. Talvez seja a pedida certa para o nosso momento. Na verdade, venho sentindo nos últimos dias que esse reencontro é importante tanto para mim quanto para você. Muitos beijos, Berta PS – Cuidado com as russas, viu. Soube que elas são muito bonitas e perigosas. Quanto a mim, sou bastante ciumenta”.

A perspectiva do reencontro não refreou de todo o ímpeto de testar parceiros sexuais, impulso que em parte decorria da bebida. “Treino é treino, jogo é jogo, Jairo. Vamos ver no que vai dar. Enquanto ele não chega, vou treinando. Mas se tudo rolar bem, e se ele quiser que eu vá morar em Israel, juro que topo. Alugo o apartamento daqui e vou caminhar na orla de Telavive todo dia para manter a cor. Se ele desistir de mim, agarro um soldado e por lá mesmo fico”. Berta estava entrando em espiral de euforia. Melhor que Alekos não ouvisse aquilo. Mesmo para um habitué de ciclos homossexuais de Mikonos, a lascívia da cunhada seria demasiado indigesta para um coração cristão-ortodoxo.

IX

Semanas mais tarde, a caminho do Brasil, onde não vinha desde a morte do pai, e lá se iam cinco anos, Benjamim Rappaport não conseguiu dormir. De olho fixo no mapa luminoso à sua frente, rememorava para si mesmo como flagrara a infidelidade de Aviva, a ex-esposa. Por que não conseguia pensar em outra coisa? Por que não elucubrar agora sobre como seria o reencontro com Berta e fantasiar os prazeres que ela parecia estar pronta para lhe proporcionar? Com quem dormira Aviva quando ele atravessou sete fusos para vir ao enterro do pai? Será que ela já tinha um amante em mente, devidamente escalado para a interinidade, quando sequer se ofereceu para acompanhá-lo?

Para Benjamim, contudo, as circunstâncias daquela manhã em Afula não podiam ter sido mais vexaminosas. Um imenso eufemismo para dizer traumáticas, quase desesperadoras. Ex-mulher de um oficial com quem ele próprio servira nos tempos mais agudos da guerra no Líbano, assumir Aviva em público não fora fácil. Mesmo porque era a seu ex-marido Avner que Benjamim devia a vida, no pior momento da invasão. Depois do romance que manteve com ela, ainda casada, saíram de Holon para viver em Afula.

Foi só quando a vida se estabilizou e os filhos dela começaram pelo menos a lhe dirigir um olhar, que Benjamim se deu conta de que Aviva Cohen via na traição conjugal o maior dos afrodisíacos. Privada da sensação de estar traindo alguém – fosse Avner, ou algumas esposas a granel que àquela hora imaginavam seus homens às voltas com outras ocupações -, era quase inevitável que um profundo vazio a acometesse. Desses vales emocionais, só o recurso à bebida lhe arrancava do torpor, de que saía com um sorriso triste porém concupiscente, a que ambos deviam seus melhores momentos na cama.

Não tardou para que Benjamin entendesse que o sexo puro e simples era impraticável para ela. Ou bem integrava um cardápio de traição a alguém, ou só a preenchia se estivesse embrigada, à vontade para dizer palavras desconexas no turbilhão das pequenas e grandes obscenidades dessas horas. “A gente pode fazer tudo isso de cabeça limpa, Aviva. E você não precisa chamar isso de amor. Sinta-se livre para dizer que gosta de foder, de se sentir a última ou a primeira das putas. Livre para me xingar em árabe, em dialeto berbere, no que quiser. Mas você não precisa projetar a toda hora que ainda é casada com Avner, que o estamos corneando, e que você só se deixa sodomizar porque está bêbada. Trepar faz bem ao corpo, e você não precisa derreter seu fígado em álcool”.

Então aconteceu o inevitável. Avisado de uma missão de última hora em Nahariya, Benjamim passou em casa para pegar o equipamento. Na sua própria cama, Aviva se extasiava com Nissim, o cairota da loja de celular. Foi Nissim que evitou que Benjamim a matasse. E ainda lhe disse: “Calma, Rappaport, calma. Você sabe que eu não sou o único. Meia Afula frequenta sua cama. Se não sabia, fique sabendo”. Aviva só chorava.

X

Criar laços com o grupo Yamima e se tornar quase associado nas operações internacionais, foi a melhor forma de cauterizar as feridas que o episódio lhe infringira. Voltando a viver na periferia de Telavive, agora mais próximo das duas filhas que tivera do casamento com Olga Pelassoff, uma russa que chegara a Israel mais ou menos à mesma época que ele, Benjamim descobriu uma carreira lucrativa numa área cujos rudimentos aprendera no setor de inteligência do Exército – a universidade paralela e obrigatória de todo israelense. Ademais do português, castelhano, inglês e hebraico, aprendera russo, língua pela qual se apaixonara ainda nos primeiros anos da união com Olga. Era o que vinha fazendo toda a diferença ultimamente.

Não obstante os bons ventos e a carteira cheia, a cena de felação de Aviva com Nissim parecia assaltar Benjamim de supetão, a partir de um nada. Era um mecanismo semelhante ao que acomete mães que perdem filhos. Num átimo, o mero voejar de uma mariposa as remete a um dia distante em que brincaram com um bebê de colo que observava extasiado aquelas asinhas erráticas. Esfumara-se-lhe a alegria de viver que, aliás, jamais fora exuberante. Passou a dormir à base de remédios e a fazer vez por outra o que mais condenava no círculo dos amigos russos de Olga: tomar porres cossacos em casa, na paz dos sábados, entornando uma garrafa de vodca pelo gargalo a largas goladas. A embriaguez lhe proporcionava uma sensação de libertação, muito embora ao riso estridente, sobreviesse muitas vezes um choro convulsivo, entremeado de soluços que pareciam lhe dilacerar a alma. Ficaria um dia curado e sem sequelas? Duvidava.

No fundo, Benjamim amara Aviva. A celebração do sexo com ela era digna deste nome. Era bonita, bem humorada e cuidava bem da casa. Sabia se vestir com elegância gastando pouco, e não havia quem não ficasse encantado com seu sorriso de canto de boca. As origens orientais a premiaram com um senso de hospitalidade incomum, o que contrastava com o padrão mesquinho de Olga, que contava quantos biscoitos deveria servir a cada convidado por ocasião de seus monótonos chás eslavos. O fato de ela ser uma puta – exageradamente colocando – não o incomodava tanto quanto deveria. Mas havia, é claro, uma sanção social a se impor, e ele não se resignaria ao papel de ser o corno manso mais conhecido de Afula e adjacências. Aliás, o que não é adjacência em Israel?

XI

A princípio, não pareceu despropositada a Benjamim a ideia de viajar com Berta no fim de semana. Por outro lado, não lhe agradava encarar semelhante programa sem ao menos revê-la na véspera em algum lugar, até para confirmar (ou não) as impressões, e chancelar as legítimas expectativas que um tinha com relação ao outro. Parecia bom senso puro.

Foi portanto com alguma ansiedade que ele aguardou-a no pequeno restaurante que ela recomendara, não longe de onde ele próprio estava hospedado. Numa mesa de canto, posicionou-se em direção à porta, num ângulo que facilitaria bem a visão do terraço de entrada. Há quantos anos não se viam? Trinta era um bom palpite. Mas depois de certa idade, o que são 30 anos? Ao vê-la, Benjamim achou-a bela, muito embora tenha ficado aflito ao constatar como ela se mantinha ainda mais jovem ao vivo do que pelas fotos. Desde logo, ficou sem saber como reagiria ao vê-lo. Ficaria decepcionada? Ou será mesmo verdade que as mulheres não se importam tanto com que os caras tenham uma barriguinha indiscreta, à condição de que sejam bem humorados? Benjamim tinha a cabeça raspada, o que ela já sabia. Quanto à barriga, na verdade, Berta parece nem ter notado. Benjamim tinha esquecido como as brasileiras se vestem com apuro até para as ocasiões mais informais. Para os padrões sabra, Aviva abusava de cores e adereços, mas isso era facilmente creditado à origem marroquina. Mesmo assim, ao lado de Berta, seria quase uma mulher rústica, de sóbrio trajar.

Baixinha, de rosto muito bronzeado para a estação e com um sorriso que mais paralisava do que encantava, ela beijou-o nas bochechas e antes de sentar, só disse: “Que guapo, que guapo“. Não passou indiferente a Benjamim o hálito de álcool. Pelo vale do decote, ele adivinhou que estava sem sutiã. A saia curta mostrava um generoso palmo de coxa. Ao fim do jantar de quase duas horas de platitudes e algumas provocações, ele elogiou-lhe a beleza de forma torta, quase desastrada. Mas ela reagiu à altura, misturando ironia com concupiscência, no melhor de seu repertório: “Isso é porque você ainda não me viu de calcinha de renda”, disse para logo se arrepender diante da expressão inescrutável de Benjamim, que emborcou o copo vazio sobre a toalha e disse: “Para mim, chega”. Mas era de seu feitio perseverar: “Saia curta, sem sutiã e de calcinha de renda”, escandiu Berta. A despedida foi fria e desajeitada. No dia seguinte, viajariam.

XII

Morando fora do país há três décadas, e sem voltar ao Brasil com a regularidade com que outros compatriotas o faziam, Benjamim ainda era do tempo em que havia uma estrada para o Rio de Janeiro, uma para Curitiba, uma para Belo Horizonte, uma para a Baixada Santista e uma, que podiam ser duas, para o interior. Se essa configuração básica pouco mudou, salvo pelo Rodoanel, não restava-lhe outra alternativa que não fosse confiar plenamente em Berta e calar diante da voz desagradável do GPS a que ela parecia ter estranha devoção e dever cega obediência. No caminho, Berta não parou de falar. Quanto a ele, estava recolhido em silêncio.

“Minha proposta é um jogo aberto, certo? Quando chegarmos ao hotel – e você vai ter que se aguentar até lá -, faço tudo o que você quiser. Tudo mesmo. Não temos mais idade para adiar certas coisas, especialmente as que estão ligadas ao prazer. Sei que suas mulheres lá onde você mora não se resumiram a Olga e a essa tal segunda, a marroquina que você chegou a chamar de piranha num e-mail. Eu também não sou santa não…é bom que você saiba. Mas se você for o cara certo, é claro que vou ser só sua. Pelo menos enquanto você der conta. E onde você quiser, aqui ou lá onde você mora. Você não ri? Gosto da coisa, sabe? Alguma coisa errada? Você está chocado? Por que só eu falo? Sei que não deveria beber na estrada, mas por aqui eles não fazem teste de bafômetro. Depois, que mal há numa cervejinha? Por isso que optei por essa estrada meio vagabunda. Quer dizer, optei não, não é? Optaram por mim. Na verdade, não sei viver sem isso aqui. Quando entro no carro, paro de pensar por completo. Um cara mais novo que só aparecia para me comer, dizia que eu terceirizava o cérebro. Nem cerveja você bebe? Se eu soubesse, teria pedido kasher. Lá onde eu vou, eles têm. Não, não estou fazendo gozação. Você está gostando? Puta que o pariu, teu silêncio me mete medo. Não vou negar, já estive aqui em outras companhias. Eles até chamam o chalé pelo meu nome. Mas acho que fazem isso com todo mundo, deve ser uma especie de marketing do local, não acha?”

Nada, realmente nada de relevante aconteceu no hotel em quase dois longos e intermináveis dias. Benjamim passou a maior parte do tempo caminhando pela propriedade, explorando sozinho as estradinhas que cercavam o local. Berta ficou bebendo na piscina. Ele pouco a viu fora das refeições e preferiu dormir numa rede que ficava perto da recepção, sob pretexto de que a ventilação do chalé era insatisfatória. Ela já propusera com insistência que voltassem mais cedo para São Paulo, mas ele pediu para que pernoitassem lá só mais uma noite. “É tão lindo”, disse sem convicção, de olhos petrificados. Ela não entendeu, mas aceitou.

Quando começou a entender, já não havia tempo.

Epílogo

Benjamim esperou que fosse madrugada alta. Ouvira no restaurante que uma chuva de meteoros estava prevista para riscar o céu por volta das três da manhã. Alguns hóspedes pareciam animados para vê-la. Outros tantos, nas longas conversas entreouvidas com o velho dono da pousada, pretendiam despertar antes dos primeiros raios de sol para observar os passarinhos na mata. Quanto a ele, de quanto tempo precisaria? Do bastante para descer do chalé até a pequena cancela e de lá virar à direita. Carregaria o corpo de Berta no braço, e se alguém perguntasse alguma coisa, seria sempre fácil dizer que ela tinha bebido muito, o que não deveria causar estranheza a ninguém. No vale que ficava adiante, não teria dificuldade em aprofundar em alguns palmos a vala que já preparara, onde o pequeno cadáver ficaria bem coberto. Atada pelas tiras que ele conseguira fazer de suas próprias roupas, só atentariam para a decomposição dentro de mais 72 horas, numa boa hipótese. Quanto a ele, tomaria um voo naquela mesma noite de Guarulhos, para onde guiaria o carro dela. Idealmente partiria para Istambul na madrugada, de onde tinha conexão boa tanto para Telavive quanto para Moscou. Em ambos os casos, não corria riscos, quando comprovada sua culpabilidade – ou pelo menos era assim que pensava. Que importância tinha aquilo diante da tarefa a ser executada? O essencial naquele momento era descartar o corpo desfigurado da esperta, da rameira, da hetaira, da zona de quinta categoria que tivera o desplante de chamar Aviva de puta, como se ela própria fosse muito melhor. “Saia curta, sem sutiã e calcinha de renda”, fora seu mantra de fechamento no primeiro encontro. Fora neste momento que Benjamim Rappaport tinha decidido que a vontade de matar Berta Kubits era o atalho reparador para conseguir o perdão de Avner Zimmerman, aquele que um dia lhe salvara a vida. Tendo o corpo inerte de Berta ao lado, Benjamim Rappaport cobriu sua nudez. E com alegria, concluiu que ainda tinha tempo para tomar um banho de banheira, adivinhando os ruídos da mata lá embaixo.

13 Comments

  1. Quem me lê aqui sabe que gosto de experimentos. Até uma pecinha de teatro já tivemos na “Será?” ao longo de aproximadamente 150 colaborações (antes era fácil rastrear, bastava pesquisar por autor, agora ficou impraticável).

    Seja como for, queria agradecer a paciência de Clemente e de Thyago ao ter acolhido de ontem para hoje o que seria um argumento-roteiro de uma história que se desenrola em planos variados.

    Ora, se João Rego já está acostumado às minhas incursões pelo experimentalismo literário e aprendeu a tolerá-lo, pareceu-me cruel confiar a Clemente tamanha provação. Mais do que nunca, precisaria da virtude que seu nome embute.

    A sensação de abusar da paciência de nosso interino foi inevitável. Tanto lhe devo que, para dizer pouco, ele detectou num texto grande a falta de um verbo em determinada linha, prova candente de que a ele nada escapa.

    Isso dito, boa leitura para os valentes. Quem chegar ao fim, talvez goste. Obrigado.

    Fernando

  2. Prato cheio para um analista lacaniano

    • Ufa Teresa, meu temor era que ninguém o lesse até o fim. Tudo indica que você conseguiu. Vou apelar para os lacanianos da família, já que João Rego goza no momento de merecidas férias. Espero também que a ideia de fazer um filme com meu amigo Guilherme Quintella não resvale para o chamado cinema de tese. Isso se essa brincadeira virar alguma coisa um dia. Quando não, já valeu pela sua leitura.

    • Fernando,

      Sua narrativa envolvimento e pormenorizada, me fizeram ler seu texto do jeito que gosto de tomar minhas “lapadas” de whisky cowboy: de uma golada.

      O improvável e inesperado desfecho é digno dos melhores mestres da ficção e suspenso.

      Brilhante!!

      • Obrigado, meu amigo. Fico contente que mais um herói tenha atravessado esse cartapácio eletrônico para conhecer o desfecho de um enredo quase banal. Por certo que “Será?” não é um espaço para experimentos de estilos. Tampouco um campo de provas para produtos não-testados. Mas o desafio de ter dois dias para entregar algo de minimamente palatável a um roteirista decente – que este decididamente não serei eu -, me motivou a escrever o argumento, por assim dizer. Se você teve tanto prazer ao lê-lo quanto eu tive ao escrevê-lo, valeu muito. Abraço.

  3. Essa foi de arrepiar. É serial killer? Ou foi a primeira vítima? Você entregou o jogo de cara mas fiquei amarrado até o fim.

    • Prezado Bretas,

      Eu acho que você acaba de me dar uma excelente ideia. Não tinha pensado nos desdobramentos que a vida dele (BR) pode ter depois de ato tão tresloucado (a morte de BK). Por que não ambientar algumas cenas em Moscou ou Telavive? Até onde ele vai nessa loucura? É assim que nascem as boas histórias.

      Grande abraço,

      Fernando

  4. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK não vou ler que não tenho tempo, só vim aqui pela curiosidade de ver o comentário da Teresa Sales. Então, aproveito para observar que esse comentário, ainda mais de conterrâneo que conhece o escritor, podia ter sido feito apenas pelo título, sem leitura do texto. Aliás, já vi muito comentário aqui na “Será?”, sobretudo alguns de elogios, em que está evidente que o comentarista não leu o texto.

  5. Muito bom! Você conseguiu me prender na leitura até o final. Parabéns.

    • Obrigado pela visita, Lindomar. Ao reler o texto, dadas as premissas que me fixei, percebi que alinhavei o fim muito rápido, ficou um pouco descuidado. Se um dia sair uma versão impressa, ela será incrementada de 2 ou 3 micro capítulos. Abraço.

  6. Uma descrição de alguns fatores ligados ao feminicidio. Ela insegura, de baixa expectativa quanto a sua capacidade de autonomia e a auto estima habitando o sub-solo da vida, encontra, “casualmente” , outra pessoa que carrega consigo a ideia de ser a luz do mundo, o dono das verdades e de ações puras. Resultado: a corda esticada estoura sempre do lado mais vulnerável.
    Ainda bem que este caso não vai engrossar as estatísticas. Gostei muito. Boa tarde!

    • Obrigado, Ana.

      Na minha indigente trajetória de escrevinhador, me descobri no começo à vontade com as crônicas, que desaguam na maior parte das vezes no “Jornal do Commercio”. Depois com artigos mais refletidos que começaram a ser publicados na “Amanhã” (já há 20 anos), e depois no blog “Ao redor do mundo”.

      Ultimamente o portal SAPO de Portugal passou a acolher uns textos que resvalem a dimensão Brasil-Portugal e já não conto a quantidade de contribuições para jornais e revistas em várias partes do País (desde a revista de bordo da Varig, a Ícaro, nos anos 90, até o jornal Valor Econômico).

      Aqui na “Será?”, até para agregar algum diferencial temático e cavar um espaço numa plêiade de cabeças bem pensantes, investi mais nas reminiscências, no memorialismo, numa especie de ensaio curto e, pouco a pouco, fui ficando à vontade com a ficção, que é mais difícil do que sempre imaginei.

      Suas palavras me gratificam imensamente porque evidenciam que você apreendeu as dimensões patológicas dos envolvidos e, quem sabe, a do próprio narrador, que aqui e acolá parece que tenta se meter na história.

      O melhor de tudo o que aprendi na “Será?” veio da lavra de João Rego, nosso “publisher” logo em nossos primórdios: nunca tente explicar sua ficção.

      Isso dito, obrigado.

      Fernando

  7. Eu esperava a continuação do serial killer e aí me chegou uma história de gatinho. Assim você me decepciona. Tive que reler essa história daqui mesmo. Vamos ver se na próxima semana tenho mais sorte.

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