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Penso, logo duvido.

Netuno – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Boteco no Rio.

I

 

Primeiro foi só uma impressão, quase esperança.

Mas quando Demétrio Castro reconheceu a garçonete que, desengonçada, atendia no Pachamama, de imediato se sentiu um homem renovado, um ser humano quase feliz. Nem as torturantes sessões de hemodiálise, e sequer a neuropatia que começava a lhe comprometer a mobilidade, eram o bastante para calar-lhe o ânimo, para domar o frisson que o percorreu ao divisar aquela silhueta magra e encurvada, a corcunda precoce – sintoma de uma tentativa instintiva e desesperada de esconder os seios – que fazia com que ela, ao cavar um buraco no tórax e ao projetar os ombros para além das clavículas, achasse que assim podia passar por um jogador de futebol, por mais um moleque travesso, por um suburbano malandro apto a xavecar as meninas com quem parecia sonhar acordada – deixando, por encanto, de ser mulher ou, a rigor, de pertencer ao gênero feminino, chame-se como quiser. Era ela sim.

“Quem é aquela de cabelo curtinho, parceiro?”, perguntou a Célio, o rapaz do caixa que passava a comanda eletrônica na leitora. “Ela ou ele? Não é para o senhor, não. Essa aí joga no outro time. Está mais para concorrente do que para caça, seu Demétrio. Parece que é pernambucana, mas está vindo da Bahia. Não deve durar muito por aqui.  Esse pessoal está sempre com um pé na estrada. Como são fissuradas em voltar para a farra, nem reclamação trabalhista sabem fazer e se contentam com um cala-boca que o patrão dá quando lê no rosto delas que já estão a perigo. Hum, por que tanto interesse, posso saber?” Demétrio ficou irritado com o tom, quase possesso. Afinal, não dera àquele veado espaço para tanta intimidade, apesar de almoçar ali quase todo dia. “Porra, você fala pelos cotovelos, cara. A gente te pergunta uma bobagem e você vem com uma tese. Quero lá saber de teu sapatão, rapaz. E se tiver troco, passa logo. Deixa desse papo torto.” Célio engoliu em seco e deu R$20,00 em duas cédulas. Já ao lado do carro, Demétrio bateu no capô com ambas as mãos e berrou, eufórico. “Deus é mais, obrigado Jesus amado, obrigado”. O que quer que acontecesse dali para frente, o destino lhe dera afinal a chance por que ansiava há muito tempo.

II

Isadora nunca pensou em morar no Rio de Janeiro. Aliás, isso sequer lhe passava pela cabeça, apesar de ter descolado um quebra-galho passável no Pachamama e de também ter conseguido hospedagem e comida na casa de Guita Fuss, uma conhecida que morava na rua Fonte da Saudade, perto da Lagoa Rodrigo de Freitas. Certas horas, a força do network tecido no litoral do Nordeste se provava poderosa. Isadora chegara à cidade, na verdade, para tentar reatar com Clara, uma patricinha que deixara o curso de biologia pelo meio para morar no Sul da Bahia e tirar um tempo para si. A paixão de Isadora por ela foi fulminante. Já Clara foi mais contida. Mas logo evoluíram para a primeira noite juntas e, depois de umas semanas, passaram a viver como era de regra na comunidade.

Era parte da dinâmica do vilarejo que os casais se fundissem, e com eles os grupos, as subtribos. Tanto quanto possível, trocava-se o dia pela noite, a vida girava em torno do ócio e do prazer, obedecendo à chegada de turistas na temporada. Era tudo como se elas mesmas formassem uma colônia de anêmonas, na definição da própria Clara. Pouco afeitas à vida dos grandes centros e expelidas dos muito pequenos, ali estavam à gosto. O linguajar e os meneios traíam uma espécie de nostalgia masculina perdida, permeada de palavras chulas, ou de narrativas pessoais que, invariavelmente, embutiam um laivo de heroísmo justiceiro, uma superação épica, um sofrimento lancinante, e uma aversão de regra a tudo que não fosse simples e autêntico. Se Isadora estava agora bem instalada, isso integrava a dinâmica de que quem tinha melhor nível sócio-econômico, bancava um núcleo de outcasts de finanças mais combalidas. Agora ela estava na Fonte da Saudade, mas poderia pernoitar no Leblon, em Higienópolis, no Corredor da Vitória ou em Boa Viagem. Na fantasia do grupo, contudo, permaneciam vivos os planos de voltar para os paraísos perdidos de Arembepe, Cumuruxatiba ou Caraíva.

O casal que formavam Clara e Isadora, durou o que era para durar. Passado um verão depois do primeiro olhar, quando viviam o que Isadora considerava retrospectivamente o melhor período, Clara decidiu voltar para o Rio. Teria sido por conta da tal desavença? Isadora desconfiava que sim. No forró da vila, o umbigo da vida social da comunidade, já embriagada de Netuno, a bebida alcoólica mais idiossincrática do sul da Bahia, Isadora vez por outra se deixava levar por uma veia promíscua e predadora, e abordava descaradamente tanto as turistas quanto as residentes temporárias, só guardando distância das nativas que não queriam saber do que julgavam ser modismos alienígenas. “Se eu gostasse de homem, e até que não desgosto de todo, estaria com um de verdade, não com você”, disse Clara. “Você se comporta como um cafajeste, como uma versão masculina do que já nem se faz mais. Qualquer hora dessas, você não me acha. Anoiteço e não amanheço, e você vai poder curtir sua embriaguez aos pés de quem quiser.” Pois bem, certa manhã ela cumpriu o que disse.

Quando Clara afinal voltou para o Rio, Isadora atropelou todas as cautelas que lhe inspiravam a cidade, algumas delas ancoradas no passado recente, e tentou uma reaproximação com o antigo crush que, como ela logo viu, não virara amor. Visivelmente, era tarde demais para recomeçar. Era como se a dimensão homossexual de Clara tivesse hora e data para desbrochar e fenecer, pelo menos naquele estágio da vida. De volta ao Arpoador, agora encarava-a como se nunca tivessem vivido juntas e refugou qualquer tentativa de reconciliação, declarando o caso página virada, um devaneio esvanecido. No dia seguinte ao desfecho, quando chegou para trabalhar de olhos inchados no Pachamama, explicou tudo a Célio, o confidente que tinha mais à mão. “Vacilei e dancei, cara. Agora é juntar uma grana para voltar para a Bahia e recomeçar. A filha da puta deve ter arranjado outra. Ou outro, vá saber”, murmurou com ar resignado. Decididamente, a tirar pelo tom, Isadora não precisava de um pênis para emular um borracheiro de posto de gasolina, pensou Célio.

III

“Eu ando comendo essa merda natureba porque o médico disse que mal mesmo não ia me fazer. Daí a me curar, vai uma distância. Para quem toma morfina sintética todo dia e filtra o sangue duas vezes por semana, é um sacrifício de nada. Se não fosse pelas economias passadas, eu estava ferrado. Ser doente já é uma bosta. Mas doente e pobre, só deveria valer para quem já bateu na própria mãe. Vou levando, cara, vou levando. Faço tudo direitinho, na maciota, e dou até meus pulinhos no fim de semana, numa roda de pagode lá em Xerém, você sabe até com quem. Gostou da rima? Não sei quanto tempo vou durar, talvez não seja muito, mas importante é evitar o sofrimento e, de vez em quando, ter uma alegria. Sabe como é: passar bem o Natal, encarar à distância o Carnaval, e assim o que resta da vida vai avançando. De alguma maneira, estou pagando pelo passado, sei lá. É uma vida de tédio para quem fez o que eu fiz durante tanto tempo, organizando uma rede de cortar até nervos de aço. Mas o que eu posso fazer?”

Déo assentia e lhe afagava o ombro. Demétrio continuou, em tom mais sonhador.

“Agora tem uma coisa que preciso te dizer, meu irmão. Mesmo porque é lance para a gente encarar juntos, na mesma brodagem dos velhos tempos, sacou? Sabe quem eu vi no tal restaurante natureba da Barra, limpando mesa e botando a louça na máquina? Aquela sapata que me entregou lá na Bahia, aquela dedo-duro pilantra que se meteu a salvar minha mulher com a intenção de comê-la. Quase a casa cai por conta daquela pervertida, cara. Na época, Gaguinho me mandou ir ao comissariado, me declarar culpado por espancamento, fazer trabalho social, aquele babado todo, e ficar quase um ano em cana só para a polícia não baixar lá em casa e botar tudo a perder, cara. Quando eu saí da jaula e voltei para o Rio, já estava doente, você está lembrado. Se há uma única coisa que prometi a mim mesmo, foi acertar as contas com aquela sapata, cara. Mas ela estava bem coberta pela galera de lá e achei que nunca mais ia ter uma chance. Mas adivinha quem eu vi ontem? Ela mesma, a tal Isadora, que de Isadora não tem nada, a Isadora que é mais João ou Mané. Agora vamos ver quem tem café no bule, parceiro. Ou Netuno no copo – bebida que essa escrota tomava como água enquanto requebrava o esqueleto no forró. Se eu tinha alguma dúvida de que era ela, o caixa me deu o serviço rapidinho. Só falta descobrir onde ela se esconde e emboscá-la com jeito. Vai ser bater em bêbado, sei disso, mas ela merece. Dessa vez ela vai conhecer a Baixada e, no que depender de mim, aquela carcaça vai feder em Belford Roxo até o juízo final.”

O irmão do Gaguinho, o Déo, só escutava o longo desabafo de Demétrio. Mas arrematou: “A hora é tua, Miudinho. É só avisar quando o bagulho estiver armado que vou lá te dar uma força. Mas evita a Baixada, vai por mim. Se quer fazer serviço limpo, é melhor rebocar a figura até a restinga. Lá na Marambaia é limpeza, bem sossegado. Posso providenciar apoio.”

IV

Demétrio Castro, o Miudinho, trabalhava para a Organização desde 2005. Sendo irmão de Zito Castro, dito o Doido, que morreu trocando tiros na entrada de uma das mais concorridas bocas de fumo da Maré, Miudinho foi acolhido por cima, ungido de uma aura de respeito. Alto, barba preta ralinha, musculoso e de poucos sorrisos, Miudinho batia pesado, mas era pensante. Gaguinho – um fino leitor do ser humano, não por acaso também líder da facção naquela área – percebeu com o tempo que o lugar do novo colaborador não era na cidade. Pelo temperamento, poderia criar confusão no afã de mostrar serviço, e isso poderia quebrar pactos minuciosamente costurados, alguns deles até com altas autoridades municipais e estaduais. Nessa época, o Espirito Santo era uma das melhores praças do Brasil e Gaguinho designou-o para coordenar a recepção e distribuição do produto a partir de Guarapari. Contido e organizado, tudo corria bem enquanto Miudinho esteve casado com uma prima. Depois da separação, começou a se mostrar irritadiço, quase neurastênico. Embora continuasse a ser um elemento hábil e frio nas horas cruciais, convinha monitorá-lo de perto. Essa era missão de Déo, a quem ele tinha como irmão e confidente.

Ora, dada a dinâmica do business, como gostava de dizer o advogado, Demétrio Castro, o temido Miudinho, começou a viajar ao Sul da Bahia, onde dava como certo que os negócios iriam progredir junto aos paulistas endinheirados que se instalavam na região. Foi nessa época que conheceu em Porto Seguro uma nativa de nome Bartira, que se dizia descendente de pataxó. Desde o começo, nada foi muito bem entre eles. Indolente e pouco respeitosa, Bartira teimava em lhe falar de igual para igual, a ponto tal que ele sentia enorme alívio quando ela estava de bom humor e não o hostilizava. Parecia ser da índole dela. Numa noite em que se empolgou com três doses de Netuno, que ele tentou em vão acompanhar, ela cismou de lhe negar sexo, como se isso fosse uma prerrogativa aceitável no mundo de onde ele vinha. Data daí a primeira surra que Miudinho lhe aplicou, a que ela reagiu com sentimentos que iam da vergonha à submissão, por medo de voltar a desafiar a ira de um homem que, naquela hora, revelou-se como era.

Instaurado o ciclo vicioso, foi então que Isadora – a pernambucana que aparecia de vez em quando para ajudar Bartira a arrumar a casa e preparar o almoço das visitas que chegavam do Rio – arrancou da baiana a confissão que lhe selaria o destino. “É claro que ele me bate. E não é pouco não. Mas agora fiquei com medo. É um homem perigoso, muito mais do que eu pensava.” Foi numa noite sem lua que Isadora acionou uma mulher de suas relações para distrair Demétrio o quanto pudesse, fazendo-o beber Netuno até o limite. Chegando em casa, era tarde para rever a mulher. Ela já estava na estrada. Miudinho se valeu da força dos pulmões para gritar para quem quisesse ouvir: “Foi aquele sapatão desgraçado, vou matar a tal Isadora e vai ser hoje mesmo.”

Escondida num remanso do rio, Isadora nem sonhava em voltar à vila. Quando abria o telefone, lia a mesma palavra de várias fontes: vaza, vaza daqui, some daqui, Isadora, e trata de salvar a vida. Depois de ser preso, uma raridade numa comunidade onde a polícia não é bem vista, Miudinho saiu da cadeia de Porto Seguro pouco mais de um ano depois de ter entrado, e era Déo quem estava à sua espera. “É hora de voltar para o Rio, parceiro. O Gaguinho te quer lá. Já negociamos a ponto aqui, tem outro xerife em teu lugar. Não é um pedido não, entendeu? Chega de encrenca.”

E Isadora ficara impune, vivendo a vida com Clara, como se tudo fosse ficar por isso mesmo.

V

Déo viu quando as luzes do carro vararam a neblina a caminho da casa onde os esperava. Nos bancos da frente, dois soldados da Organização vez por outra olhavam para trás e pediam a Demétrio que sossegasse. “Já estamos chegando, Miudinho. Para de dar tanta porrada, deixa um pouco para quando a gente estiver lá. Déo está logo ali na porta. Respira, cara.” Miudinho estava siderado com a presa. Minuto após minutos, desde que a tinham tirado do ponto do ônibus da avenida das Américas e jogado no banco traseiro, ela grunhia e chorava, suplicava e rezava, numa tentativa desesperada de jurar inocência. “Não fui eu, juro que não. Quando ela foi dar parte em Porto Seguro, o pessoal já sabia quem você era.” E então Demétrio lhe estalava novo tabefe.

Mal pararam diante da casa, Déo entrou num segundo carro e pediu que eles o seguissem. Foram até um ponto perto da praia que estava totalmente deserto. Onde estavam, ouviam o marulho e pairava salinidade no ar. Isadora lembrou da Bahia, do forró e dos porres de Netuno. Por um raro instante, sentiu saudade da família em João Alfredo, Pernambuco, e pensou que talvez nunca devesse ter saído de lá. Que teria sido bom negócio cuidar dos sobrinhos e aguentar o olhar torto dos vizinhos e da família. Era engraçado como o pavor podia se transformar numa sensação quase boa, como se não estivesse ali para morrer.

Quando o grupo botou os pés na areia, sem que nem ela nem talvez Demétrio se apercebessem do que estava por acontecer, Déo apontou o revólver para a nuca de Miudinho e ali mesmo fulminou o amigo. Dois fachos cortaram a escuridão, mas o barulho soou surdo, quase abafado. Virando-se para ela, não alterou a voz. “Não era tua vez, era hora desse maluco.”  Num grande pneu que jazia ao lado do carro de Déo, os comparsas acomodaram o corpo de Demétrio e atearam fogo. “Agora vamos lá, antes que isso comece a feder”. Na saída da restinga, Déo tirou R$500,00 do bolso. “Você tem um dia pra sumir daqui, cara. Volte para a Bahia e dê graças a Deus por essa. Se alguém souber disso aqui, a gente já sabe quem falou e te pega em dois tempos, sacou? Os meninos vão te deixar na avenida. Lá passa muito ônibus.” E pegou o telefone.

Isadora decidiu que nada diria a Guita. E sem se despedir da amiga nem pedir as contas no Pachamama, viajou na tarde seguinte para Porto Seguro. Rio de Janeiro, pensou, nunca mais.

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