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Primeiro de Maio numa Paris confinada – Fernando Dourado

Fernando Dourado

Telhados de Paris.

Sou caseiro, no geral. Descobri que para mim não chega a ser sacrifício ficar amoquecado na sala – por acanhadas que sejam as instalações, e por tentadora que possa ser a cidade onde esteja. É verdade que não estou nem tão mal acomodado assim nem tampouco Paris se parece com o que costuma ser. Onde estou tenho cama aquecida, roupa lavada, boa comida e conexões com todo o mundo. As rotinas são respeitadas escrupulosamente, e elas ajudam a estruturar a passagem do tempo. Geralmente, estou de pé às 8 da manhã. Espreguiço-me na cama, alongo os músculos, dobro as cobertas, e levanto o colchão retrátil para ter mais espaço. Meia hora depois, com as janelas abertas, já estou em posição de combate à mesa de trabalho. Um croissant e um capucino integram as delícias dessa primeira hora e, é claro, dou uma lida no noticiário da França a da Ásia, enquanto as Américas não despertam. Dificilmente presto atenção a outra coisa que não seja a pandemia, espécie de pedra angular de tudo, como jamais vi igual. Às vezes imagino que só os que estavam aqui na Segunda Guerra podem ter vivido coisa parecida. À hora do almoço, tomo um copo de vinho e como bem, geralmente pratos que compro nos inúmeros comércios do bairro, podendo ir de um cassoulet de Toulouse a salsichas com costela suína defumada e chucrute. Depois de mais uma sessão de trabalho, espanto a preguiça e, umas 4 vezes por semana, saio para um passeio, para um pequeno safári perto de Notre-Dame, e a compra de revistas e jornais. Os comerciantes me saúdam com alguma alegria, a começar pelos fruteiros marroquinos junto a quem me abasteço com volúpia e onde deixo, invariavelmente, uma cédula de 20 euros, uma boa compra. Quando volto para casa, jogo as moedas na água e detergente e deixo-as de molho até segunda ordem. Devo ter mais de 150 euros em moedas numa caixinha, e poucas vezes soube de dinheiro tão limpo. Perto do fim da tarde, tenho um surto criativo e escrevo por um par de horas no que quer que esteja trabalhando. Então, quando faltam 15 minutos para o noticiário das 20 horas, quando intercalo os canais 1 e 2, abro uma garrafa de Bourgogne Aligoté. O jantar pode ser uma sopa de crustáceos, que compro na peixaria. Salmão norueguês com pão sueco ou terrine de coelho ou mesmo mousse de fígado de ganso. Tenho sido mais frugal com os queijos, especialmente com o Roquefort, meu favorito, que é um pouco salgado, mas tenho abusado do Münster, da Alsácia, que quase não comia em meus períodos de residência em Estrasburgo. Depois retomo o trabalho e só pelas 23 horas volto à cozinha para uma sobremesa tardia, que consiste em laranjas de mesa do Atlas, que me lembram as da fazenda do amigo Hassan El Amrani, que me levou a essas mesmas montanhas numa viagem a Marraquexe. Depois da meia-noite já tenho tarifa econômica para um banho demorado e lá vou eu me ensaboar e pensar no que foi o dia. Já pronto para dormir, dou uma olhada nas redes sociais e posto uma última reflexão, sempre pensando que pode ser também a última da vida. Depois de deitado, tudo corre rápido e em dez minutos, no máximo, já estou dormindo. Normalmente será entre duas e três da manhã. E então tudo recomeça no dia seguinte. Pelo menos foi assim até hoje.

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Revendo o imenso parágrafo acima, não tenho como não lembrar do amigo Lázaro, que me conhece há 30 anos, e que é um fino observador do ser humano. Tempo desses, que parece que faz bem mais, estávamos no café Santo Grão, em São Paulo, quando ele me disse um par de coisas bastante desconcertantes. “Meu ofício na vida sempre foi observar as pessoas e ajudá-las a pensar um pouco sobre si próprias. Você nunca me perguntou a que conclusões eu cheguei com respeito a você. Posso lhe dizer quais são?” Achei engraçado que ele me tenha dito isso porque a tal observação das pessoas integra um ofício ganha-pão, para o qual ele é sumamente vocacionado e regiamente pago. Mas não é necessariamente um dever de prestação entre amigos. Por outro lado, nada há de tão absurdo na oferta. Seria o mesmo que eu fosse pintor e me oferecesse para fazer um retrato de alguém próximo. “Claro, vamos lá, rapaz, agora fiquei curioso”, disse com um pouco de apreensão. Então ele discorreu sucintamente sobre 4 pontos que me parecem hoje interessantes, especialmente nessas circunstâncias em que eu fico tão só comigo mesmo. Em primeiro lugar, disse Lázaro, você é um sujeito orientado estritamente pelo prazer. E isso conta muito em seu favor. É a pulsão pelo prazer que o tira da cama, que o leva à mesa à hora do almoço, a dar um passeio na calçada do escritório, a planejar uma viagem, a escrever um artigo ou até a ir ao dentista – de quem você ficou amigo. Você é movido a prazeres. Acorda pensando neles, e vai dormir repassando-os. Estou certo? Achei engraçado, é claro que não vejo as coisas exatamente desse jeito, mas tampouco é absurdo. “Claro, amigo, concordo em boa medida. O que temos mais?” Então ele pediu um café expresso e emendou. “O segundo ponto é que você não se pré-ocupa com quase nada. Você deixa para descascar o abacaxi depois que ele aparece. Isso pode ser faca de dois gumes, mas até benefícios indiretos para a saúde traz. Uma pessoa minimamente preocupada não levaria aos 62 anos a mesma vida que levava aos 17. E com muito menos moderação hoje do que àquela época.” O que podia fazer? Apenas sorri. “O terceiro ponto é que você não alimenta dramas de natureza existencial. Você não tem angústias internas paralisantes, pânicos, depressões. Apenas um pouco de pulsão de morte, e isso porque teme ficar privado dos prazeres, por nada mais.” O que dizer, de novo? É claro que teria como obtemperar aqui acolá, mas não vale a pena e, no atacado, ele deve estar certíssimo. “Por fim, meu caro, o quarto e último ponto é que seu foco é todo no presente, o que te dá uma terrível capacidade de concentração. Não tendo preocupações, dramas de identidade e amando a vida, seu negócio é dar o máximo de si naquele momento e fazer o melhor. Pouco importa que o mundo esteja caindo. Salvo um petardo que o derrube com força descomunal, você vai acordar embalado pelos seus planos, por sua pequena agenda, e focará nela sem olhar para os lados. Acertei ou não?” Então sugeri que dividíssemos uma torta de queijo, que parássemos com aquela conversa, e que ele me contasse como ia a vida dele, mesmo porque não gosto muito quando sou o centro do bate-papo. Mas hoje em Paris, em pleno 1 de maio, pensei nele, nessa conversa e sorri. Oxalá tudo isso permaneça verdadeiro.

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Lá fora, Paris parece se divertir. É uma cidade sob muitos aspectos bastante conciliada consigo própria. É como uma mulher dessas de antigamente que não conhecia trégua dia após dia, ocupada em parir, amamentar, cozinhar, varrer, limpar, servir, lavar prato, fazer sala, abrir as pernas, consolar e conversar, que, de repente, por uma circunstância qualquer, mesmo que não muito boa, ficasse sozinha em casa, na companhia silenciosa do cachorro e da voz do rádio, e tivesse todo tempo do mundo para si, podendo dormir até tarde, se contentar com um cafezinho com bolacha, tocar uma flor do jardim, olhar-se nua no espelho, testar um sorriso novo, e puxar uma espreguiçadeira para levar o sol matinal – tudo isso em total silêncio, salvo pela música que escolher. Assim está Paris. Famílias de patos e marrecos passeiam com altivez nas calçadas mais inimagináveis, e cervos e veados saem do Bois de Boulogne. Javalis já romperam os limites do Periférico. Há quem tenha visto uma raposa nos Champs-Elysées e um lobo no parque Monceau. Gosto de imaginar que depois do dia 11 de maio vou poder sair por aí, sem ter que apalpar o bolso para me certificar de que tenho o atestado em consonância com o horário e o trajeto. A área da capital será a última a ser desconfinada porque por aqui o vírus circula sobranceiro. Não é justo que liberem-se milhares de parisienses para a Côte d´Azur ou para a região bordelesa. Não há ninguém aqui hoje que não sonhe com a Corrèze, onde se pode caminhar por quilômetros sem ver vivalma. Muito embora eu só possa circular num raio de 100 km da capital, algo como de Chartres a Compiègne, ou do Recife a Bezerros, é claro que teria a opção de sair do país, mas sabendo, nesse caso, que não poderia voltar tão cedo. Para quem mais de uma vez chegou a jurar que estava infectado, não seria muito inteligente abandonar o ninho a essa altura e atender aos generosos acenos que me fazem os amigos, movidos antes de mais nada por uma solidariedade que sempre comove. Suíça, Alemanha, Espanha, Itália, Portugal e Inglaterra são alguns desses refúgios. Aqui, no entanto, já estou a par dos protocolos que regem a notificação de uma anomalia, e merece crédito um país que vi deslocar aviões inteiros para transportar meia-dúzia de pessoas em estado crítico, e transformar trens de grande velocidade em UTIs sobre trilhos. Saio, se sair vivo desses episódios, um pouco mais francês de raiz do que sempre fui. É um pouco como se meu pertencimento a esse País migrasse do amor à sua música, gente, literatura, cultura, língua e gastronomia, e se entranhasse por camadas mais profundas, como se um elo tivesse sido forjado lá na pirosfera, no miolo incandescente. Se sobreviver a tudo isso, será em boa medida graças a eles, mesmo que não chegue a pegar sequer uma versão benigna da doença. É como se o compartilhamento de uma experiência coletiva cruel me tivesse aproximado da classe política, do Conselho Científico, e dos comerciantes do bairro, que são muitas vezes as pessoas com quem mais converso, quando não há pressão de fila logo atrás. Se estou bem em casa, na cidade e no país, devo dizer que as máximas de Lázaro permanecem válidas, muito embora vez ou outra a sombra da angústia paire por perto. Não fosse um reservatório bem suprido de algum egoísmo, o instinto de sobrevivência sozinho não bastaria.

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Logo mais vou dar uma volta pelo cais Montebello, e de lá me enfurno nas ruazinhas da ilha de Saint Louis. Faço qualquer acordo para não levar uma multa. Nasci sem o temperamento para a sanção. É como se uma fração narcisista aqui dentro se recusasse a admitir um castigo de fora para dentro. Vou morrer sem saber o estrago que essa atitude pode ter feito na minha vida útil, mas sei que foi grande. Quantas vezes não estive aqui num primeiro de maio? Muitas. A mais marcante foi aquela feita de 1994. Tinha chegado na véspera da Suíça. Os amigos de Lugano tinham perguntado se eu queria ir ao Grande Prêmio de San Marino, em Imola. “Se eu não vou ao de Interlagos, com convite e tudo, o que vou fazer nesse aí? Obrigado.” E vim para Paris, onde me alojei com uma namorada perto da Étoile, na avenue Kléber. Na véspera, nos treinos da corrida, já morrera um austríaco, e o jovem brasileiro Barrichello escapara por pouco. Foi com bastante apreensão e pouco entusiasmo que eu liguei a TV para ver a corrida. O comentarista era Alain Prost, o sempiterno rival de Ayrton, com quem eu viajara meses antes da Austrália para o Brasil, e com quem conversara amenidades no upper deck de um 747 da Aerolíneas Argentinas que sobrevoava o Polo Sul, durante um longuíssimo voo. A largada foi calamitosa, cheia de incidentes e houve nova partida. Pressionado por Schumacher, que já dizia naquela época a que viera, veio a curva Tamburello e o choque fatal. Lembro da reação indignada de Prost que, desde o começo, era contra  realização do certame, levando em conta todo o sucedido na véspera. Descemos de táxi para o La Coupole e, nos Champs-Elysées, eu já tive a confirmação da morte pelo motorista de táxi. Passando na place de la Concorde, já tinha gente colocando um buquê na sede da FIA, e o ambiente vigente naquele domingo lindo era de luto absoluto por toda a cidade. Para trás ficaram as rivalidades com Prost e as torpezas trocadas na pista. Lembro que saí de bar em bar e conversei com grupos diferentes de pessoas. Como minha namorada pouco contribuía para a elaboração do luto, sugeri que ela fosse para o hotel besuntar o corpo de creme que era o que mais lhe aprazia fazer quando estava em seus domínios. “Vá que é melhor, o dia hoje não é nosso. Se você ficar por aqui perguntando essas platitudes, a viagem vai acabar mal.” Vi quando ela entrou num táxi e deu um cartão do hotel ao motorista. Melhor assim. O mais é música. “J´ aime Paris au mois de Mai…”, na voz cálida de Montand. Seja como for, estamos no meio de um túnel escuro. Nenhum país pontua tão alto na escala do risco acoplado à gestão caótica do combate ao coronavírus quanto o Brasil. Era muito bom quando tudo estava ainda na esfera do anedótico. O que de melhor poderia acontecer ao presidente-capitão, depois da renúncia, seria sucumbir a uma versão maligna da doença. Isso sim poderia salvar milhares de vidas no Brasil por tudo o que ele representa para as camadas mais rasas de alma. Que o exemplo viesse de cima. Digo-o com total sinceridade de propósito. Tudo o que espera por esse sujeito mais adiante é um desastre, será gerador de infelicidade em estado puro – para ele e para os outros. Espero que alguém fale nesta edição da Será? sobre a correlação dos procedimentos para a obtenção dos R$ 600,00 e a disseminação do vírus entre os mais necessitados. Enfim, achamos nosso Maduro.

 

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