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Penso, logo duvido.

Desenvolvimento Sustentável? – Abraham Sicsú

Abraham Sicsú

A corrida espacial sempre me fascinou. Sputniks, os primórdios, Gagárin, o primeiro. Armstrong, “um passo pequeno para um homem, mas grande para a humanidade”. Os cinquenta e os sessenta do século passado, para serem vividos, tinham como fatos de referência os avanços da ciência.

A NASA sempre foi um caso a ser referenciado. O transbordamento das suas iniciativas, a relação entre ciência e tecnologia, e, principalmente, como isso se transformou em avanços para a sociedade. Novos químicos, novos materiais, adianto na ciência da computação. Como sou ruim de memória e detalhes, meu caso exemplo sempre foi o GPS.

Durante alguns anos estive desconectado com o tema. Mas, em anos recentes, Elon Musk, com a sua Tesla, voltou a chamar a atenção. Viagens interplanetárias, colônias em outros mundos, fazem parte desse imaginário. O lançamento do SpaceX chamou a atenção. Foguetes que são recuperáveis, acoplamentos perfeitos, cálculos precisos. Os avanços são expostos e tornam-se públicos.

A pergunta que me faço é como, num mundo de tantos avanços, de um domínio crescente sobre o universo, as desigualdades são gritantes e seres humanos vivem em condições sub-humanas?

Vou aos meus apontamentos de aulas dadas e encontro uma frase do mais importante físico do século XX, Albert Einstein:

“Devemos ter o cuidado de não fazer do intelecto o nosso deus, ele sem dúvida tem músculos fortes, mas nenhuma personalidade. Não é capaz de conduzir. Pode apenas servir. O intelecto tem um olho aguçado para métodos e ferramentas, mas é cego quanto aos fins e valores.”

Esta pode ser a chave. Muito se fala em Desenvolvimento Sustentável. As teorias de Desenvolvimento Sustentável têm trazido significativos contributos ao pensar da sociedade, superando fase em que se confundiam com preservação ambiental, apenas. Como disse Luc Ferry, essa fase foi importante para firmar a questão na sociedade, mas “o amor à natureza, às vezes, ocultava o ódio aos homens”.

Superada essa fase, lembro de Paul Valéry, em seu livro “Moral em Desordem”:

“Tanto nos procedimentos quanto à saúde humana e animal, quanto à agricultura e ao relacionamento com a natureza, é difícil prever os impactos dessas transformações e, consequentemente, quais os valores que devem orientar nossas ações nessas áreas da atividade humana. Trata-se de uma fase nova (“pós-moderna”?) das ciências e das técnicas que acarreta uma outra temporalidade que a do domínio suposto da ação humana eficaz. Essa temporalidade escapa agora de um domínio racional: processos foram lançados cujos próprios iniciadores ignoram os desenvolvimentos possíveis e efeitos. Ora, essa ausência de domínio contradiz frontalmente a exigência ética mencionada há pouco (no livro), segundo a qual uma humanidade responsável deveria levar em conta o futuro e o destino das gerações vindouras.”

Capra, em seu livro “Ponto de Mutação”, chama a atenção de que se está construindo um novo paradigma para a sociedade, baseado no declínio do patriarcado e no declínio da era do combustível fóssil. Neste paradigma nada se explica per si, mas sim na interação. Ressalta a importância dos valores e da cultura local. Nesse quadro, algumas lógicas devem ser destacadas: existem conflitos no curto prazo entre os interesses sociais, econômicos e ambientais, que devem ser minorados no longo prazo; o desenvolvimento mais harmônico necessita de mudanças  Institucionais para regular os processos e avanços tecnológicos, para superar entraves; não se pode olvidar o compromisso de gerações e nossas obrigações com as gerações futuras; é fundamental resgatar a responsabilidade social dos diferentes segmentos sociais (empresários, cientistas, governos, entre outros); é importante resgatar a cultura dos povos e o respeito à diversidade.

Acrescentaria a isso o compromisso, dentro da mesma geração, com nossos iguais, fazendo com que os frutos que a ciência traz sejam mais bem repartidos, sejamos mais equânimes, socorramos os menos favorecidos, não no futuro, mas agora. Sejamos solidários com os que passam fome, com os excluídos, retomemos uma visão internacional em que o incômodo se sinta ao ver seres humanos em condições desumanas.

Neste mundo, em que continuamos admirando a ciência e seus feitos, teremos como norte o que Leonardo Boff, em seu livro, “Ecologia, Mundialização e Espiritualidade”, nos dizia:

“A nova ordem ética deve encontrar outra centralidade. Deve ser ecocêntrica, deve visar o equilíbrio da comunidade terrestre. Tarefa fundamental consiste em refazer a aliança destruída entre o ser humano e a natureza, entre as pessoas e povos, para que sejam aliados uns dos outros em fraternidade, justiça e solidariedade. O ser humano vive eticamente quando renuncia a estar sobre os outros, para estar junto com os outros”.

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