Jovem negro morto após tortura – Mississipi (data estimada anos 30 do século XX) foto by (John L. Spivak)

 

O Brasil lembra um caminhante ou viajante que chegou a uma encruzilhada. E agora, o que fazer se roubaram (não é raro) ou inexistem as placas indicativas? Fica apenas a sensação de que tudo pode, literalmente, se desencaminhar. Gilberto Freyre, com otimismo e generosidade, observou que vivíamos um “equilíbrio de antagonismos”. Mas a dinâmica dos tempos parece nos dizer outra coisa: o desequilíbrio está aí desde sempre. Um dos seus nomes é violência. Uma violência que as nossas elites — ou seja, aqueles que detêm o poder econômico, cheios de letras, mas não de espírito — fazem questão de mascarar.

O racismo é uma dentre tantas outras violências que assolam a Nação. O caso do espancamento e morte do cliente João Alberto, numa loja do Carrefour em Porto Alegre, nos lembra que essa violência está longe de se extinguir. Pelo contrário, tornou-se banal e ousa se mostrar em toda a sua crueza. Alguém disse, com toda a razão, que o que aconteceu tem um nome apropriado: “tortura”. Uma tortura que dispensa porões, subsolos, casas clandestinas. Uma tortura a céu aberto, capaz não só de espancar e ferir como de levar a morte as suas vítimas.

A hora da encruzilhada parece ter chegado à sociedade brasileira. Como num labirinto, enveredamos por um caminho sem saída. Há pouco, algumas placas ainda indicavam que eram possíveis outros caminhos. Mas elegemos, em 2018, quem escolheu a tortura e o obscurantismo. Isso, claro, faz uma diferença. A posição de líder implica muito mais que o assumir um cargo oficial. Por equivocadas razões, o povo escolheu aquele que empodera a escória e a brutalidade. Ustra vive. E continua, mesmo depois de morto, a torturar e a defender o indefensável.

A morte de João Alberto trouxe à praça pública o desprezo, a indiferença, a crueldade, tudo o que não queremos ver ao dizer que o nosso povo, como disse o presidente da República, é alheio a tais conflitos. Engano. A própria história oficial do Brasil está repleta de violência: Balaiada, Sabinada, Cabanagem, Revolta dos Malês, Canudos, insurreições pernambucanas… e aquela de que até hoje sentimos todo o horror: a escravidão. A encruzilhada não comporta mitologias e idealizações suspeitas e preconceituosas.

O negro escravizado — que Freyre corretamente destacou como “cocolonizador” — foi protagonista de construção da Nação e, como escreveu Joaquim Nabuco, “nos deu um povo”, “foi a raça negra que construiu nosso país” e que “fundou para outros uma pátria que ela pode com muito mais direito chamar de sua” (Cf. “O Abolicionismo”). Essas palavras de Nabuco, sim, mostram um compromisso com a verdade. O mais é véu que nada esconde da violência contra os negros. Quando desacreditamos do diabo, diz Guimarães Rosa, pela voz de Riobaldo, aí é que ele toma conta de tudo. Nada tão certo. O presidente da República e seu vice vão nessa linha, não se dão conta do escândalo e despejam sobre a Nação atônita palavras mitigadoras, mas fartamente equivocadas. Não somos nem nunca fomos uma ilha de paz num mundo em turbulência, somos humanos, como tantos outros, de uma “comunidade imaginada”, e não menos conflituosos, não menos desumanos em nossos arroubos, bravatas e injustiças.