Paulo Freire – educador pernambucano.

 

Paulo Freire foi educador de três continentes. América, Europa e África. Que outro educador teve sua pedagogia acolhida em tal latitude?

Talvez, por isso, possa dizer que Paulo Freire foi um pássaro. Não o sabiá-laranjeira tirado de crônica de Rubem Braga. Mas, o assum preto, no acalanto do xote de Luiz Gonzaga. Colhido em canícula sertaneja. Pássaro educador. Pássaro da liberdade. Pássaro do amor. Pássaro da arte educação.

A pedagogia de Freire conjuga verbos: acolher, contextualizar, refletir, agir. Em torno de tema gerador. Ação concreta. Por isso, a pedagogia de Freire é um desabrochar. Florescer. Desvendar. Desvendar-se. De quem se entrega. Para mergulhar, aprender. E assumir.

Assumir o que ? Assumir a boniteza de ser. Autor de si. A bondade de olhar. O outro. No mundo solidário de quem se torna educado. No sentido profundo da educação. Que significa etmologicamente conduzir para fora. Para construir o mundo.

Aqui, Freire agendou encontro com Hannah Arendt. No horizonte dos fazeres humanos, pensados e cumpridos, da filósofa. Ela intuiu o repertório, a linha. Ele escreveu a música, nas casas de taipa, com as mãos calejadas do homem redescoberto. Com letras formando a palavra: libertação.

Por isso, a pedagogia de Freire, além de ética, contém uma estética. Porque situa o homem. Para que ele reinvente a si próprio. A fim de abrir caminho, fazer sua invenção, olhar as estrelas, sentir a emoção da beleza.

Por isso, educar é obra de arte. Na artesania da cognição. Afetividade e criatividade. Ninguém melhor do que Ana Mae Barbosa para testemunhar. Testemunho de vida. De quem se fez peregrina da arte-educação.

Por isso, a obra de arte de Freire é singular na sua experiência única. Rara. Dona de originalidade reconhecida por quem sabe que educar é dom. Não é para quem é investido. É para quem se investe de amorosidade. Pelo humano. E, ao assim fazer, a obra de arte de Freire torna-se plural. Pois alcança o outro. A comunidade. Três continentes.

A obra de arte de Freire penetra corações e mentes. Sexta-feira passada, ao concluir a aula, um aluno disse:

– Professor, quero fazer uma pergunta que não tem a ver com a matéria.

– Pois não, respondi.

– Você sabe quem foi Paulo Freire ?

– Sua pergunta tem tudo a ver com a aula.

E procurei fazer uma síntese do pensamento de Freire. Ontem, sábado, o Diário de Pernambuco dedicou o alto da capa a Freire. Guardei o exemplar. Vai abrir a aula da próxima semana.

Paulo Freire aboliu o tédio de meu domingo. Fez-me menino. No entusiasmo de escrever. E de ouvir a balada nº 1 de Chopin. Interpretada por um pianista, em seu esconderijo, para oficial nazista. Em A Lista de Schindler. Para tal, é a pedagogia de Paulo Freire. Para dar sentido a nossas vidas.