Papa João Paulo 1o.

 

De vez em quando (ou será com frequência desconhecida?), o acaso traz às nossas mãos um livro que nunca procuramos. E então é como se ouvíssemos seus clamores de náufrago e descobríssemos um pequeno tesouro perdido. Este de que me ocupo neste artigo ia para o naufrágio total: o lixo. Sim, ia para o lixo com a humildade dos seres indefesos. Uma mão amiga e providencial o salvou do chorume e do nada e me presenteou. Estava sadio e bem-disposto, quero dizer, bem-disposto para ser lido e curtido. 

O título (a edição é francesa) me pareceu talhado a propósito: “Humblement vôtre” (“Humildemente vosso”), como se agora me dissesse que me pertencia, abrindo-me suas páginas sedentas de livro esquecido. Seu autor? Ninguém menos que Albino Luciani, o então Patriarca de Veneza e futuro Papa João Paulo 1º, o papa-relâmpago e carismático que teve apenas 33 dias de papado no já remoto ano de 1978. O título original, claro, é italiano como seu autor: “Illustrissimi” (“Ilustríssimos”). O livro foi publicado em 1976 pela editora Messaggero Padova, na Itália. No Brasil, há uma edição de 1979 com o título de “Ilustríssimos Senhores”, que, imagino, deve ter vendido muito por conta da morte súbita do autor e de seu fugacíssimo papado.

O livro é uma reunião de cartas que, durante cinco anos, de 1971 a 1976, o futuro papa publicou no periódico italiano e cristão “O mensageiro de Santo Antônio”. Cartas dirigidas a mortos ilustres: escritores, inventores, nobres, santos, personagens bíblicas e até a personalidades fictícias, como Pinóquio, Penélope e Fígaro. Dentre os santos, Lucas, Francisco de Sales, Teresa de Lisieux, Santa Teresa d’Ávila, Boaventura, Bernardino de Siena, Bernardo de Claraval. Dentre os escritores, Petrarca, Dickens, Mark Twain, Chesterton, Charles Péguy, Trilussa, Alvise Cornaro, Goethe, Walter Scott, Cristopher Marlowe, Giuseppe Belli, Carlo Goldoni.  

Santos e escritores formam a maioria dos destinatários, indicando, religiosidade à parte, uma predileção do autor pela literatura. Será provavelmente por isso, por esse gosto estético que atravessa tempos, fronteiras e circunstâncias históricas, que seu estilo, simples e leve, sabe estabelecer um diálogo prático e culto com seus admirados interlocutores. Ao escrever, elogia, mas apostrofa e critica; admira, mas separa o joio do trigo, explora relações entre o seu tempo presente e as épocas pretéritas. O próprio livro é uma prova de que seu autor navega numa espécie de presente contínuo, no qual cada contribuição específica dos destinatários vem aproximar-se não só dele, autor, mas de nós outros, leitores. Evidentemente, não devemos nem podemos esquecer que estamos diante de um pastor atento às angústias e dores do mundo, ao mesmo tempo conservador e crítico. Antes de ter sido papa, ele já possuía uma visão bifocal: “urbi et orbe”, como de resto deve ser a de qualquer pastor que deseje imprimir alguma transcendência ao seu rebanho.

De um modo geral, as cartas evitam cair naquilo que o psicólogo cognitivo Steven Pinker chamou de “a maldição do conhecimento”, a principal causa de uma prosa incompreensível. Essa frequente “maldição” “[…] é a dificuldade de imaginar como é, para o outro, não saber alguma coisa que você sabe” e daí não as dizer ou explicitá-las. No caso de “Humildemente vosso”, o então Patriarca de Veneza sempre nos deixa confortável em nossa suposta ignorância. Dir-se-ia que o seu estilo prima não só pela comunicabilidade como pela empatia. Eis por que se torna mais fácil compreender seu jogo textual com os vários tempos históricos e sociais de seus destinatários.

Enfim, quer sejamos católicos ou não, cristãos ou não, é certo que o então cardeal Luciani tem o que nos dizer e o diz com clareza. Mas o mais fascinante talvez seja sua habilidade em trazer o discurso de seus ilustres destinatários para conversar conosco e o nosso mundo. O futuro Papa Sorriso, uma vez tivesse se demorado no trono de Pedro, certamente escreveria tão boas encíclicas como as cartas desse livro, agora humildemente nosso.