Putin.

Desde 1987, quando Estados Unidos e União Soviética assinaram o tratado de desarmamento de mísseis nucleares de alcance intermediário, incluindo a destruição de arsenais nucleares, o mundo não temia uma ameaça de guerra nuclear. Do final da guerra fria até o histórico tratado, apesar das enormes tensões e guerras localizadas, a humanidade parecia protegida pelo chamado “equilíbrio do terror”, as duas potências nucleares evitando um confronto que levaria à destruição mútua. Agora, depois de fortes revezes na guerra da Ucrânia, o presidente russo, Vladimir Putin, tenta intimidar os ucranianos e seus aliados com o terror nuclear. Em cadeia nacional, nesta semana, depois de anunciar a mobilização de 300 mil novos soldados, afirmou com todas as letras: Quero lembrar a vocês que nosso país também tem vários meios de destruição, e alguns componentes mais modernos que os de países da Otan [Organização do Tratado Atlântico Norte]”. E acrescentou, “Se a integridade territorial do nosso país for ameaçada, nós, certamente, usaremos todos os meios ao nosso dispor para proteger a Rússia e o nosso povo”. Para dar força à sua ameaça, Putin afirmou que não estava blefando. Além de inverter a natureza do conflito, já que foi Putin que invadiu o território ucraniano, o presidente russo ameaça recorrer a armas de destruição em massa nesta guerra insana, despertando inquietação e medo de uma guerra atômica. O plebiscito que vai realizar neste final de semana em áreas da Ucrânia ocupadas por soldados russos deve servir para que ele anuncie como agressão ao território da Rússia as prováveis ofensivas das tropas ucranianas para retomada da região de Donbass.

Em artigo publicado esta semana no New York Times e no Estado de São Paulo, o jornalista Thomas L. Friedman parece concordar que Putin não está blefando, e manifesta séria preocupação com os desdobramentos futuros da guerra, principalmente com a evidência da humilhação do todo poderoso Vladimir Putin. Pelo visto, o presidente russo estaria apostando que, mais uma vez, o inverno ajude a Rússia numa guerra, com a quebra da unidade da Europa no apoio incondicional concedido, até agora, à Ucrânia. Mas deve ter registrado os sinais de reserva da China e da Índia com a guerra que está provocando a inflação sobre os alimentos e a energia, e castigando os 2,7 bilhões de habitantes de seus países E, não custa lembrar, por outro lado, que os fracassos da Rússia em diferentes guerras, da Guerra da Criméia à guerra do Afeganistão, passando pelo desastre da Primeira Guerra Mundial, provocaram profundos terremotos políticos no país, e o declínio dos seus líderes, algumas vezes de forma trágica. De qualquer forma, isolado no mundo e enfrentando resistências crescentes na própria Rússia, um Putin humilhado será uma grave ameaça à paz e à segurança global.