
Urso
O antológico samba “Amigo Urso” (de1941), do grande Moreira da Silva (1902–2000), bem capta o sentido negativo (ou, no limite, ambíguo) associado ao fabuloso animal. Os ursos, embora próximos do ser humano, são pouco confiáveis. Daí que de substantivo passe a adjetivo como no divertido samba aqui evocado: “Amigo urso, saudação polar. / Ao leres esta, hás de te lembrar / Daquela grana que te emprestei / Quando estavas mal de vida e nunca te cobrei”, logo emendando: “Hoje estás bem, e eu me encontro em apuros / Espero receber, e pode ser sem juros. / Este é o motivo pelo qual te escrevi. / Agora quero que saibas como me lembrei de ti […]”… “Amigo” e “urso”, após o último Acordo Ortográfico, passaram a ser uma palavra composta e, agora, como castigo e salvação, substantivo e adjetivo estão algemados por um hífen.
Essa, por assim dizer, negatividade do urso também está presente num remoto dito latino atribuído ao poeta Marcial (38–104 d.C.): “Bulirás no nariz de um urso vivo”, que era usado para significar que irritaremos a quem nos pode fazer mal; portanto, uma espécie de ancestral do nosso “cutucar a onça com vara curta” (onça viva, claro, porque, como diz o povo, “depois de morta, todo mundo enfia o dedo no cu dela”!). Não por acaso, um “abraço de urso” não é nada afetuoso, pois refere-se a um falso abraço e a um golpe que imobiliza… Com o termo “urso” também são carimbados personagens ríspidos e pouco sociáveis: um exemplo literário famoso é o Dr. Johnson (1709–1784), tal como o vemos biografado por James Boswell (1740–1795). Já o temor presente em nossas relações com esses animais aparece bem exemplificado na locução francesa “Il ne fault pas vendre la peau de l’ours avant de l’avoir tué” (“Não se deve vender a pele do urso antes de o ter matado”).
Não é de hoje que o imaginário do urso remete a uma negatividade, senão a uma contraditória ou ambivalente relação com os humanos. Há muito que se o teme, há muito que se o respeita. Seus encantos também não passam em branco e podem esbanjar fofura como no caso do ursinho Teddy, que nasceu nos Estados Unidos, ganhou o mundo e o coração das crianças. Não nativo no Brasil, o imponente mamífero chegou a nossas terras através do imaginário europeu e, como sabemos, deu (e dá!) o ar de sua graça no Carnaval nordestino com as populares “La ursas”, que, ao som de tambores, caixas e taróis, dançam e pedem dinheiro levadas por guia e coleira. Talvez seja o único caso em que pedir dinheiro seja algo realmente divertido.
Os ursos, embora temíveis (e bem podemos imaginar o quanto amedrontaram cidades e povoados), também tiveram seus dias de glória. Eram eles, e não os leões, os antigos reis dos animais. Só no século XII, o leão destronaria os ursos. Quem o diz é uma (!) fera: o medievalista francês Michel Pastoureau (1947), que, em “Os animais célebres”, aborda o imaginário animal do ponto de vista histórico. Como esclarece e justifica o autor, “[Os animais] estão presentes por toda parte, em todas as épocas, em todos os documentos, e sempre trazem ao historiador numerosas questões essenciais e complexas”. Para ele, “[…] o historiador nunca deve opor imaginário e realidade com muita ênfase […] O imaginário sempre faz parte da realidade”.
Num dos saborosos capítulos de seu livro, “O urso apaixonado por Antoinette Culet (1602–1605)”, Pastoureau nos fala de um dos casos mais bem documentados sobre a relação dos ursos com os humanos. A “heroína” da história era a filha de um abastado camponês do interior da França. Bonita e com apenas 16 anos, um dia desapareceu, não voltou do trabalho no campo para casa. A princípio, pensou-se num ataque de lobo, mas as ovelhas de que cuidava estavam todas intactas. Um urso a levou para sua caverna (que fechava com uma enorme pedra) e estabeleceu com a moça uma relação amorosa, na qual, além de sexo, havia um cuidado quase humano, pois, durante o dia, o animal roubava nas vizinhanças “tudo aquilo que a seu ver Antoinette precisava: pão, queijo, frutas e, às vezes, até roupas”. Esse martírio zooamoroso durou três anos.
Uma vez liberada de seu cativeiro, a bela e muito sofrida jovem confessou que nele tivera um filho, semiurso, semi-homem, que o gigantesco pai, ao querer abraçar, terminara matando semanas após o nascimento. É curioso ainda sabermos que o animal (que não morrera quando do resgate de Antoinette), ao se ver sem sua amada, voltou noites seguidas à fazenda dos Culet para, em altos berros, exigir que sua “mulher” voltasse para seus braços… Tornou-se, então, um alvo fácil e foi abatido a tiros de bacamarte. Quanto a Antoinette, foi exilada para um mosteiro.
Ao comentar o tremendo caso, Pastoureau assinala o quanto o culto do urso foi difundido no Hemisfério Norte, lembrando-nos que é o animal “cujo caráter antropomórfico é o mais afirmado”. Em meados da Idade Média, diz ele, nas tradições celtas e germânicas, é o urso que reúne “bestialidade e realeza”, não faltando inúmeros relatos que se referem a reis ou chefes como “filhos de urso, isto é, filho de uma mulher raptada e violentada por um urso” e, por isso mesmo, “guerreiros temíveis, fundadores de linhagens respeitáveis”.
Tais histórias de urso estudadas pelo medievalista francês talvez nos permitam entrever por que, na linguagem informal e com o traço semântico de “não confiável”, o “urso” passou a ser outro nome para o “amante” masculino. Imaginação à parte, para essa acepção, não há uma segura etimologia ou não há formalmente etimologia alguma. De certo, certo mesmo, apenas isto: os brutos são espertos e também amam!
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