
Internacional Democrata Centrista
A reconfiguração dos setores moderados na política brasileira
Nos dias 31/6 e 1/7 o presidente da Internacional Democrata Centrista – IDC, o colombiano Andrés Pastrana, esteve no Diretório Nacional do PSD com Gilberto Kassab, além de visitar o Palácio dos Bandeirantes, a Associação Comercial de São Paulo e FIESP[1]. O partido aderiu ano passado à entidade, antiga Internacional Democrata Cristã, presente em 83 países e integrando 113 partidos, que no Brasil também inclui o PSDB. A recente adesão pode ser vista como um novo elemento no reposicionamento programático dos setores de centro e centro-direita na arena política nacional, em meio à uma conjuntura internacional de polarizações na esfera pública, impulsionadas pelas redes digitais.
A IDC é a maior instituição interpartidária global, e representa um conservadorismo moderado com responsabilidade social e compromisso com o Desenvolvimento Sustentável. Sua última grande liderança é Angela Merkel, cujo partido tem como órgão de pesquisa e formação política a Fundação Konrad Adenauer – KAS (Konrad Adenauer Stiftung), substancialmente presente no debate público e acadêmico brasileiro. Em publicação recente da KAS, os cientistas políticos Guilherme Thudium (UnB) e Silvana Krause (UFRGS) apresentaram um mapa das relações internacionais entre partidos e identificaram entre as forças moderadas um fenômeno recorrente ao redor do planeta: com as políticas de bem-estar social consolidadas nos anos 1960, suas pautas voltaram-se para a gestão do Estado e menos na representação de grupos ou ideologias[2]. No Brasil, esta desconexão com a massa de eleitores provocada pelo foco na efetividade e conformidade legal levou estas siglas de alta representatividade a serem confundidas com o estigma pejorativo de “centrão”.
Constatamos um reposicionamento destes setores quando vemos a mobilização do MDB nos estados para reelaboração de seu programa partidário, bem como no debate público sobre a formação da federação União Brasil-PP[3], mais à direita. No caso do PSD – que em 2024 elegeu 891 e 640 vices, governa estados importantíssimo como Pernambuco, Paraná e Rio Grande do Sul, além de ser vice em São Paulo – o alinhamento a uma agenda moderada internacional pode fortalecer a identidade partidária. São partidos de alta capilaridade fortalecendo suas pautas, discursos e compromissos públicos, tanto para candidaturas próprias quanto para tornar mais claras quais convergências pode negociar e o que se torna inegociável. Deste modo, trago um panorama geral dos principais fundamentos da IDC sobre gestão pública e sua concepção da arena geopolítica global, além de apontamentos sobre como esta articulação internacional pode contribuir para que forças de centro revigorem suas atuações locais.
A Internacional Democrática Centrista e a forma de governar
Em volume também organizado pela KAS ano passado (em parceria com a Oficina Municipal), Joaquim Torrinha – português com ampla atuação em governança pela Organização Internacional para as Migrações (ONU) – descreve a IDC como herdeira da Democracia Cristã, ideologia política que combina elementos conservadores nos costumes com compromissos social-democratas, com orientação econômica social-liberal[4]. Abriga desde partidos de centro-esquerda, como o Partido Democrata Cristão Chileno, que apoiou Gabriel Boric no início de seu governo, e o Partido Justicialista da Argentina, que apenas saiu da IDC após uma guinada à esquerda de Alberto Fernandez, e outros mais à direita, como o Partido de Ação Nacional do México e o União Brasil, que saiu da entidade recentemente.
Fundada em 1961, com o nome de União Mundial da Democracia Cristã, em Santiago, a IDC reuniu organizações regionais da América e Europa surgidas na primeira metade do século XX[5]. Em 1999, passou a adotar o nome atual, mantendo a inspiração na Doutrina Social da Igreja, mas ampliando a inclusão de membros em países de maioria não cristã.
Abaixo, os seis objetivos da IDC conforme seu estatuto, combinados com seus princípios gerais apresentados no início do documento:
- Identidade política centrista, com rejeição a qualquer forma de extremismo (Princípio 4), promovendo o desenvolvimento inclusivo por meio do diálogo e do consenso (Princípio 11);
- Elaboração e divulgação de posições comuns entre os membros, com base na promoção dos direitos individuais segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos (Princípio 2);
- Articulação internacional entre partidos alinhados ao humanismo integral, pautado em valores como verdade, liberdade, responsabilidade, justiça e solidariedade (Princípio 3);
- Resposta aos desafios da sociedade global moderna, buscando o desenvolvimento humano sustentável, com conciliação entre interesses privados e públicos, além da preservação ambiental (Princípios 8 e 9);
- Democracia como pré-requisito para o desenvolvimento humano, político, econômico, social e cultural, tendo este padrão de qualidade na gestão pública (Princípio 6), com eleições livres, manutenção do Estado de Direito e o equilíbrio entre os 3 poderes (Princípio 7), além das formas de participação da sociedade civil (Princípio 10);
- Incentivar a participação de grupos subrepresentados na vida pública, como mulheres e jovens, garantindo a dignidade e rejeitando qualquer forma de discriminação (Princípio 1), promovendo a integração de todos na sociedade, começando pela família (Princípio 5).
Metade dos objetivos trata dos fundamentos defendidos pela IDC sobre a forma de governar e objetivos da gestão pública, quais seus valores democráticos. Assume a posição centrista e inclusiva, avessa à radicalismos e direcionada para a construção de convergências (Objetivo 1) e adotando o Estado Democrático de Direito como pré-requisito para a efetividade do desenvolvimento humano, político, econômico, social e cultural”, com eleições livres e mecanismos de participação da sociedade civil (Objetivo 5), combatendo a exclusão e incentivando a participação política de “grupos subrepresentados”, sem o abandono de instituições conservadoras, como a família (Objetivo 6). Considerando o já mencionado “tecnicismo”, que descolou os setores moderados de seus eleitores, estes objetivos colocam o problema da inclusão no centro do debate sobre efetividade e Qualidade da Democracia, de modo que os eleitores podem conseguir visualizar resultados no dia-a-dia. Também contempla tanto agendas de esquerda quanto de direita, confirmando o apontado por Torrinha. A seguir, será tratada a outra metade dos objetivos, que descreve como a IDC orienta a difusão internacional destes fundamentos gerenciais e a arena geopolítica atual.
A IDC em relação ao mundo
A atuação em rede internacional e o estímulo à integração entre países, do local ao global, sempre estiveram no DNA da entidade, conforme indicam os objetivos 2 a 4. Entre as resoluções da última Assembleia Geral (são duas por ano), promovida na Costa do Marfim um mês antes da visita de Pastrana ao Brasil, duas tratam diretamente de questões globais[6], pois a maioria trata de questões em países específicos: uma sobre a relevância do Fórum Religioso nas reuniões do G20, dado que mais de 80% da população mundial professa alguma religião, o que torna fundamental a busca de consensos interreligiosos que afirmem a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” (Objetivo 2); e outra sobre o problema da fome diante das instabilidades econômicas globais vistas nos últimos cinco anos (Objetivos 3 e 4). Ambas se conectam com resoluções da Assembleia Geral realizada em abril de 2024, em Marrocos[7] — provavelmente o encontro recente mais relevante da IDC em termos de resoluções universais.
Na ocasião, destacaram-se três resoluções sobre a relação entre paz, democracia e religião (ligadas ao Fórum Religioso), e uma sobre o novo contexto nas relações econômicas entre Norte e Sul globais (ligada à pobreza e à fome). Sobre esta última, onde estão implícitos todos os objetivos da entidade materializados em termos geopolíticos e econômicos, foram sistematizadas quatro diretrizes sobre a cooperação entre países em desenvolvimento e os desenvolvidos:
- Superar o paradigma tradicional de cooperação Norte-Sul, valorizando as inovações do Sul Global em demografia, energia, tecnologia, capital humano e infraestrutura;
- Reconhecer o protagonismo crescente de alguns países do Sul Global, capaz inspirar a criação de novas formas de geração de riquezas, desenvolvimento e estabilidade global;
- Estabelecer cooperação em torno de linhas de trabalho concretas, gerando riqueza e desenvolvimento mútuos;
- Apoiar política e financeiramente as reformas originadas no Sul, reforçando a democracia, a liberdade econômica e a sustentabilidade.
Eles priorizam nesta cooperação os potenciais de “ganha-ganha”, sem opor “Centro” e “Periferia”. Reconhecem a importância dos mais fortes oferecerem de ajuda financeira e política aos mais frágeis, para que estes atinjam o desenvolvimento sustentável em seus aspectos sociais, econômicos e ambientais, mas com uma medida precisa para a otimização de potenciais, efetividade que apenas seria possível com o aperfeiçoamento da Qualidade da Democracia. Estes quatro tópicos resumem bem como pensam soluções e complementaridades entre realidades diversas e, sobretudo, difusão dos valores sistematizados em seus objetivos, e sugerem ajuda internacional condicionada ao foco em resultados prováveis.
Balanço sobre a internacionalização como instrumento para identidade partidária
O enfoque crescente na qualidade da gestão — e o consequente afastamento das bases sociais — observado nos partidos moderados desde os anos 1970, conforme apontado por Thudium e Krause, ajuda a entender porque estes responsáveis pela construção dos principais consensos políticos dos últimos 50 anos hoje são confundidos pelo eleitorado com o chamado “Sistema”. Ao se associarem internacionalmente — sobretudo em uma conjuntura conectada por redes digitais —, partidos de centro conseguem se apresentar como atores políticos não-estatais, indo além de pautas burocráticas e tratando de questões sociais, econômicas e ambientais globais que atingem o cotidiano das pessoas, recuperando a conexão com os cidadãos.
Além de outros mecanismos de oxigenação da relação com a sociedade civil utilizados pelos outros partidos centristas já citados, como a revisão programática ou o engajamento em polêmicas nacionais e internacionais, a adesão aos princípios da Internacional Democrata Centrista pode fortalecer significativamente a identidade pública do PSD, fortalecendo ainda mais sua conexão com o eleitor. Isso contribui para orientar suas declarações na esfera pública, no embate com forças divergentes e para catalisar convergências com outras forças políticas ideologicamente não alinhadas de modo radical.
Mais do que se preparar para disputar um cargo em 2026, trata-se de alinhar, de forma lógica e transparente, as constatações de suas lideranças e pesquisadores — que são muitos e de qualificação máxima, como se pode observar nos trabalhos do “Espaço Democrático”, seu órgão de formação e formulação. Independentemente de encabeçar candidaturas majoritárias, trata-se de oferecer sentido político claro ao eleitorado: o que o partido quer e o que não quer, o que pode apoiar e o que não pode.
[1] – A notícia sobre a visita de Andrés Pastrana publicada na Fundação Espaço Democrático, do PSD, pode ser conferida em < https://espacodemocratico.org.br/noticias/dirigentes-da-internacional-democrata-centrista-visitam-psd/ >, publicada em 1/7/2025.
[2] – THUDIUM, G.; KRAUSE, S. (2022). Os partidos poli?ticos em uma ordem global em transformac?a?o: das associac?o?es internacionais aos partidos supranacionais europeus. CADERNOS ADENAUER (SÃO PAULO), v. XXIII, p. 131-146, 2022. Disponível em < https://www.kas.de/pt/web/brasilien/einzeltitel/-/content/die-globale-ordnung-im-wandel >. Publiquei em 2024 um artigo sobre o problema em se estigmatizar forças não alinhadas ideologicamente, que pode ser lido em < https://revistasera.info/2024/01/a-articulacao-das-liderancas-ideologicamente-nao-alinhadas-e-o-estigma-de-centrao/ >.
[3] – Publiquei recentemente sobre o processo de reformulação do programa partidário do MDB, em texto que pode ser lido em < https://bonifacio.net.br/novo-programa-do-mdb-e-a-organizacao-de-uma-agenda-moderada/ >, e detalhes a respeito da formação da Federação União Brasil-PP podem ser conferidos em < https://uniaobrasil.org.br/2025/04/29/uniao-brasil-e-progressistas-pp-oficializam-federacao-partidaria/ >.
[4] – TORRINHA, Joaquim (2024). Ideologia e doutrina partidária. In: Partidos Políticos. Org. J.M. B. Carneiro, G. A. P. Daltro Santos, R. Borella e E. Santos Brito. São Paulo: Oficina Municipal e Fundação Konrad Adenauer. 2024. p.29-60. Disponível em:< https://oficinamunicipal.org.br/portfolio/tres-poderes-e-sociedade-no-brasil-serie-cidadania-e-politica-livro-04/ >.
[5] – O histórico completo da Internacional Democrata Cristã está em < https://idc-cdi.com/history/ >, e o estatuto pode ser visto em < https://idc-cdi.com/legal/ >.
[6] – A “Resolution on Fostering International Peace, Security, and Prosperity through Cooperation between the G20 Religion Forum (R20) and IDC-CDI” está disponível em:
e a “Resolution on the 2024 Report on the Global Hunger Situation” está em < https://idc-cdi.com/wp-content/uploads/2025/06/Resolution-on-the-2024-Report-on-the-Global-Hunger-Situation.pdf >.
[7] – Todas as resoluções da Assembleia Geral da IDC de abril de 2024 estão disponíveis no seguinte documento: < https://idc-cdi.com/wp-content/uploads/2024/04/240413_Resolutions_PDF.pdf >.
Que apanhado fantástico e necessário.