
Chatos
Confesso que o chato como tema refoge à minha limitada competência. Não direi que isso me chateia, mas me desaponta. Para me apoiar neste presente e difícil transe, serei cauteloso, pois subirei, mesmo com medo de cair, “em ombros de gigantes”.
Em princípio, talvez a paciência com os chatos deva começar diante do espelho. Longe de mim quebrar esse espelho. Como quer que seja, há graus tão altos quanto variados de chatice. Vale dizer que há uma tipologia a ser estudada. Como se vê, o tema é mais para tratados do que para uma singela crônica de um não cronista.
Nosso primeiro gigante é o Bruxo do Cosme Velho, que, em “Primas de Sapucaia!” (note-se o ponto de exclamação do autor), de “Histórias sem data”, lembra-nos que os chatos nem sempre são natos, que podem ser, por assim dizer, ocasionais. Naturalmente, para não ser chato, não darei “spoiler” do conto machadiano. Noto apenas que a relativização e o simbolismo do narrador tornam magnífico o curto parágrafo inicial, que assim está escrito: “Há umas ocasiões oportunas e fugitivas, em que o acaso nos inflige duas ou três primas de Sapucaia; outras vezes, ao contrário, as primas de Sapucaia são antes um benefício do que um infortúnio”. Enfim, tornam-se chatos os que chegam ou estão em momento inoportuno; no caso, o narrador e protagonista vê passar na rua uma mulher com quem namorara e perdera de vista e por quem ainda muito se interessava, mas, naquele momento, não pode segui-la como gostaria, pois… está ciceroneando as primas de Sapucaia, que vieram à cidade grande! Umas empata-fodas! Enfim, há chatos que nascem das circunstâncias…
Em seu “O dicionário do diabo”, Ambrose Bierce (1842–1914) dispara sobre o chato: “Pessoa que fala quando gostaríamos que nos escutasse”. Nessa linha, nosso inesquecível Millôr Fernandes (1923–2012) pondera: “Chato é uma pessoa que não sabe que ‘Como vai?’ é um cumprimento, não uma pergunta”. (Eis-me já suspeitíssimo de ser um chato, incluído que estou no rol dos tagarelas). Logo se conclui que os chatos jamais são mudos ou silenciosos. Será que chato que ladra não morde? Mas todos ladram e mordem… Quem é detalhista também pode estar num vasto subgrupo; nesse sentido, novamente Millôr tem uma excelente percepção: “Chato é um sujeito que conta tudo tim-tim por tim-tim e depois entra em detalhes”.
Uma coisa é certa: não nos esquecemos facilmente dos chatos. Ao longo da vida, conhecemos vários, que, vistos num passado remoto, até se tornam divertidos. Se já estão mortos ou distantes, que bem-estar sentimos! Muitos deles são monotemáticos, outros narcisistas (narcisistas “estruturais” para usar um adjetivo da moda), alguns metidos a ser o que não são, outros ainda cuja lembrança nos faz estremecer as soldas do coração.
Àqueles que amam os salões da vida mundana, direi apenas: prestem atenção aos sinais. Nisso também o bom Millôr nos ajuda: “Chato é o sujeito que tem um uísque numa mão e nossa lapela na outra”. Sim, o chato é um espaçoso, embora nem sempre seja um grosseiro. Há chatos finíssimos e bem educados, a exemplo dos esnobes (outro subgrupo famoso e já literariamente estudado), que sempre têm um entendimento superior, a última palavra, e que estão atentos a pequenos nadas cognitivos e sociais, uma vez que, como escreveu Marcel Proust (1871–1922), a vida mundana não passa de uma “nulidade”. Em sua obra “Em busca do tempo perdido”, o narrador nos lembra como os chatos e maçantes (os “ennuyeux”) eram temidos, no salão dos Verdurin. Mas, justamente por serem chatos, eles sempre aparecem em todos os salões.
Concluo com o já saudoso Dalton Trevisan (1925–2024). No livro “Mistérios de Curitiba”, ele escreveu um breve e antológico texto intitulado “Senhor”, título que oculta um verdadeiro poema em prosa alusivo aos chatos. Nele o um irônico eu lírico suplica a Deus que o livre dos chatos. Eis, convenhamos, uma “oração” difícil de ser atendida. Os chatos brotam do nada, e para eles é sempre primavera.
Eis, para terminar, alguns trechos da daltoniana “oração”: “Livra-me dos chatos e te agradecerei, ó Senhor […] De piolhos cobre-me a cabeça, esconde o meu óculo, Senhor, mas livra-me dos chatos […] De Curitiba, fugiram os teus anjos, Senhor, e se fugiram, eles que eram anjos, que será de mim? Tuas pestes, Senhor, não afetam os chatos, são intocáveis ao Teu dedo? […] Não te entendo, ó Senhor, por que respeitas a eles, que são chatos. […] Estragam ainda na xícara o gosto do café. Azedam o leite no seio da mulher grávida. […] Arrasta-me na cinza como fizeste com Jó. Ah, os amigos que mandaste a Jó não eram três chatos, Senhor?”.
Paulo Gustavo escreve tão bem que até tenta disfarçar, mas um artigo sobre chatura não tem como não ser chato.
O artigo me fez lembrar do “chato catalitico” descrito por Guilherme de Figueiredo em seu Tratado Gersl dos Chatos. Quando chega em uma rodinha, em um local, ele não precisa falar nada, não necessita cumprimentar ninguém, basta sua presença física para que a chatice paire sobre o ambiente.