Néstor Canclini

Néstor Canclini 

Com um título inspirado numa passagem de Hugo de São Vítor (1096–1141), filósofo e teólogo medieval, Néstor García Canclini (1939), o grande antropólogo argentino, discute, no ensaio “O mundo inteiro como lugar estranho” (em livro homônimo de 2016), não só a perda da intimidade como a impossibilidade de ser estrangeiro no mundo atual, mostrando-nos como ambos os temas estão profundamente imbricados.

A passagem tomada a Hugo de São Vítor diz: “Quem acha sua pátria doce é ainda um tenro aprendiz; quem acha que todo solo é como o nativo, já é forte; mas perfeito é aquele para quem o mundo inteiro é um lugar estranho”. Esse pensamento, embebido de uma mística cristã, evidentemente é ressignificado por Canclini.

Para o antropólogo argentino, “Já não há lugar para onde se ir”. Ou seja, tornou-se impossível a “estraneidade”, a situação jurídica de ser estrangeiro. “A privacidade, observa ele, vai se esfumando por conta da cumplicidade dos governos e das empresas, que dão ao mesmo tempo serviços de comunicação e de vigilância”.

Embora os migrantes criem “comunidades transnacionais”, crescem as perseguições políticas, a violência e a xenofobia, esta última, em alguns países, praticamente transformada numa política de Estado. Por outro lado, surge o que Canclini, num oportuno neologismo, chama de “insílio”, o “exílio” daqueles que,  em seu próprios país, são “desqualificados como cidadãos”. Muitos desses “estrangeiros-nativos” são povos originários cujos bens culturais se transformaram em mercadorias turísticas.

À constatação citada de que “já não há lugar para onde se ir”, sucede uma mais conclusiva e que marca os tempos atuais:  “A novidade contemporânea é não poder ser estrangeiro”. E isso, explica o antropólogo, porque para “ser estrangeiro é necessária, além da diferença, a intimidade”, o que é impedido pelas redes digitais, “onívoras de vigilância” e exterminadoras de qualquer intimidade…

A título de pitoresca ilustração da atual penúria da intimidade pessoal, o ensaísta nos conta uma historieta que poderia ter se passado com qualquer de nós.  Narra ele que o escritor e filósofo catalão Rafael Argullol (1949) foi a uma concessionária (onde nunca tinha estado antes!) comprar um carro e, por ser alto, ficou preocupado com o ajuste do volante. Qual não foi sua surpresa ao ouvir o consultor de vendas dizer : “— Como o senhor mede 1,87 m…”! Intrigado, questionou: “Como o senhor sabe minha altura?”. O consultor disse-lhe que estava no computador da loja, aliás onde também constava uma cirurgia que Argullol havia realizado nas costas!…

Não sem nos espetar uma estimulante ironia, Canclini nos diz que, apesar do “[…] aumento da vigilância política e militar, nenhum especialista previu a queda do Muro de Berlim, nem das Torres Gêmeas, nem as revoltas árabes, nem os movimentos de protesto de 2013 em oitenta cidades brasileiras [as hoje chamadas ‘Jornadas de Junho’]”. Para ele, tais eventos “[…] são tentativas de não ter de ir embora do próprio país, nem sentir que não há lugar para onde se ir”. Segundo Canclini, as pessoas querem mudanças para se sentirem num território próprio, que lhes pertença. Nesses movimentos, ele constata a reinvindicação daquilo que “deve ser comum e acessível a todos”, a exemplo da educação, das intervenções urbanísticas, da gestão dos bens naturais e sociais. Eis aí o verde farol da esperança.

Não devemos, conclui o antropólogo, superestimar o poder dos celulares e das redes digitais (tampouco, diga-se, subestimar!)… Enfim, “O mundo inteiro como lugar estranho” nos encoraja a vencer o pessimismo, pois temos razões de lutar para tornar menos estranho o que vai se tornando mais estranho ou, conforme a circunstância, para tornar mais estranho o que vai se tornando menos estranho.