
Av Paulista
Quem precisaria ler isto, eu sei que não vai ler, nem lê coisa nenhuma.
Não posso acreditar que São Paulo tem tudo isso de quinta-coluna. Tudo isso de traidor da pátria, tentando seduzir Trump? Para mandar caças bombardear o STF e impedir o julgamento de Bolsonaro? Ou dizendo a Trump que as tarifas de 50% e mais impostas ao Brasil e à Índia estão certas? Eu acho é que os intelectuais estão subestimando o grau de analfabetismo funcional da população em geral. Acho que essa gente não sabe o que está fazendo, é uma multidão que está sendo manipulada por religião e nem a Bíblia lê. E não falta pastor a sugerir que ser julgado e condenado por homens “não importa se apesar de tudo Deus está comigo”.
Não sabe o significado de tarifas, nem sabe que é preciso distinguir entre uso econômico e político. Lembrará ao menos que um imposto sobre importação aumenta o preço do produto importado? Já não sabe a distinção entre colonizador e colonizado, que lutas de libertação nacional são do século passado. Nem sabe de fato o que significa abuso de poder e que isso é usado também entre nações. É capaz até de acreditar que as tarifas estão sendo impostas porque o governo brasileiro deixou. Como pode algum brasileiro neste momento carregar alegre a “bandeira das estrelas e listras”? Será possível que acreditam mesmo que Trump pode impedir a condenação da liderança golpista?
Não têm ideia do que seja “instituição” e muito menos a relação entre instituições e o regime de governo, se democracia ou ditadura. Não têm ideia da diferença entre os chamados Três Poderes, Judiciário, Legislativo e Executivo. Nem as funções e responsabilidades que a Constituição atribui a cada um. Imensas manifestações de massa sem reivindicação a aplaudir chefes exaltados remetem à ascensão de líderes autoritários, ao fascismo dos 1940s. Não expressam a vontade do povo se não encontram seu caminho até a cabine eleitoral em segredo e segurança. Enfim, estou convencida de que essa multidão não tem noção do significado de seus atos. Essa multidão não se deu ao trabalho de ler nada, nadinha, nem mesmo a biografa do líder máximo deles. Não tem a menor noção do absurdo que é uma manifestação para deixar solto no Brasil um criminoso, em favor disso estendendo a bandeira dos Estados Unidos.
Aliás, tampouco sabe bem o que é golpista ou golpe. O golpe de 1964 está esquecido, esse golpe que Bolsonaro sempre louvou, sem disfarçar, até defesa da tortura ele fez, e não só no recinto do Congresso. Afinal já estamos em regime democrático (ainda que brutalmente desigual, a beira do disfuncional) há 40 anos. E estamos há quase 10 anos ouvindo que houve um golpe, esse perpetrado pelo Congresso, em que ninguém sofreu nada, ninguém foi perseguido, ninguém foi demitido, ninguém foi preso, um golpe em que a “vítima” sequer perdeu direitos políticos. Enfim a ideia de golpe já não causa nenhum alarma. E aos argumentos jurídicos minuciosos ninguém presta atenção.
E o pior, nessa multidão nem há ninguém que saiba por que “quinta-coluna” significa traidor da pátria, ninguém que tenha sequer ideia do que foi a Guerra Civil espanhola. Não conhece a longa história de traidores da pátria que deixa alarmados os que conhecem a história de seu país. E por que “quinta-coluna” se refere a indivíduos ou grupos que, dentro de uma organização, país ou movimento, atuam para prejudicar o próprio país. É como se fossem infiltrados, trabalhando contra os interesses do grupo ao qual pertencem. A expressão surgiu durante a Guerra Civil Espanhola (1936–1939). O general Emilio Mola, aliado de Francisco Franco, marchava sobre Madri com quatro colunas militares. Ele declarou que, além dessas, contava com uma “quinta coluna” já dentro da cidade — simpatizantes franquistas infiltrados entre os republicanos, prontos para sabotar a resistência por dentro.
Então, nossos manifestantes convocados por um pastor como Malafaia nem são “quinta-coluna” no sentido clássico. São quinta-coluna confessa, aberta, declarada e descarada. Porque não têm noção do que fazem. Nem é culpa deles, indo como bois para o matadouro. Não sabem que golpe e ditadura são desgraças. Que o simples fato de poderem estender essa bandeira de um país cujo presidente é um chantagista e torturador de imigrantes já prova que não há ditadura no Brasil.
São Paulo, 7 de setembro de 2025
A leitura desse artigo teu, Helga, lavou minha alma
Parabéns Helga, texto bom, leitura obrigatória.
Helga, Entre a ignorancia e o saber popular, como ficamos! Enquanto lastimamos a quinta coluna, devemos reconhecer que ha um anseio mal definido mas na direcao de um corretivo. Lula e a esquerda estao praticamente ultrapassados e seu discurso em favor do pobre e do Estado como o “promotor” do desenvolvimento nao convence. A direita bolsonarista tambem estatista e nao convence que tem alternativa. Mas o discurso moralista, anti aborto, anti gay, anti isso e anti aquilo ainda cola entre um povo batido e apanhado. Algo simples e intuitivo. O bom ainda é passar em concurso publico, mas a meninada sabe que o Estado nao tem capacidade de absorver todo mundo. Nao ha padrinho suficiente. O moralismo do Malafaia e dos evangelicos atrai em seu simplismo e a oportunidade, embora ilusoria, de ser estrela de internet ou influencer atrai mais do que fazer acampamento com o MST. Aonde é que vamos achar um bom senso num mundo de polos opostos?
Caro Steve Scheibe, é verdade que se a gente pensa, com todo o esforço para conter a indignação contra isso e contra aquilo, no longo prazo, ou mesmo no cruto prazo até 2026, a situação está de desanimar. Eu fico só no “sou contra”, pois é. Também estou a procura de algum político ou linha política para ser “a favor”, em campo, não em troria, omo eu era a favor do Presidente Fernando Henrique Cardoso e seu Ministro da Fazenda, Pedro Malan, e do seu Ministro da Saúde José Serra, etc. A polarização é uma desgraça, e infleizmente nem é só no Brasil.