
Favela
Depois do retrato cultural traçado no artigo Brasil, um país tradicionalista, há um segundo plano decisivo para compreender o Brasil contemporâneo: o da exaustão. Os brasileiros que irão às urnas em 2026 carregam menos entusiasmo e mais fadiga. É um país marcado pelo cansaço cotidiano, pelo estresse permanente e pela sensação de estar sempre correndo atrás de uma sobrevivência que nunca se estabiliza. Para muitos, o que já está difícil pode sempre piorar.
Essa realidade surge de forma nítida no livro Brasil no Espelho, de Felipe Nunes. O estudo registra um traço revelador: os brasileiros continuam sonhando e batalhando por um futuro melhor, mas o fazem cada vez mais de forma individual. Segundo a pesquisa, 51% se movem por esse impulso; uma esperança que existe, mas que se expressa menos como confiança em projetos coletivos e mais como esforço solitário.
O cansaço, porém, não é apenas físico. É também psicológico. Renda instável, endividamento e a ausência de redes de proteção efetivas produzem uma sensação permanente de vulnerabilidade. Não se trata apenas de ganhar pouco, mas de nunca ter certeza de que o amanhã será melhor do que o hoje. Qualquer imprevisto parece capaz de derrubar o frágil equilíbrio da vida cotidiana.
Nesse contexto, o empreendedorismo ganha importância, menos como vocação e mais como estratégia defensiva. O desejo de “ter o próprio negócio” surge como promessa de controle sobre a própria vida, uma forma de escapar de chefes, horários rígidos e salários considerados insuficientes. Mas, para muitos, esse impulso não nasce do sonho de inovar; nasce da necessidade de sobreviver. O livro resume esse fenômeno como “empreendedorismo de exaustão”: menos CLT e mais CNPJ, não por escolha, mas por falta de alternativa.
A contradição é evidente. A autonomia prometida convive com precariedade real. O “empreendedor” surge sem capital, sem proteção social, sem segurança previdenciária e sem garantia de renda. Ainda assim, o imaginário da autonomia segue poderoso porque oferece algo escasso: a sensação de escolha em um cotidiano marcado por restrições.
Esse quadro alimenta um traço profundo da cultura política brasileira: o individualismo resignado. A maioria acredita que, no fim das contas, só pode contar consigo mesma. O esforço pessoal e o mérito aparecem como valores, mas não no sentido clássico do otimismo meritocrático. São valores atravessados pelo desamparo. A crença na solução individual nasce menos da confiança e mais da baixa expectativa em relação às soluções coletivas.
Curiosamente, esse individualismo convive com uma leitura dura da realidade social. Muitos reconhecem que a vida é difícil, que as oportunidades são desiguais e que a riqueza nem sempre decorre do trabalho. Ainda assim, há resistência a políticas públicas focalizadas nos mais pobres. A pobreza tende a ser explicada como falta de esforço individual, enquanto a desigualdade estrutural aparece como problema distante e abstrato.
Daí decorre um obstáculo prático para políticas redistributivas direcionadas. A maioria defende que o Estado ofereça educação, saúde e serviços básicos para todos, mas rejeita ações que diferenciem grupos específicos. Políticas universalistas são vistas como justas; políticas focalizadas, como privilégios. Mesmo programas com histórico comprovado de redução da pobreza enfrentam resistência, pois são interpretados como incentivos à acomodação. Em outras palavras: o pobre deve “fazer por merecer”.
Esse raciocínio também se projeta sobre ações afirmativas. Embora haja amplo apoio à educação pública e gratuita, medidas como cotas raciais encontram rejeição significativa. A igualdade é entendida como tratamento idêntico, não como compensação de desigualdades históricas. Valores como meritocracia, religiosidade e visão crítica do Estado, identificados em Brasil no Espelho, aparecem inclusive entre eleitores historicamente associados à esquerda.
O eleitor que emerge desse quadro é menos movido por grandes projetos e mais por dilemas cotidianos. Busca previsibilidade econômica, menor interferência na vida imediata e alguma chance de ascensão individual. Ao mesmo tempo, desconfia do Estado, rejeita políticas focalizadas e aposta em “dar um jeito”. O jeitinho, longe de traço folclórico, funciona como estratégia de sobrevivência em um sistema percebido como hostil.
É nesse ponto que reside uma das maiores dificuldades da esquerda. Ela ainda não conseguiu formular um projeto que dialogue diretamente com esse estado de espírito. Presa à linguagem das soluções coletivas e à imagem da CLT, frequentemente ignora o vasto contingente que migrou para o trabalho autônomo, informal ou uberizado.
Compreender esse Brasil exausto é essencial para entender o cenário que se aproxima. Não se trata de um país em ebulição ideológica, mas de uma sociedade cansada, pragmática e defensiva, um eleitorado que decide menos por utopia e mais por sobrevivência. Ignorar esse dado é, talvez, o maior erro que qualquer projeto político pode cometer em 2026.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação
Já foi muito interessante o seu artigo anterior “Brasil, um país tradicionalista”. Mais ainda este seu “A exaustão dos brasileiros”. Percepção aguda, sem tentar enfeitar o que viu. Achei muito convincente. Só que “desconfiar do Estado”, no Brasil, é racional e vem da experiência do cotidiano. Vem de mais informação, de suspeitar que na verdade é o Estado o maior produtor de desigualdade. A desconfiança geral abrange o “estado”, incluídas as leis. Sua análise capta o que está acontecendo com a opinião pública, tendo a concordar. É isso aí, dá um pouco de tristeza e desânimo. Gostaria de saber se “maior tolerância ao risco”, em geral, também é considerado na pesquisa como típico da “alma brasileira”. Vou comprar o livro de Felipe Nunes.
Helga, obrigado pelo comentário tão preciso. Concordo com você: no Brasil, a desconfiança do Estado é menos ideológica e mais fruto da experiência cotidiana. Ela nasce do contato repetido com instituições instáveis e da percepção de que o próprio Estado, muitas vezes, produz desigualdade. Quanto ao risco, o livro do Felipe Nunes não aponta uma “maior tolerância” como traço típico. O que aparece é quase o oposto: uma sociedade avessa ao risco, mas obrigada a conviver com ele num ambiente imprevisível. As pessoas não gostam de arriscar; arriscam porque não há alternativa clara. Talvez o traço mais forte seja mesmo a fadiga, esse cansaço difuso que o livro ajuda a revelar. Os artigos vão formar uma trilogia…Ainda vem mais um na pxima semana! E fico feliz que você vá ler o livro.
Abraço,
Hubert