
Julia Mann
(Notas sobre “O regresso de Julia Mann a Paraty”, de Teolinda Gersão)
Em texto que escreveu para a obra coletiva “Julia Mann: uma vida entre duas culturas”, publicada em 1997, o romancista João Silvério Trevisan pontuou, não sem razão, que “Foi a presença disruptiva de Julia que permitiu a vocação literária de Heinrich e Thomas”. Trevisan, como se sabe, empreendeu vasta pesquisa sobre a família Mann para criar seu romance “Ana em Veneza”, publicado em 1994, onde a brasileira Julia é uma das personagens principais.
Mais recentemente, em 2021, embora numa outra chave ficcional ou, se quiserem, noutro “modus operandi”, Julia da Silva Mann também protagoniza outro romance, “O regresso de Julia Mann a Paraty”, de autoria da premiada escritora portuguesa Teolinda Gersão. É sobre esse livro singular, “psicanalítico” e híbrido, que diremos aqui algumas palavras de admiração e análise neste ano em que se comemoram os 150 anos de Thomas Mann.
“O regresso” não é exatamente um romance, não pelo menos no sentido convencional do termo. É um livro em que a ficção está a serviço da biografia, ao qual não falta, ressalte-se, uma visão autobiográfica de seus personagens nada imaginários, a saber: Freud, Thomas Mann e sua mãe. O plano psicológico e introspectivo é naturalmente o dominante, sem embargo do amplo contexto histórico por vezes abordado. Três grandes divisões se nos apresentam: “Freud pensando em Thomas Mann em dezembro de 1938”; “Thomas Mann pensando em Freud em 1930” e “O regresso de Julia Mann a Paraty”. Essa estrutura frustrará quem for procurar na obra um enredo que entrelace essas partes, não obstante estarem visceralmente unidas pelas verdades factuais e históricas dos seus personagens. No mais, Gersão aborda os seus, digamos, “personagens-tema” de uma forma que nos parece justa e equânime.
Freud e Mann nos surgem como o que de fato foram: espíritos afins e de certa forma complementares. Mas, como nos “Exercícios de Admiração”, do franco-romeno Cioran, logo vemos que a autorreflexão de ambos e a visão de um sobre o outro não se furtam a uma por vezes contundente crítica. Um inquieta-se com o outro, como se fossem mútuos duplos, e se leem com desconfiança e atenção. A pretexto de “falarem em pensamento” um do outro, também falam de si mesmos. E nisso também se revela a maestria de Teolinda Gersão. Nota-se como a grande romancista portuguesa, também uma germanista, domina enormemente a vida e o caráter de ambos os pensadores. Sua precisão e sua fluência são impressionantes, pois é visível a propriedade de sua expressão e a comunicabilidade coloquial de seu texto. Seu discurso, rico em elementos biográficos e históricos, põe-nos em meio aos pensamentos mais íntimos de Freud e de Mann e nos evidencia seus narcisismos e suas angústias, tão implacáveis quanto aparentemente inevitáveis.
Na última parte, que batiza o livro, Gersão mostra por inteiro a fascinante personalidade de Julia, fluminense, de família abastada, parcialmente criada em Paraty e mestiça por possuir sangue branco e indígena. Seu pai, alemão, comerciante e latifundiário, ao casar-se com sua mãe brasileira, torna-se ainda mais rico. O perfil paterno, traçado por Gersão, realça que foi “Um colonizador, treinado para explorar dinheiro rápido, como, aliás, todos: portugueses, italianos, alemães, holandeses, franceses, ingleses eram farinhas do mesmo saco e queriam o maior lucro, e o mais rápido possível”. Ao precocemente enviuvar, quando Julia mal contava sete anos, ele leva os filhos para a Europa para viverem com sua família. Julia sofrerá um choque cultural e um trauma que inflamarão sua personalidade já de si mesma sensível. É um tempo, como recorda Gersão, em que os Trópicos, na visão de uma sociedade europeia racista e burguesa, eram malvistos e percebidos como inferiores, inclusive como local de doenças mortais e incapacitantes. Julia era uma “mestiça”, e “mestiça” significava “inferior e diferente”. Daí a dor com que sempre teve de conviver!
“Disruptiva” e dionisíaca, Julia não disfarçava a sua embaraçosa origem, inclusive nunca dispensava o “da Silva”, signo e selo de seu exotismo. Além disso, num viés antecipadamente feminista, não se conformava com “o lugar da mulher” na sociedade burguesa, patriarcal e opressora. Bela e sensual, possuía uma vocação artística sufocada pelas circunstâncias sociais e familiares, pois amava cantar, tocar e escrever (Mann também herdará da mãe a paixão pela música). No mundo alemão que lhe fora imposto, ela nunca se consolou da própria ausência! Não por acaso, numa atitude emblematicamente significativa, ela apoia a vocação literária do primogênito Heinrich e do filho que ganharia o Nobel, e isso muito ao contrário do pai, que os desencorajava para a literatura e os queria para os negócios.
Mal sabia ele, o pai, Thomas Johann Heinrich Mann, falecido em 1891, que o drama familiar (fermentado pela belicosa rivalidade entre Heinrich e Thomas, pelo suicídio da filha Carla, atriz, e por um caçula que não possuía seu sangue!) seria um dia genialmente transposto para a literatura, como vemos em “Os Buddenbrook”. Mal podia adivinhar que Julia, com seus traços inconfundíveis, simbolicamente ressurgiria em vários personagens de ambos os filhos escritores. .
Em seu regresso ao Brasil imaginado por Teolinda Gersão, Julia flui pelas águas da vida que viveu (“Nenhuma casa tornaria a prendê-la”) até voltar ao paraíso perdido de sua infância brasileira. Com feliz inspiração, a romancista lusa escolheu o mar para salvar Julia de suas próprias distâncias, de “sua fuga permanente”. São águas de um oceano pessoalmente mítico e que cumpre atravessar para se encontrar consigo mesma.
Amigo Paulo Gustavo:
Por sua influência, li o livro dele, A Montanha Mágica. Bem escrito e bem traduzido, até onde posso avaliar.
Agora, com a história da mãe dele, a minha gratificação se completa.
Abraços.