Parque do Flamengo

Parque do Flamengo

O Parque do Flamengo, às margens da Baía da Guanabara, está completando seis verdes décadas. Com seus 1,2 milhão de metros quadrados, é de uma ímpar beleza paisagística. Reúne, num só espaço, passagem e permanência. Lá estão, como se sabe, o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, o Museu Carmen Miranda, a Marina da Glória e o Museu de Arte Moderna, este último um marco da arquitetura modernista brasileira, projetado pelo mesmo arquiteto do parque, Afonso Eduardo Reidy. Mas o aniversariante deve a sua criação sobretudo ao entusiasmo da arquiteta e urbanista autodidata Lota de Macedo Soares, convidada pelo então governador Carlos Lacerda para a coordenação geral do ambicioso projeto. Uma outra mão inesquecível também o moldou à sua maneira: a do paisagista e artista plástico Roberto Burle Marx.

Marx, o verde, não o vermelho, não escapou de uma alfinetada de Nelson Rodrigues. Numa de suas crônicas, nosso maior dramaturgo escreveu que o então Ministério do Exército, por causa das flores de um pequeno jardim em torno do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, é que levava um pouco de cor à monocromia verde que o paisagista dedicara ao parque! Uma monocromia, aliás, feita de uma vegetação nativa de 240 espécies brasileiras e tropicais, sem falar dos seus extensos gramados.

Construído sobre o chamado “Aterro do Flamengo”, o imenso jardim parte, transversalmente, da antiga orla (que, por sinal, nunca deixou de ser chamada “Praia do Flamengo”) até a “nova” Praia do Flamengo, que, por décadas, teve uma péssima balneabilidade, o que, aliás, nunca impediu que muitos cariocas a frequentassem. Agora, como que a dar um motivo a mais para se celebrar uma data tão especial, as águas voltaram a ser limpas e próprias para banho.

A orla antiga da praia, com quadras marcadas por palacetes das décadas de 1920 e 30 e belos prédios “art déco”, além de contar com o Palácio do Catete (hoje Museu da República), permanece, como vimos, com o mesmo nome de Praia do Flamengo, o que por vezes confunde os turistas. As vias expressas que cortam longitudinalmente toda a área, os pedestres as vencem através de charmosas passarelas e amplas passagens subterrâneas e logo chegam a equipamentos de esporte e lazer, inclusive uma longa ciclovia, e a uma praia de águas serenas…

Em 2012, merecidamente, o Parque do Flamengo ganhou da Unesco o título de “Patrimônio Mundial como Paisagem Cultural Urbana”. Afinal de contas, sendo o maior parque urbano à beira-mar do mundo, é sua harmoniosa integração à cidade que nos lembra ser possível uma grande intervenção urbanística sem danos ao equilíbrio da natureza e da própria cidade. O escritor Stefan Zweig, que, como tantos, maravilhou-se com o Rio de Janeiro e suas belezas naturais, escreveu, em seu famoso livro “Brasil, país do futuro”: “Não importa para onde o olhar se dirige: no Rio, sempre encontra algo para se deleitar”. Sem dúvida, ele também se deleitaria com os encantos do aniversariante que não chegou a conhecer.

Como não conheço outro poema que celebre esse logradouro único e magnífico, recorro, deselegantemente (perdoai), a mim mesmo, citando um trecho do meu “Parque do Flamengo”, dedicado ao amigo carioca Luiz Fernando Ferreira da Silva, filho e homônimo do grande cientista brasileiro, criador da paleoparasitologia e Professor Emérito da Fiocruz, ambos infelizmente já falecidos. O poema consta do meu último livro publicado, “O azul também se revolta” (Recife: Cepe, 2018), e fecha com um verso que alude à famosa “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias:

“Parque do Flamengo. / Os longos braços do tempo me tomam pela mão… / A sombra de um recanto / Me devolve inteiro ao teu teatro verde, / Água pra minha sede, / Palmeira onde canta o sabiá toda a beleza”.

Para sempre viva o Parque do Flamengo, monumento carioca, brasileiro e mundial!