
Amazônia
O Sonho da COP: Conversa com Carlos Nobre, de Cristovam Buarque, é o oitavo volume de uma série de diálogos que o autor vem tecendo com personalidades como Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, Claudio de Moura Castro, Antônio Nóvoa (reitor honorário da Universidade de Lisboa), Edmar Bacha e Carlos Médicis Morel (renomado pesquisador e ex-presidente da Fiocruz).
O sétimo livro da série traz uma dinâmica distinta: um diálogo com quatro personagens que compartilham origens modestas e que alcançaram o sucesso por meio de uma educação de excelência. Daí o seu título, Escola é escada, que reafirma a tese defendida por Buarque há mais de meio século: a educação é o único caminho real para o desenvolvimento. Seu plano de governo nas eleições presidenciais de 2006 já corroborava essa visão ao identificar que as nações desenvolvidas possuem apenas dois traços em comum: educação de qualidade e instituições confiáveis. Outros fatores — como grandes mercados (ausentes na Bélgica ou Holanda), acesso ao mar (negado à Suíça e Áustria) ou abundância de recursos naturais (inexistentes no Japão) — mostram-se secundários diante do pilar educacional.
Esta breve digressão é necessária porque Buarque utiliza essas conversas para expor não apenas as ideias de seus interlocutores, mas também as suas próprias. O livro inclui, inclusive, um glossário precioso, reflexo do ímpeto de Buarque em inventar termos e conceitos — como o “paradoxo de Koestler”, a “humanocracia” e a “humanidade apartada” — por acreditar que a nova realidade global exige um novo repertório intelectual. Expressões estas, como muitas outras que emergem em seus 55 livros já publicados.
O Sonho da COP originou-se de uma live promovida pelo Instituto Ética e Democracia (IED)[1] e foi publicado pela editora Thesaurus em 2025, às vésperas da COP 30. A escolha de Carlos Nobre para este diálogo é precisa: ele é o cientista brasileiro de maior reconhecimento mundial no campo climático. Se Buarque é obstinado pela educação, Nobre o é pelo alerta de que nos aproximamos perigosamente do “ponto de não retorno” na Amazônia. Trata-se do limiar em que a savanização se tornaria inexorável, convertendo a floresta em uma planície degradada, com consequências catastróficas para o regime de chuvas, a biodiversidade e a produção agrícola no Cerrado. E deste ponto de não retorno das mudanças climáticas é global.
A trajetória de Nobre tem suas raízes na Amazônia, desde seus estágios de estudante até sua atuação no INPA e, posteriormente, no INPE. A entrevista revela como ele ampliou seu foco das dinâmicas regionais para as repercussões globais das mudanças climáticas, sem abandonar a preocupação com a região amazônica. Suas preocupações com a perda de vidas e de patrimônio ambiental cresceram conforme os relatórios do IPCC confirmavam que o aquecimento global avança mais rápido que as previsões mais pessimistas. Já atingimos 1,4°C de elevação média e, certamente, romperemos a barreira de 1,5°C antes de 2030. A maioria das pessoas não tem a ideia de que as mudanças climáticas não são lineares; elas começam de forma “homeopática”, mas podem tornar-se exponenciais, saltando rapidamente de 2,5°C para 4,5°C. E, neste caso, nenhum cientista é capaz de prever com exatidão o caos que adviria desse cenário. Como disse um de meus alunos de forma simples e emblemática: “os aviões cairão”.
Apesar desse cenário sombrio, Nobre mantém uma postura de luta e esperança. Ele acredita que a COP 30 pode gerar propostas robustas, especialmente no que diz respeito ao distanciamento da economia mundial dos combustíveis fósseis. Embora a resistência de muitos países tenha impedido que este tema constasse na declaração final de conferências anteriores, o apoio à proposta cresceu de uma única nação para mais de oitenta. E será objeto de trabalho até a próxima COP, ou seja, no período em que André Corea do Lago se mantém como presidente.
O recado central da entrevista reside em uma frase do próprio Nobre: “Temos de buscar soluções, porque o equilíbrio ecológico em todo o planeta está próximo do ponto de não retorno”. Para os brasileiros, ele deixa um desafio inspirador: que o Brasil assuma a liderança global na proteção da biodiversidade, tornando-se o primeiro país a zerar suas emissões até 2040.
Para esse desafio os obstáculos, contudo, são reais. Como dizia Sachs, o Brasil é não apenas uma potência ambiental, mas também energética, com recursos ímpares em biomassa (ampla extensão de terra agriculturável), energia solar (alto nível de ensolação), eólica (áreas de fortes correntes de ar) e hídrica (vastas bacias hidrográficas). No entanto, ainda lida com o peso de suas reservas de petróleo ( a atração do ouro negro) e com a necessidade de vencer o desmatamento irracional. O caminho, provavelmente, é repetir o feito de Marina Silva em sua primeira gestão: elevar a produtividade e a produção agropecuária enquanto se reduz, drasticamente, a destruição das florestas.
O Sonho da COP não é um livro desatualizado porque o evento de Belém se encerrou. Ele guarda informações e reflexões atuais e prementes, merecedoras de consulta. Reúne dois grandes cérebros conversando sobre o mundo, com sentimentos que alguns poderiam denominar de pessimistas, mas na verdade, realistas.
[1] Na época o IED tinha o nome de Instituto de Estudos e Pesquisas pela fortalecimento da Democracia (IEPfD), e pode ser encontrada no you tube
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