Seneca

Seneca

É moda. Basta entrar em uma boa livraria para encontrar um número significativo de obras sobre o tema. O estoicismo parece ser um norte para muitos, perplexos diante de uma atualidade profundamente conturbada.

Li recentemente dois livros sobre o tema: Sêneca e o estoicismo, de Paul Veyne, e A vida dos estóicos, de Ryan Holiday e Stephen Hanselman. Confesso não ser um leitor aprofundado da literatura filosófica, mas acredito ter extraído algumas lições que me permitem tentar compreender, ainda que superficialmente, um mundo em profundas transformações.

Um mundo em que o autocentramento e o desejo compulsivo e frenético de dominação permitem que surjam — ou ressurgam — modelos, em diferentes instâncias, assentados em interesses particulares e que ignoram plenamente a noção de humanidade. Um mundo que dá espaço a desvarios que marcam nossos dias.

Não me refiro às mudanças tecnológicas, mas às mudanças no poder e à busca incessante dos poderosos, em que o mundo que se dizia “globalizado”, ao menos com uma perspectiva integrativa, volta a se configurar como o dos grandes impérios de opressão.

“As Américas são minhas”, diz o senhor fanfarrão do Norte; “a antiga União Soviética me pertence”, afirma o lunático que chefiou a KGB; “dominarei boa parte da Ásia e da África”, nos conta o impassível Xi. O mundo dividido em três impérios, e ninguém deve meter o bedelho no “reinado” dos outros.

Se reduzirmos o foco para o país em que vivemos, que se constituiu politicamente a partir de um modelo tripartite de poder — Executivo, Legislativo e Judiciário —, com atribuições claras e delimitadas, a luta é uma verdadeira carnificina.

Cada qual tenta invadir a esfera do outro; dominar maior parcela do orçamento tornou-se sinal de força; o que é constitucional passa a depender de a quem interessa.

Isso leva a uma confusão de papéis jamais vista, destruindo a lógica de funcionamento do sistema na ambição por mais poder, principalmente econômico. A sociedade é ignorada, e a ambição torna-se o único motor de um modelo corroído, no qual princípios éticos e morais são esquecidos.

No plano individual, o cenário não é menos perturbador. O individualismo impera. Cada um por si. Milhões passam fome; há pobreza e repressão aos migrantes que buscam sobrevivência e condições mínimas de existência. A empatia desaparece. Ignora-se o próximo, privilegia-se o proveito próprio. Como já dito, trata-se de um mundo autocentrado, em que a dor dos excluídos é totalmente ignorada.

Nesse ambiente — mundial, nacional e individual —, pessoas de boa índole se indignam, procuram se organizar e reagir. Ainda bem que há quem se preocupe. Mas nada que tenha real significado.

Fazem lives, manifestos e ainda acreditam que as massas se mobilizarão para enfrentar esse turbilhão. Muito voluntarismo, pouca lógica estruturante. Tudo muito desorganizado, fragmentado, sem foco claro, sem objetivo comum, sem impacto algum.

Tendo em mente o ambiente em que nos movimentamos, voltemos aos estóicos e a seus ensinamentos.

O estoicismo procura ensinar a enfrentar adversidades. Em um mundo confuso, no qual muitas vezes não nos encontramos, precisamos de um apoio que nos dê um norte. Nessa interpretação não usual — e talvez um pouco estapafúrdia — de algo muito mais profundo, talvez precisemos criar premissas para nos posicionarmos e agir.

Para os estóicos, o objetivo principal da vida é a busca da felicidade por um caminho no qual o autoconhecimento, a razão e a virtude indiquem a direção. Trata-se de reconhecer que há aspectos que podemos e devemos controlar — como nossos pensamentos e ações — e outros que precisamos aceitar, pois fogem ao nosso controle: eventos externos que os desígnios do universo nos colocam à frente.

O fundamental é ter foco, aceitando a ordem racional do cosmos e vivendo de acordo com a razão, em harmonia com a natureza. A busca da tranquilidade mental deve ter na serenidade e na evitação de reações negativas a postura que conduz à satisfação com o que somos.

Os estóicos apresentam quatro qualidades fundamentais para o bem viver, capazes de nos ajudar a enfrentar um mundo cheio de contradições e, muitas vezes, ilógico para o pensamento humano comum — um mundo que foge à racionalidade cartesiana predominante em nossa época.

A primeira é a Coragem. Não se deve ignorar as situações nem fugir do enfrentamento do que nos é dado. Se o mundo nos apresenta circunstâncias fora de nosso controle, pouco adianta ignorá-las. É importante buscar meios e associações com aqueles com quem nos identificamos, capazes de nos ajudar a tentar modificar o que nos é adverso. Ter uma postura firme diante das adversidades é necessário.

Ensinam também que, em todas as circunstâncias da vida, devemos agir com Justiça. Não se pode desvirtuar ações para beneficiar posições que aparentemente nos favoreçam. Ética e valores não podem ser desprezados. A parcialidade pode nos tornar abjetos, inclusive para nós mesmos.

A Temperança é igualmente fundamental. Não se devem radicalizar visões sobre as coisas e sobre o mundo, afastando-se da razão. A moderação é essencial para o bem viver em sociedade e para o encontro com nossos ideais. Antes de agir, é fundamental refletir.

Por fim, é indispensável o Conhecimento. Não se enfrentam as situações da vida na escuridão da ignorância.

Em qualquer adversidade que surja, é básico estudar a questão à luz dos fatos concretos, das ocorrências pregressas e dos possíveis impactos. Nunca se deve entrar em uma disputa sem um mínimo de compreensão do que se enfrenta e de como podemos ser atingidos. É preciso ter clareza sobre o que está sob nosso controle e também sobre o que virá por determinação externa, sem nossa interferência, e que teremos de aceitar e enfrentar.

Com essas quatro qualidades, pode-se alcançar controle emocional e buscar a tranquilidade na vida.

Sêneca, talvez o mais influente filósofo dessa escola, mostra que ética e virtude conduzem a uma vida feliz, alcançável apenas pela harmonia com a natureza e pela aceitação do destino. Esse é o caminho da sabedoria.

Por que faço essas observações? Em que pode ajudar revisitar os ensinamentos de uma escola filosófica nascida na Grécia e consolidada em Roma, há tantos séculos?

Se o objetivo for reverter a destruição causada pela ambição desmedida de poder, em todos os níveis; se acreditamos que ainda podemos mover a sociedade para uma luta em que o bem possa vencer o mal; se desejamos um futuro mais saudável, só vejo uma bandeira capaz de agregar efetivamente a sociedade e promover engajamento concreto: o ser humano retomar a harmonia com a natureza como farol da humanidade — lição deixada há tanto tempo e ainda não aprendida.

Não se trata da visão radical de certos movimentos ecologistas atuais, que praticamente alijam o humano de seus modelos em nome de um preservacionismo que exclui o ser humano e suas necessidades, consideradas causa de todos os desastres.

Mas de uma perspectiva temperada, em que se busque um mundo no qual a felicidade de viver esteja fortemente atrelada à preservação do ambiente e ao respeito pelas demais formas de vida que convivem conosco neste planeta. Isso exige também empatia, reconhecer nossos semelhantes como iguais, sem julgarmo-nos superiores, oferecendo-lhes condições efetivas para uma vida digna e feliz.

Um mundo que não seja orientado pelo desejo doentio de poder, mas pelas quatro qualidades básicas: Coragem, Justiça, Temperança e Conhecimento. Um mundo sábio, no qual os interesses coletivos voltem a ser orientadores, e não apenas o poder em si. Um mundo em que ajudar o próximo seja razão de vida.

Enfrentar os desvarios de quem é obcecado pelo poder não pode ser apenas um movimento voluntarista: é preciso ter objetivos claros e sensibilizar efetivamente as comunidades, especialmente as grandes massas que buscam dignidade e foram, muitas vezes, esquecidas.

Trata-se da busca por um mundo que preserve a dignidade humana como meta, que tenha na sobrevivência das gerações presentes e futuras, em harmonia com a natureza, sua razão de ser — respeitando os limites do ambiente natural, que não podem ser ignorados.