A Persistência da Memória by Salvador Dalí

A Persistência da Memória by Salvador Dalí

Há momentos na vida em que o passado não se deixa apenas recordar; ele insiste em retornar. Não para ser julgado, mas para ser revivido, reorganizado, ressignificado. É desse território movediço — entre memória, experiência e espanto — que surge este relato. Não escrevo uma biografia, muito menos um acerto de contas com o passado. É antes um gesto de escuta: deixo que a minha juventude fale na língua que ainda sabe.

Nasci no início dos anos quarenta, em plena travessia de um Brasil que se construía entre contradições. Passei a infância em Parnamirim, Águas Belas e Amaraji, cercado de crianças negras, índias e brancas, que partilhavam comigo a simplicidade e a aspereza da vida. Aprendi cedo que a desigualdade não era uma teoria — era vizinha, colega de escola, sombra no quintal. As férias, porém, me traziam para outro mundo: o Recife pulsante ou o sossego luminoso do Bairro Novo, em Olinda.

Meu pai, José Sironi, promotor e depois juiz, percorria as comarcas com a obstinação de quem acreditava na dignidade humana como princípio jurídico e moral. Ao lado de magistrados como Rodolfo Aureliano, ergueu abrigos e escolas para crianças esquecidas pelo Estado. Enquanto isso, eu, aprovado no exame de admissão, era enviado só ao Recife, para viver como interno no Colégio Salesiano. Ali encontrei jovens ricos e inquietos, movidos por códigos que não eram os meus. Um matuto entre herdeiros — e a primeira sensação de desenraizamento.

No segundo ano ginasial, fui morar com minha avó Celecina, cuja casa na Rua Henrique Dias era um porto de acolhida para filhos, netos e primos. Anos depois, transferidos para os Aflitos, passei a viver perto do Náutico, estudando no Colégio São Luís. Joguei futebol, sonhei com o profissionalismo, mas escolhi as ciências humanas, talvez porque já intuísse que a vida, para mim, seria mais verbo do que músculo.

Passei pelo Nóbrega, cursei o CPOR por insistência paterna, toquei violino desde Amaraji e, no Recife, encontrei a alegria despretensiosa da “Banda Elite Ritmos”, que animava os finais de semana pela Torre, Espinheiro e Graças. Fundamos, ainda adolescentes, a Escola Henrique Dias, na Mustardinha, para alfabetizar crianças pobres à noite — embrião de um compromisso social que nunca me abandonaria.

O vestibular veio logo depois. Fui aprovado em Direito na UFPE, mas um erro tolo — assinar a prova de latim — me desclassificou. Aos 19 anos, apaixonado e confuso, talvez a vida me desse ali o primeiro aviso: nada que importa se conquista sem alguma perda.

Meu pai descobriu então um movimento internacional, o Rearmamento Moral, que realizaria um congresso mundial no Hotel Quitandinha, em Petrópolis. Fui sem saber ao certo por quê — e voltei sabendo que havia visto o mundo. Jovens de oitenta países, líderes sindicais, intelectuais, artistas, todos falando línguas que se cruzavam nos corredores como pássaros migratórios. A arte era a ponte: peças de teatro, corais, filmes.

No terceiro dia, convidaram-me a integrar o elenco de El Cóndor, peça escrita por universitários peruanos. Aceitei. Interpretei um estudante comunista, filho de empresário — papel que, sem eu perceber, me colocava no centro do grande conflito ideológico do século.

Terminada a conferência, recebi o convite para seguir com o grupo até a ilha de Mackinac, em Michigan. Ali aprendi a lição que moldaria toda a minha vida pública: a dignidade não conhece privilégios. Todos desmontavam mesas, limpavam salões, participavam das tarefas comuns. Era uma ética antes de ser uma doutrina.

Seguiram-se meses intensos. Apresentamos a peça na Itália — Palermo, Catânia, Siracusa, Nápoles, Roma —, onde fomos recebidos pelo Papa João XXIII. No Teatro Scala, conheci Anthony Quinn, cuja filha Kathy integrava o nosso elenco. Depois, subimos aos Alpes suíços, para o centro de Caux, onde líderes como Adenauer e Pelé partilhavam mesas e conversas conosco. Atravessamos o Canadá de trem, do Atlântico ao Pacífico, carregando quatro toneladas de equipamentos, e descemos depois aos Estados Unidos, onde conduzi diálogos com lideranças Navajo à sombra das rochas vermelhas do Arizona.

Eu, enfim, me tornara um cidadão do mundo — justamente quando o mundo encolhia no Brasil sob o golpe militar de 1964. Recebi de Michigan a ordem para retornar: o Exército me considerava desertor do CPOR.

Voltei. Servi como recruta no 4º Exército enquanto meu pai, debilitado pela cirrose decorrente de esquistossomose, se apagava aos poucos. No início de 1965, entre fardas e livros, fui aprovado em Direito na Universidade Católica. A UNICAP fervilhava: a “geração D”, na expressão de Sérgio Buarque, agitava teorias, suspeitas e utopias. Ali reencontrei velhos professores e descobri novos mestres — Gilvandro, Cláudio Souto, Germano, Marco Maciel, Margarida Cantarelli.

Fui eleito vice-presidente do Diretório, depois Diretor Cultural, e trouxe Gilberto Gil para tocar no campus. Em 1966, submeti-me à seleção conduzida por A. H. Fuerstenthal e fui escolhido para o intercâmbio em Harvard. Recebi, lá, uma Honorable Mention que me devolveu a confiança, talvez abalada pela sucessão de rupturas.

Ao voltar ao Recife, ganhei a eleição para o Diretório Acadêmico. Combatíamos o autoritarismo militar sem ceder ao romantismo da violência revolucionária. Em 1968, fui eleito presidente do Diretório Central e, depois, Coordenador Regional da Executiva Nacional de Estudantes de Direito. Mas dezembro trouxe o AI-5 — e, com ele, a suspensão dos meus direitos estudantis.

Casei-me com minha colega Raquel Roffé, companheira de todas as travessias. Em 1970, os banidos foram autorizados a voltar à UNICAP, desde que silenciosos. Aceitei. Minha filha Luciana crescia no ventre de sua mãe; eu precisava terminar o curso. Mudei-me para Salvador antes da colação de grau, e recebi meu diploma em fevereiro de 1971, numa cerimônia solitária, na secretaria da faculdade. Sem festa, sem discurso, sem testemunhas.

Meu pai morreu um ano depois. Nunca abrimos o escritório que ele sonhara. Mas seu exemplo — a fé no diálogo, na justiça e na conciliação — permaneceu comigo como herança maior que qualquer patrimônio.

Não me julguem pelas ausências de citações. Os pensadores me acompanham, mas estas páginas pertencem antes à memória do que à erudição. São o testemunho do que fui entre os meus vinte e poucos anos — quando o mundo, pela primeira vez, começou a mover-se dentro de mim.

Muito ainda poderia ser contado. Quem sabe um dia. Será?

Recife, 10 de dezembro de 2025.