
Espelho
Este é o título do livro de Felipe Nunes, sócio fundador da Quaest. Financiado e editado pela Globo, Brasil no Espelho analisa um survey de 9.994 questionários aplicados em 340 municípios das 27 unidades da Federação. Elaborado em linguagem simples e direta, o texto é pleno de frases de efeito, como gostam os jornalistas. O livro foi planejado e lançado para vender, às vésperas da Black Friday e próximo ao Natal. É um produto de grande consumo e tem obtido sucesso nesse sentido. Na lista geral do Nielsen-PublishNews de 14/12/2025, ocupa o 17º lugar; já na lista de não ficção especialista, ocupa o 5º. No ranking da Veja de 19/12/2025, no segmento de não ficção, aparece ainda melhor colocado: em 3º lugar. O sucesso não se deve apenas à montanha de dados que o livro reúne, mas também à equipe de reconhecidos profissionais envolvida.
Com a profusão de dados obtidos, o livro constitui uma boa síntese do que os brasileiros pensam sobre o seu país, abordando temas que estão na agenda nacional há algum tempo, como o aumento da criminalidade, as mudanças demográficas, o protagonismo feminino, a expansão das correntes evangélicas, o racismo e a desigualdade social, além do papel da religião e da família no ideário brasileiro. São temas recorrentes, mas apresentados com dados atualizados. O autor aborda as contradições dos brasileiros que se declaram não racistas, mas consideram a sociedade racista — como analisou Lilia Schwarcz nos anos 1980 —, bem como a avaliação ambígua do “jeitinho brasileiro”, tão bem trabalhado por Roberto DaMatta nas décadas de 1970 e 1980. Enfim, trata-se de uma síntese de aspectos já explorados em outras pesquisas e na produção das ciências sociais brasileiras de forma especializada. Nesse sentido, o livro cumpre bem o papel de síntese atualizada.
Peca, contudo, pela pretensiosidade, já expressa no título. Nenhum survey, por melhor que seja, pode construir uma imagem, como diz o autor, “em alta definição”, de um país tão vasto, complexo e contraditório como o Brasil. Peca também pelo falso ineditismo. Elementos antigos, como a admiração que o brasileiro tem pelo país, sem correspondência pelo seu povo — objeto de piadas desde os anos 1950 —, são apresentados como novos. O mesmo ocorre com os impactos sociais da expansão das correntes evangélicas, tema de vasta produção acadêmica nas universidades brasileiras desde o final do século passado, ou ainda com o crescimento do crime organizado, amplamente estudado desde então — agora renomeado como “crime superorganizado”, nas palavras de Cristovam Buarque: o crime que se realiza sob as roupagens da lei e do qual nossos jornais, ultimamente, estão repletos de exemplos. Também não são inéditos os sentimentos de indignação dos jovens em relação à corrupção, de ansiedade diante da velocidade das mudanças ou de insegurança frente à violência urbana. Seria realmente nova a imagem que compara o Brasil a uma combinação do conservador e autoritário Zimbábue com a liberal e democrática Suécia? Edmar Bacha já havia recorrido a expediente semelhante ao cunhar a metáfora da “Belíndia” (Bélgica + Índia), na década de 1970.
Há, contudo, uma novidade relevante no livro e, segundo o autor, sua principal contribuição: a segmentação do Brasil em nove categorias sociais, construídas a partir da análise de 197 variáveis — militante de esquerda (7%), progressista (11%), dependente do Estado (23%), liberal social (5%), conservador cristão (27%), empreendedor individual (5%), agro (13%), empresário (6%) e extrema-direita (3%). Trata-se de uma proposta que merece exame atento.
Entretanto, não fica evidente por que o autor inclui na categoria “agro” tanto grandes proprietários modernos quanto trabalhadores rurais, nem por que os primeiros não figuram entre os “empresários”. Tampouco se torna nítida a distinção entre “empreendedor individual” e “liberal social”, apesar das explicações apresentadas. Resta, ainda, a dúvida quanto à função dessa nova tipologia: pretende ela substituir as clássicas divisões por idade, região, gênero e renda ou apenas complementá-las? E, nesse caso, o que efetivamente se ganha?
Modelos são instrumentos essenciais para compreender a complexidade de um sistema, mas devem ser utilizados com a consciência de que simplificam o real, podendo tanto ajudar quanto prejudicar sua compreensão. As estatísticas são fundamentais para apreender a realidade e podem revelar aspectos inesperados, mas, em certas circunstâncias, também podem escamoteá-los.
Convido o leitor a ler o livro, mas sem abdicar da saudável e necessária desconfiança, sobretudo aqueles que não são cientistas sociais. Perguntem-se, por exemplo, qual é a margem de erro de uma pesquisa dessa magnitude quando se fazem afirmações específicas sobre cada um dos 26 estados e o Distrito Federal. Vale calcular quantos questionários foram aplicados no Amapá, qual a margem de erro correspondente e se esse resultado permitiria afirmar algo consistente sobre os amapaenses.
Finalizo prevenindo o leitor: o livro oferece uma síntese de diversos aspectos socioculturais relevantes do país, mas desconfie de frases de efeito (“o brasileiro é um povo cansado”) ou de generalizações (“os brasileiros sentem que…”). Não se deixe confundir: categorias sociais, como homens brancos, gerações ou sudestinos, nada têm a ver com grupos sociais. O que partilha alguém nascido em 1963 com outro nascido em 1946? Ainda assim, ambos são enquadrados na mesma categoria geracional, como se formassem um grupo social dotado de valores, regras e costumes comuns. Leiam, pois há muitas informações que ajudam a compreender melhor parte de nossas contradições como povo. Mas consumam com precaução.
Excelente comentário do Elimar para um livro que pretende colocar na frenre do espelho a complexidade dinâmica de um povo: uma SBI – sociologia binaria do instante.
Muito bom artigo. Esclarecedor quanto às precauções. Parabéns.