Toffoli

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A promiscuidade entre grupos econômicos e o poder político no Brasil, analisada e criticada por Sérgio Lazzarini em Capitalismo de laços: os donos do Brasil e suas conexões, ganhou contornos particularmente delicados quando passou a frequentar os corredores da mais alta instância do Judiciário. A liquidação do Banco Master desencadeou investigações e denúncias de supostos interesses cruzados entre o proprietário da instituição financeira, o banqueiro Daniel Vorcaro, e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

A excessiva e inadequada exposição pública de ministros do STF — seja por meio de declarações políticas, seja pela participação em eventos de natureza política — já vinha despertando críticas quanto à crescente politização da Corte. O caso do Banco Master expõe, agora, a face mais opaca dessas relações, revelando vínculos entre ministros do STF e um empresário do setor financeiro, em especial o ministro Dias Toffoli.

O episódio começa com a estranha decisão monocrática de Toffoli, que concedeu foro privilegiado a processos envolvendo corrupção e desmandos do banco, trazendo o caso para sua própria relatoria. Desde então, multiplicaram-se reportagens e indícios oriundos de investigações da Polícia Federal apontando o relacionamento do ministro com negócios do Banco Master, bem como a existência de contrato de consultoria jurídica entre a instituição financeira e o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes.

Na tentativa de conter o desgaste institucional, o presidente do STF, Edson Fachin, saiu em defesa de Dias Toffoli, que vem, de forma cada vez mais evidente, extrapolando suas prerrogativas e tomando decisões pouco republicanas. Ao proteger um erro, corre-se o risco de lançar toda a instituição na lama.

Em nota pública, Fachin revelou ainda a indisposição do STF em conviver com notícias incômodas e com as críticas legítimas da sociedade e da imprensa. Qualquer questionamento passa a ser tratado como ataque à democracia; a denúncia de eventuais desvios de conduta de seus membros, como tentativa de desmoralização da instituição. Ocorre justamente o contrário: quem desmoraliza o STF são os ministros que, eventualmente, se comportam de maneira incompatível com a dignidade do cargo que ocupam.

Diante da gravidade do caso e para evitar maior deterioração da imagem e da legitimidade do Supremo, Dias Toffoli deveria ter-se declarado suspeito para relatar os processos envolvendo o Banco Master e Daniel Vorcaro. Seria o mínimo. Ao não fazê-lo, apenas reforça a suspeição. E, diante disso, o presidente Fachin recorre a um artifício: remeter o processo à primeira instância, onde ele deveria estar desde o início, não fossem os atropelos cometidos pelo próprio Toffoli.

Resta ainda uma questão central: como ficam as provas já produzidas? Inicialmente, Toffoli determinou o acautelamento de todo o material recolhido pela Polícia Federal, mantendo-o sob custódia direta do STF — ou seja, sob sua própria guarda. Recuou apenas após fortes pressões e críticas públicas. Desde o princípio, deveria ter se afastado da relatoria.

Qual é, afinal, o temor do ministro?