
Mark Carney
O discurso recente do primeiro-ministro canadense, Mark Carney, ao reagir às novas pressões vindas de Washington, soou menos como um gesto de confronto e mais como um alerta — e uma aposta na ação coletiva das potências médias. Ao reconhecer publicamente a assimetria da relação com os Estados Unidos, o Canadá lembrou algo que costuma ser ignorado no debate internacional contemporâneo: mesmo democracias consolidadas, institucionalmente estáveis e economicamente robustas passaram a operar em um ambiente em que o poder se exerce com menos constrangimentos e menos filtros normativos. Não se trata apenas do Canadá. Trata-se da condição das potências médias num mundo em ruptura.
A ordem internacional vive hoje um momento de inflexão. As grandes potências disputam hegemonia de forma cada vez mais explícita, com menor apego a regras, acordos multilaterais ou consensos construídos ao longo do pós-guerra. Estados Unidos, China e Rússia atuam buscando zonas de influência em um cenário em que interesses estratégicos imediatos se sobrepõem com frequência às normas que antes funcionavam como limites mínimos ao uso do poder. O resultado é um sistema internacional mais instável, mais assimétrico e menos previsível.
Nada disso é inteiramente novo. Tucídides já havia formulado, na Antiguidade, a lógica que parece retornar com força renovada: “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem”. O que muda, no mundo contemporâneo, é a erosão dos mecanismos que, por décadas, atenuaram essa assimetria. Instituições multilaterais enfraquecidas, consensos fragmentados e lideranças dispostas a testar limites criam um ambiente em que o exercício bruto do poder volta a ser visto como opção legítima.
A ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos simbolizou esse deslocamento. Não por ter inaugurado sozinho uma nova era, mas por ter explicitado uma tendência já em curso: a substituição da diplomacia baseada em regras por uma diplomacia transacional, em que tarifas, sanções, pressões comerciais e ameaças veladas tornam-se instrumentos ordinários de política externa. O Hemisfério Ocidental, em especial, voltou a ser tratado como espaço de interesse prioritário, não como comunidade política.
A China opera segundo lógica distinta, mas igualmente determinada. Ao ocupar posições-chave em cadeias produtivas estratégicas, investir pesadamente em infraestrutura e recorrer a instrumentos de pressão econômica em disputas diplomáticas, Pequim amplia sua influência sem recorrer diretamente ao confronto militar.
A Rússia, por sua vez, recorreu à força armada para redefinir fronteiras e impor sua vontade, recolocando a guerra convencional no centro da política internacional. Em comum, essas potências agem com crescente indiferença às restrições normativas.
Nesse cenário, fala-se muito de poder — poder militar, econômico, tecnológico. Fala-se pouco, porém, dos países que não dispõem desses instrumentos em escala comparável e que, ainda assim, precisam agir, escolher e se posicionar. É nesse espaço estreito que se coloca o dilema dos chamados “sem poder”.
A expressão ganhou notoriedade a partir do ensaio de Václav Havel, escrito ainda sob o regime comunista da Tchecoslováquia. Para Havel, o poder dos que não controlam a força reside na legitimidade, na coerência ética e na persistência institucional. Em contextos profundamente assimétricos, o poder não desaparece; ele muda de forma. Torna-se menos visível, menos imediato, mas não menos relevante.
O mundo contemporâneo oferece inúmeros exemplos dessa assimetria. Países como o Canadá, embora ricos, democráticos e institucionalmente sólidos, veem-se obrigados a recalibrar suas estratégias diante de um parceiro incomparavelmente mais poderoso. A margem de manobra existe, mas é estreita. A reação não se dá pela confrontação direta, mas pela defesa de regras, pela busca de alianças e pela preservação da previsibilidade.
O Brasil ocupa posição semelhante, ainda que em outro patamar. Não é uma potência militar, não controla tecnologias decisivas e depende de um sistema internacional relativamente estável para proteger seus interesses. Ao mesmo tempo, é grande demais para se tornar irrelevante e exposto demais para agir de forma voluntarista. Sua condição é a das potências médias: países que não impõem a ordem, mas sofrem diretamente quando ela se deteriora.
É aqui que a noção de “poder dos sem poder” ganha atualidade. Para países como o Brasil, o poder não reside na capacidade de impor, mas na capacidade de sustentar. Sustentar compromissos, regras, acordos e instituições, mesmo quando outros os relativizam. Esse tipo de poder é frequentemente confundido com fraqueza, sobretudo em tempos de retórica belicosa e gestos performáticos. Trata-se, no entanto, de um erro de leitura.
Para potências médias, a institucionalidade não é ornamento moral; é ativo estratégico. O multilateralismo, ainda que fragilizado, continua sendo o espaço onde assimetrias podem ser mitigadas. O direito internacional, mesmo violado, segue sendo referência. A previsibilidade diplomática, em um mundo volátil, é moeda escassa.
O risco maior surge quando a falta de poder material é compensada por gestos vazios ou alinhamentos automáticos. Confundir voz alta com influência real costuma reduzir, e não ampliar, a margem de autonomia. A história recente está repleta de exemplos de países que, ao transformar política externa em extensão de disputas ideológicas internas, perderam credibilidade e capacidade de negociação.
O mundo atual não oferece espaço para improviso. À medida que as grandes potências operam com menos restrições, aumenta o custo para quem depende da estabilidade do sistema. Para os “sem poder”, a erosão das regras não representa libertação, mas vulnerabilidade.
Não se trata de neutralidade absoluta nem de equidistância moral. Autonomia, nesse contexto, significa capacidade de decidir caso a caso, com base em interesses claros e limites bem definidos. Significa não transformar alinhamentos circunstanciais em compromissos irreversíveis. Significa, sobretudo, compreender que a prudência não é sinônimo de submissão.
O poder dos sem poder exige autocontenção. Exige a capacidade de dizer “não”, inclusive a si mesmo. Não ao impulso de reagir a cada provocação. Não à tentação de dramatizar conflitos. Não à ilusão de protagonismo sem lastro. Trata-se de um poder silencioso, cumulativo e pouco espetacular, mas que pode fazer a diferença entre preservar espaço de decisão ou se tornar objeto das decisões alheias.
Em um mundo em que potências disputam hegemonia com menos constrangimentos, os países que melhor preservam seus interesses não são os que gritam mais alto, mas os que conhecem com precisão seus limites e suas possibilidades. O poder dos sem poder não é idealismo. É realismo em condições de assimetria. E isso é mais necessário do que nunca.
Temos, cada vez mais, necessidades de elegermos estadistas, que tenham esta percepção. A questão é que são cada vez embotados por um ambiente eleitoral polarizado por uma disputa em que, “se a farinha é pouca, quero meu pirão primeiro”.
Suas recomendações sobre o que os “países sem poder” não devem fazer (não aceitar provocação, não usar retórica vazia, não esquecer sua própria vulnerabilidade específica de “sem poder” no mundo mais assimétrico e imprevisível), resumidas como “realismo em condições de assimetria”, podem remeter ao provérbio “cachorro que late não morde”. Não são contraditórias com as recomendações do ex-Ministro das Relações Exteriores Celso Lafer (O Mundo às Avessas, Estadão, 18/01/2026) que ele mesmo remeteu ao provérbio “se você não é capaz de morder, não mostre os dentes”. Parece brincadeira. Mas explico. Lafer não fala de “potências médias”. Mesmo porque não é justo excluir os pequenos e os países-ilhas das considerações geopolíticas e geoeconômicas. Lafer fala em “em política de poder das grandes potências”, aquelas que estão mutilando o direito internacional, e especifica os Estados Unidos com a invasão da Venezuela e a Rússia com a invasão da Ucrânia. Como devem reagir os estados nacionais não diretamente atingidos, como o Brasil? Cabe a cada país avaliar suas condições para se inserir no mundo com um mínimo de autonomia. Celso Lafer observa que os países em geral já vêm reagindo, e tendo em conta o provérbio “Se não é capaz de morder, não mostre os dentes.”
Longe dessas abstrações, eu lembraria que o governo da Índia, como reação ao novo contexto de incerteza, decidiu focar no crescimento econômico. A Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao firmar o acordo de comércio, referiu-se a um acordo entre a 2ª maior economia do mundo com a 4ª maior economia do mundo. Quem são as potências médias? Do tamanho do Canadá?