
Revolução Industrial
Se alguém estiver interessado em compreender o Antropoceno de forma mais ampla e bem documentada, deve visitar a trilogia do agrônomo e economista José Eli da Veiga. Entre 2019 e 2025, este economista, professor titular (aposentado) da USP e pesquisador sênior de seu Instituto de Estudos Avançados (IEA), dedicou-se a publicar algumas de suas ideias sobre o Antropoceno (anthropos, humano + kainos, novo). Suas abordagens, além de artigos e palestras, encontram-se nos seus três livros publicados em 2019 (O Antropoceno e a ciência do Sistema Terra), 2023 (O Antropoceno e as Humanidades) e em 2025 (O Antropoceno e o pensamento Econômico), todos produzidos pela Editora 34.
Na trilogia supracitada sobre o Antropoceno, cuja produção durou aproximadamente uma década, o autor nos convida a uma viagem de uma problemática mais geral – a nascente Ciência do Sistema Terra – até a mais particular – o pensamento econômico, que se gestou, desde o início da segunda metade do século XX, com os trabalhos de Nicholas Georgescu-Roegen, Herman Daly e a economia ecológica.
Para compreender o Antropoceno, convém resgatar (e, por vezes, corrigir) o que aprendemos sobre a cronologia da Terra ainda no ensino médio. Os geólogos organizam essa trajetória em uma hierarquia tempos geológicos de Éons, Eras, Períodos, Épocas e Idades.
A história do planeta compreende quatro Éons: o Hadeano (4,6 a 4 bilhões de anos), o Arqueano (4 a 2,5 bilhões), o Proterozoico (2,5 bilhões a 541 milhões) e, por fim, o atual Fanerozoico, onde a vida complexa floresce. Este último divide-se em três Eras: Paleozoica, Mesozoica e Cenozoica — esta última marcada pela ascensão dos mamíferos e da linhagem humana. Dentro desta Era, situamo-nos no Período Quaternário e na Época do Holoceno (“o mais recente”), que se iniciou aproximadamente há 11.700 anos, após a última glaciação. Esta época é marcada pela relativa estabilidade climática que propiciou condições favoráveis ao florescimento da agricultura, das cidades e das civilizações. A domesticação dos primeiros animais data de 15 mil anos e dos primeiros vegetais de 11 mil anos, por sua vez, as primeiras cidades datam de nove mil anos aproximadamente, entre as atuais Cisjordânia e Turquia.
A estabilidade climática do Holoceno não excluiu, contudo, quatro grandes alterações que tiveram repercussões sociais significativas. A primeira, uma grande seca há 4,2 mil anos que coincidiu com a desintegração do primeiro Estado mesopotâmico. Entre os anos 800 e 1000 d.C., ocorreu o colapso da civilização maia em meio a secas severas que reduziram a precipitação pluvial em cerca de 50%, com quebra na safra, fome, instabilidade política e migração. A decadência da colonização nórdica na Groenlândia, no século XV, resultou da incapacidade dessas populações de se adaptarem à Pequena Idade do Gelo, com isolamento comercial, degradação do solo e rigidez cultural, ao contrário dos inuítes. E, finalmente, ainda na Pequena Idade do Gelo, entre os séculos XV e XVI, ocorreram mudanças significativas na Europa e na Ásia com o desaparecimento de um terço da população humana, diz o autor da trilogia, citando o historiador Geoffrey Parker.[1] Ou seja, as atuais mudanças climáticas não são a primeira ruptura a ameaçar o processo civilizatório.
Contudo, essa estabilidade climática do Holoceno parece ameaçada pelo desenvolvimento das atividades humanas. O acúmulo dos gases de efeito estufa (GEE), advindo de suas atividades econômicas ao adotar um modelo econômico sustentado pelo uso intensivo de combustíveis fósseis, parece nos conduzir a uma trajetória crescente de eventos climáticos críticos, cada vez mais intensos.
A proposta mais consistente de uma nova época geológica, sob o nome de Antropoceno, data de 2000, quando o químico Paul Crutzen chamou a atenção para os efeitos cruciais que as atividades humanas estão provocando na Terra. Para este holandês, vencedor do Prêmio Nobel de Química em 1995, o Antropoceno é a nova época geológica em que a humanidade se tornou a principal força de mudança da Terra. Embora o termo tenha se vulgarizado na mídia e nas ciências sociais, jamais foi aceito pelo Comitê Executivo da União Internacional de Ciências Geológicas (IUGS), a instância que rege as mudanças da contagem do tempo geológico. Embora muitos cientistas renomados considerem que os humanos são os principais agentes de uma nova época geológica, o 37º Congresso Geológico Internacional (IGC), reunido em agosto de 2024 em Seul, recusou a proposta do Antropoceno, validando o resultado da subcomissão encarregada do tema.
Contudo, independentemente dos “burocratas”, a proposição de Crutzen conheceu nestes últimos 25 anos uma repercussão extraordinária, um debate intenso, com desdobramentos intelectuais distintos e mesmo contraditórios. Mobilizou a comunidade acadêmica entre os que são a favor ou contra esta proposição, atribuindo ao Antropoceno múltiplas explicações, datações e significados. E com repercussões diferentes nas diversas áreas científicas. Entre os cientistas sociais, a ideia é mais bem aceita. Geólogos, biólogos, físicos e paleontólogos são dotados de uma cuidadosa preocupação com provas materiais. Nas ciências sociais, a proposição do Antropoceno ganhou fama e se tornou objeto de mil interpretações. Nas ciências exatas, ainda é objeto de discussão sobre a sua configuração efetiva. Aparentemente, ninguém se entende.
Tentando desfazer essa barafunda, José Eli da Veiga se pergunta, em seu primeiro livro, se é necessário o desenvolvimento de uma Ciência do Sistema Terra para se compreender efetivamente o significado do Antropoceno. E sua resposta encontra-se ao final do livro, que aqui prefiro não citar. Concordemos ou não com a resposta, o autor de O Antropoceno e a Ciência do Sistema Terra nos conduz a uma viagem extraordinária para decifrar os meandros das divergências, os sucessos e insucessos até agora alcançados, buscando um conhecimento convergente entre áreas tão distintas. Ele mostra os avanços e os limites dessa ciência, que tenta articular de forma transdisciplinar quatro dinâmicas históricas da Terra: do planeta, da vida, da natureza humana e da civilização.
A importância da Ciência do Sistema Terra, tentando articular a natureza e a cultura, o natural e o civilizacional, deve-se à própria proposição de Crutzen, pois a ideia de época geológica que é definida pela intervenção humana na dinâmica da Terra coloca o humano no centro do tempo geológico.
O autor percorre as filigranas do debate sobre esta nova época e seus respectivos argumentos: desde o início da Revolução Industrial, na segunda metade do século XVIII, ou com o período da Grande Aceleração Econômica, na segunda metade do século XX? E menciona as interpretações de seus significados: Capitaloceno, Plantacionoceno ou Antropoceno? Contudo, privilegia os passos dados em torno da Ciência do Sistema Terra que está relacionada, para alguns, com a ideia de Gaia de James Lovelock, mas que vai muito além. A riqueza bibliográfica que o economista da USP nos traz à mesa para ilustrar as diversas facetas deste debate é simplesmente fantástica. Tomam assento, entre outros: Carlos Nobre, Dieter Gerten, Geoffrey Hodgson, Hans Joachim Schellnhuber, Johan Rockström, Jonathan Donges, John Elkington, Ludwig Bertalanffy, Paul Ehrlich, Peter Thornton, Stanley Finney, Timothy Lenton, Will Steffen e Yadvinder Malhi. Por esta razão, alguns leitores não se contentam com uma leitura e transformam seus livros em material de consulta.
Além de percorrer todos os principais debates, congressos, pronunciamentos de organizações e publicações de cientistas de todo o mundo, o economista ecológico nos leva a algumas supostas digressões em zonas distintas, com interessantes comentários em torno de autores célebres, discutindo e criticando suas ideias, como Kate Raworth, com sua “economia donuts”; Yuval Harari, com seu Homo Sapiens; e Edgar Morin, com sua obra sobre a complexidade. Aliás, defende que o conceito de sistema é insuficiente para entender o fenômeno do Antropoceno, preferindo o conceito de complexidade, reconhecendo, contudo, que este terreno é muito pantanoso e pouco se tem avançado nos últimos anos.
O conceito de complexidade será retomado no segundo volume da trilogia – O Antropoceno e as Humanidades – relacionando as novas ciências da complexidade com a dupla revolução de Darwin. O objeto deste segundo volume é examinar a receptividade da proposta do Antropoceno pelas humanidades, que está muito longe de ser homogênea. O livro está inspirado em dois trabalhos anteriores do autor (A Ciência da Sustentabilidade, publicado em 2012 pelos Cadernos Cebrap Sustentabilidade, v. 1, n. 1; e Antropoceno e Humanidades, em Anthropocenica – revista de estudos do Antropoceno e Ecocrítica, nº 3, 2022) que merecem ser conhecidos.
A aventura epistemológica a que nos conduz o autor nesse volume é similar à do anterior. Dividido em três partes, o agrônomo e economista da USP faz, na primeira, uma síntese “nos moldes de divulgação científica” sobre o tema da relação entre as duas culturas (ciência e humanidades) no enfrentamento da proposta do Antropoceno, que contém em sua essencialidade uma aproximação. Esta aproximação será examinada na segunda parte do livro, com ênfase na Ciência da Sustentabilidade, um dos esforços transdisciplinares, como o da Ciência do Sistema Terra, para superar o enclausuramento das duas culturas — ciências exatas e humanas. A última parte centra-se na reflexão sobre as Ciências da Complexidade, pois a superação entre as duas culturas depende do avanço dessas ciências, e estas, por sua vez, necessitam de uma maior atenção à teoria darwiniana da evolução. Em particular, na introdução da reflexão do livro mais importante de Darwin nesta questão – The Descent of Man – no qual fica mais claro que “o movimento natureza-cultura não produz ruptura”.
`O terceiro volume da trilogia – O Antropoceno e o pensamento econômico – parte do princípio de que, mesmo recusado pela União Geológica, o Antropoceno é aceito por grande parte dos cientistas e dos pesquisadores sociais. A percepção do fenômeno dos impactos das atividades econômicas dos humanos sobre a natureza, embora tenha seus antecedentes ainda no século XVIII, ganhou envergadura desde a década de 1960, por meio de obras e iniciativas diversas que resultaram na Conferência de Estocolmo de 1972, que refletiu a consciência dos humanos sobre os limites do crescimento econômico e da qual nasceu a proposição do ecodesenvolvimento, desenvolvida por Ignacy Sachs. Por mais de meio século, os debates em torno dessa problemática evoluíram para uma dicotomia entre os que acreditam que é possível crescer com redução de seus efeitos deletérios e os que descreem deste caminho, propugnando um decrescimento planejado.
José Eli da Veiga, profundo conhecedor da problemática, com algumas obras seminais a respeito, traça para o leitor os avanços e recuos desta grande “guerra”, que passa pela criação do PNUMA, do IPCC, das Conferências das Partes sobre o Clima (COPs), Objetivos do Milênio e Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (os famosos ODS), entre outros. E o faz com uma vasta literatura, apresentada e comentada largamente pelo autor. E conclui com um aceno de esperança, em face dos resultados pífios das diversas iniciativas governamentais e privadas, cujos resultados têm sido o aumento constante e persistente dos GEE na atmosfera e o crescimento persistente dos eventos críticos climáticos, da poluição e da degradação ambiental. Aparentemente, há um início promissor de arrefecimento da louca corrida por destruir a natureza. Será?
[1] Global Crisis: War, Climate Change and Catastrophe in the Seventeenth Century. New Haven, Yale University Press, 2017.
Artigo do Elimar Nascimento fundamental para conhecermos a historia do conceito de Antropoceno e a colaboração de cada formulador da ideia. O artigo reafirma meu sentimento de que falta uma reflexão sobre a relação do antropoceno com a essencia da condição humana, a própria neurologia do homo sapiens consciente de seu curto tempo de vida e seus desejos de usá-lo para realizar aspiraçoes individuais incompatíveis com a harmonia natural.