
Greene
“De boas intenções está cheio o inferno.” Sempre – ou a vida toda – soube que existia um livro que mostrava isso, e que era sobre americanos. E o nome era “The quiet American”. Não saberia explicar de onde me veio tal ideia. Não sei se li no meu tempo de Faculdade no Rio de Janeiro, fim dos anos 1950, ou quem sabe minha mãe fez referência ao livro para exemplificar o provérbio, ou se foi meu pai, que tinha um amigo jornalista que morreu nos Estados Unidos, o Steiner, acho que era americano, que lhe deixou a herança depois da guerra, uma Remington e uma mala cheia de papéis, e nada mais.
Não lembrava da estória, vagamente sabia que era de algum americano que foi parar no Vietnam. Minha mãe lia vários dos autores ingleses, que dava aula de inglês, e gostava de provérbios, não esqueço as vezes em que se saia com “muito faz quem não atrapalha”. O que, aliás, percebo agora, também é algo que se pode aprender no livro “O Americano Tranquilo”. Fato é que eu sabia do livro e do que supunha ser a “tese” oculta dele, mas nem lembrava se tinha lido. Pensando bem, creio que o livro, que é sutil na interação dos personagens, até mostra que, na prática, eles confirmam a metáfora de que “o ponto de vista de Sirius não existe”, como repetia meu querido professor de história do pensamento filosófico Álvaro Vieira Pinto, tratando de nos explicar que “neutralidade” não existe, que a neutralidade é também um ponto de vista dentre os pontos de vista diversos. Vejam lá no romance o que acontece com o repórter de guerra e suas repetidas declarações de que é imparcial. Vale em geopolítica, em que “imparcialidade” vira algo muito complicado.
Nos últimos tempos, os americanos têm aparecido com tal frequência nas manchetes da imprensa mundial, como autores de façanhas várias, e metidos em guerras suas e de outros, sem laivo de tranquilidade, que me veio a curiosidade de verificar por que cargas d’água existe um livro com esse título de “O americano tranquilo”, e considerado um clássico da literatura mundial. Li num destes fins de semana. Pois minha ignorância era tão grande que nem sabia que o autor, Graham Greene, era inglês. E, no entanto, verifico agora que esse livro só poderia ter sido escrito por um inglês. Pois por mais poderosa que seja sua imaginação, ou estrambóticos os sonhos, o escritor não escapa aos ares de seu tempo e respira no seu espaço no tempo, também quando de fato ande por diferentes lugares deste mundo. Mesmo que ele declare que escrevendo vai a algum “outro mundo” e volta. No livro de Greene aparece a todo momento a peculiar ironia dos ingleses a respeito dos franceses, dos americanos e, no caso, até dos chineses. O jornalista inglês que é o personagem central só não é irônico com a vietnamita sedutora com quem vive, porque sabe que o inglês e o francês que ela aprendeu não são suficientes para captar ironia.
O escritor não é “do outro mundo”, não escapa das suas circunstâncias e do contexto, do contexto mundial e do período da história da humanidade em que vive. É influenciado mesmo quando os rejeita. Pode até ser que com a IA isso deixe de ser assim, experiência vivida talvez venha a valer menos quando estiver tudo acumulado lá nos “mega data centers”, mas Graham Greene nasceu no início do século 20 e viveu até quase o fim do século. Viveu duas guerras mundiais, as muitas guerras de libertação nacional contra o colonialismo, o auge do comunismo e da guerra fria. Até 1991, mas não sei se viu o “fim da história”.
Viveu o período em que a vitória contra a dominação colonial significou em alguns lugares que a porta se abriu para interesses americanos. Não foi só na Indochina, ainda que ali essa transição seja nítida, e logo depois da derrota da França entram em ação abertamente as forças militares dos Estados Unidos validadas pela “teoria do dominó”, a ideia de geopolítica do Presidente Eisenhower. Mas sempre há um outro lado da história. Já se disse da “guerra fria” e em particular do experimento de 70 anos (1917-1989) que foi a socialização dos meios de produção e a URSS, que, se foi um total fracasso como utopia igualitária, pelo menos facilitou as lutas de independência nacional das colônias. O resultado é que nos anos 1960s a ONU passou a ser constituída por uma maioria de países subdesenvolvidos e o famoso G77.
Graham Greene acompanhou as duas etapas da guerra do Vietnam, a etapa da Indochina contra o domínio colonial da França e a etapa do envolvimento americano depois da derrota francesa na batalha de Dien Bien Phu em 1954. Mas o cenário do romance é a Indochina dos correspondentes que cobriam a guerra entre o Vietmin e o colonizador francês. Bombardeios nas torres de vigilância na estrada, que matam vietnamitas que toleram os franceses, e quase matam tanto o “imparcial” Fowler como o “parcial” Pyle (os dois personagens centrais do romance), vinham do movimento Viet Minh, mais nacionalista que comunista. É o cenário pouco antes de Dien Bien Phu e dos Acordos de Genebra que selaram a divisão do Vietnam entre o Norte comunista, apoiado pela China e URSS, e o Sul controlado pelos americanos.
E no entanto “O Americano Tranquilo” é um livro que levanta dúvidas que continuam atuais, mesmo que se queira rejeitar o uso de “americano”, e até de “democrata”, para designar o bem-intencionado cidadão dos Estados Unidos que chega a Saigon nos 1950s citando seu orientador de tese sobre democracia. Publicou-se em meados do século passado, e explicitamente não se pretende livro de história. As complicações do dia a dia e o suspense mantêm preso o leitor, mas o debate entre os nacionais diferentes não deixa de remeter a dilemas dos dias atuais nas trincheiras do que resta de democracia. Até ao sugerir, apesar das aparências, quão lentamente muda a humanidade e como às vezes caminha em círculos, e o quanto os discursos se repetem em situações diferentes.
“O Americano Tranquilo”, o Alden Pyle da ficção, viveu 20 anos antes da queda de Saigon em 1975, a fuga dos americanos, a vitória de Ho Chi Min, e a reunificação do Vietnam sob o regime comunista. Já mostrava que bem ou mal, ainda que então supostamente neutros, os americanos ajudavam os vietnamitas contra o colonizador francês. Só que os vietnamitas não aceitariam a substituição de uma dominação por outra. Isso se prenuncia no cotidiano e nas conversas dos personagens, até nas patas de Duke, o cachorro de Pyle, o jovem americano que chega na Saigon dos franceses como parte de uma missão de ajuda econômica dos Estados Unidos. O jornalista inglês que já está lá há vários anos não consegue entender o que o bem-intencionado garoto americano veio fazer em Saigon. Nem a administração francesa sabe.
Mesmo quando Pyle é morto, talvez por partidários de Ho Chi Min, continuamos sem saber exatamente a que veio. E o romance de guerra vira romance policial quando a administração francesa em Saigon, ao investigar o assassinato, começa a suspeitar de Fowler, acha impossível que o inglês não esteja com ciúme do americano que tentava tirar sua namorada vietnamita com a promessa de casamento e conforto.
O enredo importa, e muito, é essencial para entender os personagens. Não vou contar, porque estou empenhada em que se leia hoje o livro de 1955, por suas lições, e se a gente conta o povo não vai ler o romance, fica no resumo, como nos atuais cursinhos para vestibular. O ácido confronto de percepções tem muitos personagens mais que Fowler e Pyle. Tem o frustrado chefe da administração e polícia francesa, Vigot. Tem Phuong (ou a estranha fênix vietnamita, não sei se fatalista ou ultra pragmática) que sempre prepara o ópio que toma com Fowler (cuja mulher ficou na Inglaterra mas não dá pena), e a irmã mais velha de Phuong com seu curioso tino comercial. Tem o bando dos jornalistas estrangeiros, inclusive um repórter americano, Granger, o mais machista de todos. E muita gente mais. E tem muitos cadáveres e feridos, que é o que mais tem numa guerra. É só ir lá viver com eles todos na Saigon que só permaneceu na literatura, para ver quão grande a diferença entre a retórica e a realidade da guerra. E quão longe do dia a dia de todos eles está o discurso sobre democracia que Pyle repete do seu guru acadêmico que permanece confortavelmente instalado nos bastidores remotos.
Post scriptum: e só quando cheguei ao fim do livro, e fui checar a data de sua publicação primeira, vi uma das epígrafes.
This is the patent age of new inventions
For killing bodies, and for saving souls,
All propagated with the best intentons.
LORD BYRON
Muito boa a resenha do livro, gostei. Vou ler.
Não conheço o livro, mas vi o filme que o explorou. E gostei. O “americano tranquilo”, realmente um americano atípico, foi interpretado por Audie Murphy, um mocinho que foi “aproveitado” por Hollywood após ser o soldado americano mais condecorado na II Guerra Mundial. Seu desentendimento com o inglês, no filme, foi porque se apaixonou pela amante vietnamita deste, a quem ele ensinava inglês, e acabou sendo vítima do Viet Min, por uma farsa em que o rival, enciumado, quis acreditar. O policial francês, ao cuidar do caso, desmascarou o inglês egoísta.
Como se conclui, Graham Greene, mesmo sendo inglês, não poupou o personagem conterrâneo…
Bela resenha, que motiva a leitura do livro.
kkk achei engraçado saber isso do filme. Nunca vi nenhum dops filems inspirados no livto. Isso é versão americana simplista, é uma caricatura, uma distorsão grosseira. Graham Greene escreveu um livro sério e não poupa quem quer que seja, não é “a favor” deste aquele, mostra diferentes visões do mundo.