
Prisioneiros
Lembro-me do dia em que Emiliano José e eu nos encontramos em Salvador. Eu era da direção estadual da Bahia da Ação Popular, uma organização de esquerda então maoista. Ele, um quadro do movimento estudantil que eu conhecia dos meus tempos de presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundários, da qual foi diretor na gestão que me sucedeu. Emiliano vinha de uma família pobre e começou a se destacar, em 1967, como liderança estudantil na zona norte da cidade de São Paulo. Foi aí que nossos destinos se cruzaram pela primeira vez.
No nosso reencontro, almoçamos em um pequeno restaurante da Rua Carlos Gomes, já perto do Aflitos. Uma mordomia para aqueles tempos de clandestinidade e pobreza franciscana. Fui portador de uma boa notícia. A AP dava notas a seus militantes, com base em critérios subjetivos definidos pelo “assistente superior”. Era uma coisa maluca. Aplicava-se uma média ponderada para definir o “nível ideológico” dos militantes. Quem não tinha geladeira ou fogão a gás já somava pontos positivos. O inverso também era verdadeiro: quem gozava de melhores condições de vida era visto com desconfiança. Prova cabal de que se tratava de um pequeno-burguês.
Muitos militantes — sobretudo dirigentes — citavam o livrinho vermelho de Mao como crentes citam a Bíblia. Até hoje tenho um trauma. Havia um dirigente nacional que, sempre que ia dar uma notícia ruim, vociferava: “Quando nuvens negras aparecem no horizonte, o revolucionário não deve desesperar, pois o sol voltará a brilhar na aurora”. Era a senha para informar que companheiros tinham sido presos ou que ocorrera mais um racha na organização.
De origem cristã, a Ação Popular trocou o deísmo pelo maoismo. Aderimos ao marxismo pelo seu lado mais obscurantista: o pensamento do camarada Mao Tsé-Tung, como se fosse a quarta etapa do marxismo.
A AP resolveu ainda promover um roque nacional em seus militantes. Uns por razões de segurança; outros para testar firmeza ideológica. Quadros históricos baianos, profundamente enraizados em seu estado, com vida legal — como Jorge Leal, Solange Santana, Ricardo Angelim e outros — foram deslocados para fora e substituídos por “alienígenas” que aportaram na Bahia. Para usar uma parábola maoista: éramos peixes fora d’água. Mas isso é outra história.
Cheguei a Salvador nessa onda. Emiliano, menos de um ano depois. Entre nosso último encontro, em 1968, e esse reencontro havia uma eternidade. Os tempos das passeatas estudantis em São Paulo, em que atormentávamos Zé Dirceu ocupando, com secundaristas, as primeiras fileiras. Eles gritavam: “O povo armado derruba a ditadura”. Nós respondíamos: “O povo organizado derruba a ditadura”.
Havia uma sutileza entre as palavras de ordem. Uma apostava na luta armada imediata; outra, numa guerra popular prolongada. Ambas estavam erradas.
Como concluímos décadas depois, a ditadura não caiu por foco guerrilheiro nem por guerra popular. Foi superada pela luta institucional e pela pressão da sociedade. Não foi derrubada; foi ultrapassada por caminhos de mobilização e pactuação.
Nossa história baiana começa naquele almoço. Emiliano vinha para coordenar o setor estudantil da AP. Eu era assistente da direção estadual para o movimento estudantil. Disse-lhe que a direção havia elevado sua nota. Depois de muita polêmica, ele passou a um nível que o habilitava à direção municipal de Salvador. Não o fiz coronel, mas capitão, com certeza.
A Bahia, dizia o coronel Luís Arthur, então diretor da Polícia Federal, tinha virado “refúgio de guerrilheiros”. Comparada à repressão de São Paulo e Rio, era “flor da laranjeira”, para usar expressão de Riachão. O refúgio virou arapuca em novembro de 1970, quando cerca de três mil pessoas foram presas no país.
Dias depois, Emiliano caiu. Primeiro na Polícia Federal, depois no Forte do Barbalho. Resistiu heroicamente à tortura. Propus uma grande pichação em Salvador: Libertem Emiliano!. No dia seguinte, até a Fonte Nova estava pichada.
Nos reencontramos em 1971, na Penitenciária Lemos Brito. Por quase dois anos dividimos a cela 11, que batizamos de “Manoel da Conceição”. Quando se divide uma cela por tanto tempo, ou se vira inimigo ou irmão. Viramos irmãos.
Ali conheci a grandeza da alma de Emiliano. O coletivo de presos da Lemos Brito foi marcado pela acolhida, pela solidariedade e pela compreensão de que o dever do preso político é preservar a dignidade e crescer humanamente.
Descobrimos Gramsci. Defendemos, em 1972, o voto no MDB. Fomos acusados de heresia. O tempo mostrou que estávamos certos.
Saí do cárcere em 1973. Emiliano, em 1974. Viramos jornalistas. Trabalhamos juntos no Jornal da Bahia. Fundamos a sucursal do Movimento. Fizemos o jornal Invasão. Depois fui para São Paulo dirigir o Em Tempo.
O resto é história.
Sei de onde Emiliano veio. Da pobreza, da luta diária, da dignidade de seus pais. Sei do orgulho de seus irmãos. Sei da retidão de sua mãe, Cida.
Chegamos ao outono da vida. Uma vida bem vivida. Se olharmos para trás, veremos que progredimos — e que o Brasil também mudou. Para melhor.
Hoje não é dia de tristeza. É dia de celebrar 80 anos bem vividos.
Somos a Primavera de Praga.
Somos Maio de 68.
Somos a Passeata dos Cem Mil.
Somos Woodstock.
Somos Martin Luther King.
E seguimos gritando:
Ditadura, nunca mais.
Democracia, sempre.
Nos veremos no seu aniversário.
Até lá, viejo compañero.
***

Em pé: Carlos Roriz (sergipano) ( José Carlos Zanetti ( paranense) Antônio Rabelo (goiano) Eduardo Kruschevisky. Renato Godinho (mineiro) agachados: Ricardo (baiano de Jequié) Milton Mendes( baiano) Emiliano José (paulista) Jaileno (baiano) Tiberio, Paulo Pontes ( pernambucNo, primeiro preso politico condenado a prisão perpetua pela ditadura) e Nathur(baiano).
Louvor aos bravos jovens que pegaram em armas contra a Ditadura Militar.
E reverência ao velho PCB, o Partidão tão vilipendiado por uma suposta tibieza, pois ele é que estava certo: a Ditadura não foi DERRUBADA, foi DERROTADA.