Kandinsky.

Kandinsky.

As pesquisas eleitorais indicam que a polarização política está consolidada no Brasil e que, portanto, nas próximas eleições presidenciais pode se repetir a disputa entre o lulismo e o bolsonarismo. O que seria muito ruim para a democracia brasileira. Por quê? Porque a aglutinação dos votos, desde o primeiro turno, em torno de dois candidatos com elevado personalismo e populismo, interdita o debate político, a discussão sobre propostas e caminhos alternativos para o desenvolvimento do Brasil. O debate eleitoral passa a se concentrar na adesão, muitas vezes, cega e incondicional, aos líderes das duas narrativas, cada uma dividindo o Brasil entre o bem e o mal. Num segundo turno é natural que haja uma aglutinação de forças e tendências em torno dos dois candidatos mais voltados no primeiro escrutínio, formando alianças políticas para a conquista do voto e, principalmente, a governabilidade posterior. A polarização já num primeiro turno é nefasta porque esconde as diferentes visões de mundo e projetos políticos presentes na sociedade e nas organizações políticas do Brasil, abafando e anulando a análise de alternativas para o desenvolvimento nacional.

As pesquisas mostram que será difícil o surgimento de uma alternativa. Mas não é impossível. Como a polarização eleitoral entre o lulismo e o bolsonarismo se caracteriza pela rejeição do adversário, os dois candidatos – Lula da Silva e Flávio Bolsonaro – são rejeitados por mais de 40% do eleitorado brasileiro. Estes poderiam, perfeitamente, migrar seu voto para um candidato diferente dos dois que, numa simples aritmética, ganharia as eleições. E por que, mesmo com esta alta rejeição, os dois se destacam sem deixar espaços para outros candidatos? Lula e Bolsonaro (o pai que puxa o filho) conseguiram criar imagens muito fortes, mesmo sem grandes méritos, de líderes populares. Os dois lados alimentam a polarização explorando a rejeição do outro, de modo a atrair os eleitores insatisfeitos com o adversário, e o fazem precisamente para impedir a articulação de alternativas políticas, evitar o surgimento de novas lideranças e inibir o debate de ideias e de propostas. A polarização se autoalimenta quando propaga a ideia de que não existe viabilidade para uma alternativa, que não existe vida inteligente fora do lulismo e do bolsonarismo. E quem, por alguma razão, tenta se levantar contra os dois sofre uma espécie repressão moral, acusados de servir a um dos lados, a depender do nome que defenda. É mais ou menos o que expressa o artigo de Abraham Sicsú publicado na edição passada da Revista quando diz que a articulação de uma terceira via “pode servir apenas para ajudar a consolidar o avanço de forças reacionárias e conservadoras”, ou seja, ajudaria a candidatura de Flávio Bolsonaro.

A avaliação dos dois candidatos mais cotados, como políticos e governantes (no caso de Flávio, o seu pai) mostra que o Brasil precisa de uma candidatura diferente, que promova mudanças estruturais e saia da mediocridade em que está atolado há anos. Bolsonaro é o representante de um projeto autoritário, submisso aos Estados Unidos, desrespeitoso dos direitos humanos (lembram da COVID-19?) e da diversidade, e negacionista e predador da natureza. Flávio é o representante de Jair Bolsonaro que liderou a tentativa de golpe de Estado para se perpetuar no poder e, por isto, está preso. Por outro lado, no poder há quase 20 anos, o lulismo apresentou alguns avanços sociais e mostrou respeito à democracia, mas foi o retrato da mediocridade, expressão de um incrementalismo tímido e imediatista, deixando como resultado apenas melhorias inerciais. Foram governos sem muito apreço pelo equilíbrio fiscal e uma verdadeira pulsão de gastos públicos utilizados na montagem de várias gambiarras para lidar com os problemas sociais e, ao mesmo tempo, cativar o voto da população vulnerável. A economia brasileira se arrasta há décadas com taxas modestas de crescimento (pouco mais de 2% ao ano) – o impulso nos primeiros anos de Lula, puxado pelo dinamismo global, afundou com o desastre de Dilma – a pobreza continua com taxas elevadas, 23,1% da população e quase 49 milhões de brasileiros, e 20 milhões de famílias dependem da distribuição de renda para sobreviver, 6,48 milhões de brasileiros ainda têm fome (grave insegurança alimentar) e metade dos domicílios brasileiros não tem esgotos sanitários. Na educação, a nota do Brasil no PISA- Programme for International Student Assessment – está abaixo da média da OCDE nos três quesitos (matemática, ciências e leitura) e abaixo da maioria dos países da América, Chile, Costa Rica, México, Colômbia.

O Brasil precisa de um governo comprometido com profundas mudanças que vão direto na estrutura econômica e social, que promova uma recuperação das finanças e da capacidade de investimento público, com um programa radical e ousado de educação básica e fundamental e de capacitação profissional, e estímulo à inovação, de modo a elevar a competitividade da economia e a produtividade das atividades econômicas, combinando com uma inserção competitiva na economia internacional. O que temos hoje com a polarização é a mesmice. Uma alternativa à polarização é difícil? É, bem difícil. Mas, se nos resignamos diante do quadro eleitoral atual consolidaremos a polarização e apoiando a mediocridade.