
Angústia – Egon Schiele
Preâmbulo
O ser humano vem sendo pensado em seu existir desde as mais remotas eras da civilização. A mitologia, as religiões e a filosofia foram os primeiros registros desse “existir”. Depois, vieram a ciência e suas diversas áreas do conhecimento, com seus valiosos métodos, trazendo ganhos incomensuráveis para a existência humana, em um processo cumulativo que nos conduz até os dias de hoje — onde, imersos nesse mar de tecnologia e informação — e, ainda, de guerras e ignorância — nos situamos.
Essas correntes, muitas vezes antagônicas, outras vezes em alinhamento dialético entre si, vêm, ao longo do tempo, tecendo saberes, valores e crenças que nos sustentam em sociedade.
Nesse campo — o de explicar a existência humana e decifrar seu sentido — todas tateiam em um vazio desconhecido, construindo, com suas leis, crenças e valores, as bordas desse abissal fosso do desconhecido, erigindo a realidade na qual estamos imersos.
As religiões e algumas ideologias têm o péssimo hábito de renunciar à dúvida — esse recurso fundante da ciência.
Mas, e a psicanálise? Onde ela se situa nesse cenário desafiador e enigmático?
O que Freud, em suas inquietações intelectuais, pretendia?
Todo o saber psicanalítico está centrado na alma humana — essa mesma que a filosofia vem, há séculos, tentando desvendar. Esse humano que tem suas forças pulsionais fincadas em dois atributos fundamentais da existência: a sexualidade e a morte, tão bem apresentadas na mitologia grega como Eros e Tanatos.
Uma existência em que a vida, misteriosa e rara, nos é dada para amar, sofrer e criar — dentro das nossas possibilidades — legados como a família, as ideias, a arte e o conhecimento.
Tudo o que escrevi acima, observem, está na posição de um narrador, que sou eu, naquilo que meus pensamentos me possibilitam passar da reflexão à escrita. Acontece que, no próprio narrador, habita uma instância inacessível, à qual sou alienado: a instância inconsciente. Esta, articulada à minha consciência, me move na vida com meus desejos, minhas frustrações, minhas inibições, meus sintomas e minhas angústias.
Foi nesse universo que Freud se debruçou a pesquisar — a princípio, nele próprio — com todos os desafios que isso representou. Mergulhou nos insondáveis mistérios da alma e sistematizou, em sua instância mais profunda, formas de ajudar o analisante a dar um sentido minimamente aceitável à sua existência.
Eu poderia dar início a esta escrita — que tem o ambicioso título, reconheço, mas que não me incomoda — de Psicanálise, Cultura e Sociedade, pela obra que funda os conceitos da psicanálise, A Interpretação dos Sonhos. Ou então pegar carona nas diversas biografias e lançar um voo de águia sobre tudo o que ele descobriu e tentou sistematizar, deixando seu legado para outras gerações.
Mas não. Escolhi Inibição, Sintoma e Angústia porque esta escrita não é apenas resultado de minhas inquietações e curiosidades intelectuais. Ela é, antes disso, a resultante de meus sintomas, de minhas inibições e angústias que me atravessam e me constituem — desde a mais tenra idade até hoje, aos meus setenta anos.
Uma existência que, estilhaçada aos trinta e três anos por um severo ataque de angústia, me levou à análise.
*
Mas, finalmente, vamos a Inibição, Sintoma e Angústia.
Nessa obra de 1926, Freud já manuseia conceitos desenvolvidos ao longo de sua trajetória intelectual, que tem em sua obra fundante, A Interpretação dos Sonhos, traços antecipatórios daquilo que mais tarde irá constituir o campo da psicanálise.
Assim, já com a sua segunda tópica[1] com a qual “manuseia” seu constructo para desvendar os impactos das inibições e dos sintomas na vida do sujeito, Freud escreve essa obra. Embora esse manuseio seja muitas vezes complexo, para quem não acompanhou a leitura de outras obras vou tentar apresentar os pontos focais de Inibição, Sintoma e Angústia naquilo que nos interessa nessa caminhada sobre o pensamento social de Freud.
O sujeito[2] para Freud é, em sua estrutura psíquica, dividido em três instâncias: o Eu, nosso reino da consciência, mas também da alienação, o Supereu, instância que nos impõe restrições ao princípio do prazer, dominando o Eu e viabilizando sua existência em sociedade e o Isso. Essa instância, o Supereu que tem suas origens nas figuras parentais e sua função de nos educar é também por onde se instaura a Lei (a civilização) que define nossos limites na fruição da vida.
Em outra obra, lá mais adiante, em 1930, Freud utiliza uma metáfora da fortaleza sitiada para ilustrar a posição do Supereu e a forma como a cultura (*Kultur*) age sobre o indivíduo. Essa imagem aparece no texto “O Mal-Estar na Civilização” (Das Unbehagen in der Kultur, 1930), especialmente na parte VII, quando ele discute como a civilização impõe renúncias pulsionais e como essas exigências são internalizadas pelo sujeito sob a forma do Supereu.
A metáfora é a seguinte:
“A situação seria comparável à de uma cidade sitiada cujos habitantes, para reforçar a defesa, derrubam as casas da periferia e usam os materiais para construir as fortificações.” (Freud, 1930/2010, p. 111, edição da Companhia das Letras)
Essa imagem da cidade sitiada serve para representar o mecanismo pelo qual o Eu se submete ao Supereu, renunciando a partes do seu prazer (impulsos pulsionais) para reforçar as defesas da civilização — ou seja, o pacto cultural e suas exigências morais. O Supereu, nascido da introjeção das exigências sociais, passa a ser uma instância crítica e punitiva dentro do próprio sujeito.
*
No campo da filosofia política – e aqui vou abstrair propositadamente o campo das religiões[3] – há muitas e valiosas teses para tentar explicar como o homem passou do Estado de Natureza para o Estado de Sociedade.
Como nossa história escrita é recente, apenas 3.000 A.C. , ninguém viu ou registrou essa passagem, assim temos que confiar nosso saber em mitos e hipóteses bem trabalhadas como em Hobbes, que imagina o estado de natureza uma luta incessante de todos contra todos, tendo sido, portanto a criação de um poder superior a soma de todos os poderes individuais para conter o estado permanente de guerra e instaurar a vida em sociedade; Rousseau já parte de uma visão idílica do bom selvagem, que no estado de natureza o homem vivia em harmonia com a natureza e que a passagem se deu quando “ alguém fez uma cerca e proclamou: isso aqui é meu, e ninguém contestou”, nascendo a propriedade privada. Muitas são as cosmovisões como as de Marx, Claude Levi-Strauss e outras, mas o que quero chamar a atenção aqui, voltando para a instância do Supereu é como Freud, que também organizou sua mítica passagem em Totem e Tabu[4] – eu não disse que nossa caminhada nessa floresta seria cheia de desvios e atalhos? – quando concebeu a cena mítica do pai da horda primitiva, situa a constituição do sujeito diante da civilização.
Ou seja, um sujeito, esse Eu desejante contido pela Lei tendo instaurado dentro de si mesmo seu próprio algoz que é o Supereu.
O Isso.
A descoberta e a sistematização do Inconsciente como instância fundante do sujeito é a pedra fundamental de todo o universo freudiano. É nele que residem as pulsões, nossas expressões mais primitivas desse caminhar na nossa existência. Mas é também a fonte dessa existência, pois da evolução da criança para o adulto o Isso vai sofrendo as restrições do processo civilizatório com a inserção da lei e parte da dissolução do Complexo de Édipo[5] dando origem ao Eu e ao Supereu, herdeiros “civilizados” do Isso.
Freud, distingue, após décadas de experiência clínica e teórica, as Inibições dos Sintomas e organiza, de forma complexa como se dão as formações dessas duas fontes de sofrimento da alma humana, articulada pelas três instâncias que nos constituem: o Eu, o Supereu e o Isso.
O Eu, dividido entre as demandas e ameaças da realidade externa forma, por meio dos sintomas, seus mecanismos de defesa. Entretanto, com relação às demandas e ameaças internas ele nada ou quase nada pode fazer, pois são demandas que provém do inconsciente em forma de angústia. É para conter ou transformar essa angústia, por meio da fala, dando-lhe sentido que demandamos a entrada em análise.
Em seguida, apresentamos um breve resumo sobre os tópicos de Inibição, Sintoma e Angústia nos quais Freud, incessante e rigoroso pesquisador, avança em muito do que já havia sistematizado, deixando em aberto vários caminhos a serem explorados por outros.
É um “voo de águia” sobre o texto, mas que pode ser útil para quem quiser mergulhar na obra, seja para prática clínica seja para a compreensão dos mecanismos que regem suas próprias angústias.
No próximo artigo Inibição, sintoma e angústia (2), tentaremos aprofundar nossas reflexões sobre o Isso e de como toda essa complexa estrutura (O Eu, o Isso e o Supereu) que nos constitui nos situa em sociedade.
Tópicos de Inibição, Sintoma e Angústia
- Introdução e justificativa da nova abordagem
Freud retoma a clínica e a teoria a partir da prática analítica e do impasse com os fenômenos de angústia.
Questiona e reformula suas teses anteriores sobre a angústia (em especial da Primeira Tópica).
Introduz a articulação com a Segunda Tópica: Id (Isso), Ego (Eu) e Superego (Supereu).
- Diferença entre Inibição, Sintoma e Angústia
Inibição: perda ou restrição da função do ego (ex.: paralisia, impotência). Tem um caráter funcional.
Sintoma: substituição de uma satisfação pulsional recalcada; compromisso entre desejo e defesa.
Angústia: não é produto direto da repressão, mas da ameaça de perda de objeto ou de ruptura narcísica. É sinal para o Ego.
Aqui já aparece a ideia de angústia como sinal de perigo: o Ego detecta um risco de repetição de uma situação traumática.
- A nova teoria da angústia
Freud desloca a gênese da angústia: não mais consequência da repressão, mas seu antecedente.
A angústia é sinal que prepara o Ego para reagir frente a um perigo interno (ex: retorno do recalcado, castração, separação).
Estabelece dois tipos:
Angústia realista: frente a um perigo externo.
Angústia neurótica: frente a perigos internos, ligados à fantasia e ao desejo inconsciente.
- O papel do Ego e o conflito intrapsíquico
O Ego passa a ser a instância central da defesa, mediando o conflito entre o Id e as exigências da realidade e do Superego.
A angústia é produzida pelo Ego, como reação preventiva, e não como efeito da repressão.
Os mecanismos de defesa surgem do Ego como formas de contenção da angústia.
- Revisão das neuroses a partir da nova teoria
Neurose de angústia: ligada à excitação sexual não descarregada, sem formação de sintoma recalcado.
Histeria e neurose obsessiva: implicam repressão, formação de sintoma e retorno do recalcado, com angústia como sinal.
Reinterpretação da fobia: o objeto fóbico funciona como defesa contra a angústia (ex: o caso do Pequeno Hans).
- Castração, separação e angústia
A angústia de separação é matriz de outras angústias: perda do objeto, perda do amor, medo da castração.
Aqui se entrelaçam os destinos do desejo, a construção do Superego e a renúncia pulsional.
O trauma da separação é inscrito no corpo e no psiquismo como ameaça à coesão do Eu.
- A inibição como defesa
Inibição é considerada uma forma branda e egóica de defesa, que pode ou não se vincular a angústia ou sintoma.
Exemplo: inibição da fala, da motricidade, da libido. Tem caráter adaptativo, mas pode se tornar patológica.
- O sintoma como compromisso
O sintoma é uma solução de compromisso entre o desejo inconsciente e as proibições do Ego/Superego.
É, ao mesmo tempo, satisfação e sofrimento.
Sua leitura demanda uma escuta da cena psíquica que o produziu.
- O lugar da angústia no desenvolvimento
A angústia surge desde a infância como resposta a perdas e frustrações.
Há uma gradação de angústias: da angústia sem objeto (bebê), passando pela angústia de separação e culminando na angústia de castração.
*
Freud não oferece um “manual de cura”, mas reorganiza a teoria da angústia para melhor orientar a clínica. Reconhece o papel estrutural da angústia na constituição do sujeito.
Assim a angústia é inevitável — faz parte da condição humana e da entrada no laço social.
Identificamos em Heidegger[6], cujo pensamento exercerá forte influência em Lacan, uma reflexão sobre a angústia na constituição do sujeito:
Em Sein und Zeit (1927)[7] Heidegger afirma que, ao experienciar a Angst, “as coisas se retiram e fica-nos o nada”, revelando o Dasein como ser lançado num mundo sem sentido fixo — uma existência fundada na carestia e na finitude. Lacan, inspirado em Heidegger, diz: “Somos seres desejantes destinados a incompletude e é isso que nos faz caminhar.”. Mas, deixemos Lacan de fora, por enquanto.
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O índice da série Psicanálise, Cultura e Sociedade
Abaixo, você encontrará os links que remetem aos artigos que compõem essa série, bastando com um clique para navegar, para ler na ordem em que foram escritos.
1º Psicanálise, sociedade e cultura – uma introdução
2º Psicanálise, Cultura e Sociedade – o pensamento social de Freud
3º Psicanálise, Cultura e Sociedade – Premissas
4º Inibição, Sintoma e Angústia (1)
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, S. Inibição, sintoma e angústia. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, S. O mal-estar na civilização. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
FREUD, S. Totem e tabu. Tradução de Renato Zwick. São Paulo: Martin Claret, 2003.
FREUD, S. O futuro de uma ilusão. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
HEIDEGGER, Martin.
HEIDEGGER, M. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
HOBBES, Thomas.
HOBBES, T. Leviatã: ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Tradução de João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Abril Cultural, 1974. (Coleção Os Pensadores).
ROUSSEAU, Jean-Jacques.
ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução de Lourdes Santos Machado. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
MARX, Karl.
MARX, K. O capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Boitempo, 2013.
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2010.
LÉVI-STRAUSS, Claude.
LÉVI-STRAUSS, C. O pensamento selvagem. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1975.
LACAN, Jacques.
LACAN, J. O seminário, livro 10: A angústia (1962–1963). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
LACAN, J. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
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[1] A Segunda Tópica de Freud, apresentada em O Eu e o Id (1923), reformula o aparelho psíquico em três instâncias: Id, Ego (ou Eu) e Superego (ou Supereu). O Id representa o polo pulsional, inconsciente, regido pelo princípio do prazer; o Ego surge como instância mediadora entre as exigências do Id, as exigências da realidade e as do Superego, sendo parcialmente consciente; já o Superego se constitui a partir das identificações com as figuras parentais e atua como instância crítica e normativa, ligada à moral e à culpa. Essa nova topografia substitui a Primeira Tópica (inconsciente, pré-consciente e consciente), ampliando a compreensão dos conflitos psíquicos.
[2] Freud não formulou um conceito explícito de sujeito, preferindo termos como “paciente” ou “indivíduo”. No entanto, sua teoria do inconsciente inaugura uma noção de sujeito dividido, marcado pelo recalque e pelo conflito psíquico. Essa ideia seria posteriormente desenvolvida por Lacan, que identificará em Freud a origem do sujeito do inconsciente.
[3] Sobre as religiões iremos abordar, na sequência desta série, quando formos comentar a obra de Freud O Futuro de uma Ilusão. O Futuro de uma Ilusão” (Die Zukunft einer Illusion) foi escrito por Sigmund Freud em 1927. Nela, Freud discute o papel das religiões na cultura e propõe uma visão crítica da crença religiosa como uma ilusão sustentada por necessidades psíquicas.
[4] FREUD, Sigmund. Totem e tabu: algumas concordâncias entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos (1913). In: FREUD, Sigmund. Obras Completas. Vol. 11. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
[5] O Complexo de Édipo é um conceito central da teoria freudiana, segundo o qual a criança, entre 3 e 5 anos, desenvolve desejos inconscientes pela figura parental do sexo oposto e rivalidade com o do mesmo sexo. Sua resolução é fundamental para a constituição do superego e a entrada no campo da cultura e da lei.
[6] Todos os filósofos aqui citados e seus conceitos serão sempre apresentados com olhar da psicanálise, ou do que se costuma definir como o pensamento freud-lacaniano. Talvez, seja necessário, quando formos apresentar Lacan entramos em alguns desvios dessa nossa caminhada para o campo da filosofia, mas, repito, será uma filosofia aplicada à psicanálise.
[7] Ser e Tempo (1927) é a principal obra de Martin Heidegger. Nela, o filósofo propõe uma análise ontológica da existência humana — o Dasein — como ser que compreende o ser e cuja estrutura fundamental é o tempo. A obra inaugura uma nova forma de pensar o ser, marcada pela finitude, pela angústia e pela possibilidade da autenticidade. Heidegger rompe com a metafísica tradicional e influencia profundamente o existencialismo, a fenomenologia e o pensamento contemporâneo.
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